Críticas


MISSÃO IMPOSSÍVEL 3

De: JJ ABRAMS
Com: TOM CRUISE, VING RHAMES, MICHELLE MONAGHAN, PHILIP SEYMOUR HOFFMAN
14.05.2006
Por Rodrigo Fonseca
UM DIRETOR PREVENIDO

Modelo de "namoradinho da América" de que os anos 80 tanto precisavam, Thomas Cruise Mapother IV aprendeu a voar assim que se percebeu um símbolo de "genro ideal". Ainda galã em fase de aprovação, ele arriscou viver o lado egocêntrico de uma relação fraterna maculada pelo autismo em Rain Man. Repetiu a dose de risco injetando inconformismo na veia na pele enrugada de Ron Kovic, o herói paraplégico de Nascido em 4 de julho. E quando sua ex-senhora Nicole Kidman começou a brilhar mais do que ele, em meados dos anos 90, Cruise se tornou produtor e elegeu uma franquia, calcada na ressurreição da série de TV Missão Impossível, como sua galinha dos ovos de ouro. Deu certo. Tudo! Ou quase tudo, como a terceira aventura do ator como o agente Ethan Hunt deixa crer. O vôo do astro foi emperrado por sua própria fama de divindade pop.



Houve um momento em que Cruise começou a usar a mídia para construir, fora das telas, um personagem impecável, intocável, inatingível. Aí, morreu Mapother IV e canonizou-se a figura asséptica de Tom Cruise, um Michael Jackson de Hollywood, que precisa posar com suas mulheres em público para negar a boataria de sua homossexualidade. Dizem os publicistas do Sprite que imagem é tudo, sede não é nada. Cruise confirmou a tese com sua... sede de privacidade. Tão inalcançável ela era que ele apelou para o único recurso de que um todo-poderoso disporia: a banalização. Daí as superproduções vendidas às custas de seu rosto nos cartazes. Mesmo que estas sejam filmes sobre equipes.



Desde que Brian De Palma dirigiu o genial filme número um da série Missão Impossível, o problema da auto-imolação da imagem pública de Cruise estava em crisálida. J. J. Abrams, o realizador do terceiro filme, encontrou o Cristo recrucificado nos espinhos de sua própria vaidade. Mesmo assim, ele deixou o joio de lado e "adubou" o trigo com a histeria televisiva que herdou dos produtores com quem trabalhou. Isso deixava margem para um desastre estético. Mas Abrams é um diretor prevenido. Tem o salva-vidas do bom-senso na cintura. E um domínio pleno da montagem na mão. É isso que torna MI3 perfeito. O radical controle que Abrams tem da edição: das imagens, do som, da narrativa.



Roteiro fraco vira algo crível quando a aceleração das escorregadias viradas dramatúrgicas é acelerada até uma razoável distância da pilantragem. Tudo é rápido em MI3. Mas é uma rapidez que respeita o pensamento. A racionalidade. E isso não tem nada a ver com o fato dos personagens cruzarem o limite do verossímil. São heróis. E estes, quando não-realistas, não têm obrigação alguma com a verdade mortal, apenas a intermediária condição que separa humanos e demiurgos.



Como sabia que Cruise repousa hoje no extremo reservado ao Divino, Abrams foi inteligente e tratou o ator como costuma comandar Matthew Fox, astro-rei de Lost. Até no corte de cabelo Cruise parece Fox. Mas é nos enquadramentos que se percebe a similaridade. Não dos atores, mas da direção. MI3 é um episódio comprido de um seriado bom, só que narrado com a gramática do cinema. É pipoca dourada em manteiga, que nunca sonhou ser faisão. Daí seu mérito ético, que somado à engenhosidade das seqüências de ação sustenta o entretenimento e abre brechas para se analisar (criticamente) o heroísmo. Ou melhor, a perda dele.



# MISSÃO IMPOSSÍVEL 3 (MISSION: IMPOSSIBLE 3)

EUA, 2006

Direção: JJ ABRAMS

Roteiro: ALEX KURTZMAN, ROBERTO ORCI E J.J. ABRAMS

Produção: TOM CRUISE E PAULA WAGNER

Fotografia: DANIEL MINDEL

Edição: MARYANN BRANDON E MARY JO MARKEY

Música: MICHAEL GIACCHINO

Elenco: TOM CRUISE, VING RHAMES, MICHELLE MONAGHAN, PHILIP SEYMOUR HOFFMAN, LAURENCE FISHBURNE, BILLY CRUDUP, KERI RUSSELL, JONATHAN RHYS MEYERS

Duração: 126 min.

site: www.missionimpossible.com

















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