Especiais


FESTIVAL DO RIO 2017

10.10.2017
Por Críticos.com.br
Aqui você encontra críticas atualizadas diariamente

RODA GIGANTE, de Woody Allen, filme de encerramento do Festival do Rio 2017

por Luiz Fernando Gallego

Em sua segunda colaboração com Woody Allen, o fotógrafo (conhecido como um verdadeiro pintor com a luz no cinema) Vittorio Storaro recria em várias cenas, especialmente em exteriores, o Technicolor dos filmes americanos da época em que o enredo de Roda Gigante se passa, bem no início da década de 1950.

O plano de abertura é um travelling sobre uma praia lotada em Coney Island, encimada por uma série de lojas, restaurantes, atrações de mafuás e parques de diversões. Se o cinéfilo lembrar das cenas iniciais de Lana Turner em Imitação da Vida na versão de 1959 de Douglas Sirk, não estará longe do que Allen faz aqui: um melodrama chapado, gênero praticamente ausente de sua filmografia até agora, pelo menos de modo tão despudorado. Em vez de fazer como Todd Haynes em Longe do Paraíso (2002), sofisticando o melodrama, Allen parece ter preferido mimetizar os dramalhões com Bette Davis. A interpretação em overacting de Kate Winslet tem tudo a ver. E assim como a personagem de Lana, a de Kate é atriz, ou melhor, foi atriz amadora, tinha pretensões maiores, mas está relegada a trabalhar como garçonete, ambicionando um verdadeiro milagre de ascensão social e profissional através da relação extra-conjugal com um candidato a dramaturgo interpretado por Justin Timberlake – que, por enquanto, não passa de estudante ganhando a vida como salva-vidas (duplo sentido bem melodramático; aliás, o personagem dele é também um pouco narrador da história e se anuncia como desejando escrever... melodramas para o palco).

Em seu filme anterior, subestimado pela crítica americana, mas belíssimo, Café Society, Allen se dividia entre a Hollywood luxuosa dos anos ’30 e uma parte pobre da costa Leste. Desta vez, os personagens são todos abaixo da classe média pobre, uma raridade em filmes "sérios" do diretor. Em Café Society Hollywood aparecia em tons de azul e dourado, mas os parentes pobres eram vistos em tons de cinza ou marrom. Aqui, os interiores da casa de Humpty (James Belushi, ótimo), marido de Ginny (Kate), surgem iluminados frequentemente por letreiros luminosos do lado de fora em fortes tons de vermelho ou azul, podendo mudar de cor ao longo da tomada, ou mesmo mergulhar no escuro, perder a iluminação, num evidente efeito “teatral”, como que feito para os palcos onde Ginny quer voltar a estar. Mas em sua vida real ela jamais desejaria estar - como está - em um melodrama à moda de Tenneesse Williams ou de Eugene O’Neill - só que de segunda ou terceira categoria.

Os diálogos, como de hábito em Allen, são longos e há longas fala para Ginny: por vezes ele usa longos planos-sequência, mas também não evita o plano/contra-plano quando ela conversa com Mickey, o amante de quem ela espera tudo. Especialmente quando a relação entre eles começa a travar pelo interesse do rapaz em Caroline (Juno Temple, também ótima), enteada de Ginny.

Em seus discursos intelectualizados, o estudante de teatro menciona a “falha trágica” dos personagens das tragédias gregas, ou seja, a responsabilidade que eles têm pelo que lhes acontece. Allen também coloca nas mãos do guarda-vidas um livro clássico da literatura psicanalítica em que Hamlet é equalizado a Édipo: seja pela falha trágica que cumpre o destino, seja por motivações inconscientes, assume Allen através de seus personagens, somos responsáveis pelo que fazemos de nossas vidas, não dá para colocar toda a culpa nos outros - exceto talvez pelo acaso quando o destino (ananke) se cumprirá... pelo que também fazemos com os acasos.

Tudo isto vem embalado como que num melodrama antigo da Warner Bros para Bette Davis fazer aqueles tipos sofridos e/ou maldosos. O estranhamento provocado pelo estilo talvez desagrade os fãs do diretor, mais habituados a esperar algum humor mesmo quando ele não filma comédias. Desta vez o humor se restringe ao filho que Ginny teve em outro casamento, um garoto que não sai do cinema, ou sai: para satisfazer impulsos piromaníacos.

Pode não ser um dos maiores filmes de Woody Allen, Justin Timberlake não foi a melhor escolha para o papel, mas não deixa de ser muito ousado ver o octogenário diretor arriscar-se em um gênero inabitual, enganando quem esperar algo mais divertido pelo título que lembra parque de diversões. Na verdade, a sugestão que fica é mais a da “Roda da Fortuna” que pode levar você para o alto, ou virar para baixo. A ousadia também se estende a Kate Winslet: Ginny joga todas as fichas num relacionamento de verão e a atriz se joga por inteiro na personagem com os exageros do gênero.

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GOD’S OWN COUNTRY, de Francis Lee

por Luiz Fernando Gallego

Ótima estreia na direção em longa-metragem do ator Francis Lee, filmado na região de Yorkshire onde ele nasceu e foi criado, God’s Own Country aborda o relacionamento entre um jovem fazendeiro que trabalha pesado no dia-a-dia com um empregado temporário que é imigrante romeno. Até então, tudo leva a crer que Johnny se satisfazia com transas casuais sem querer desenvolver nenhuma aproximação com os parceiros fora do estritamente sexual. Gheorghe, o imigrante, em princípio, “sabe o seu lugar” de empregado e só avança na relação a partir de uma confusa abertura, por parte de Johnny, para algo que o "patrão" jamais experimentara na esfera dos afetos.

Como em outro filme de temática homossexual exibido deste festival do Rio 2017 (Me chame pelo seu nome), pode-se questionar um certo grau de romantismo idealizado no enredo: não que em God’s Own Country haja o mesmo clima terno e elegante bem adolescente do outro filme; pelo contrário, aqui vemos homens brutos acostumados a trabalhar com gado, capazes de brigar tanto como de transar sem (ou com) maior envolvimento afetivo. Não deixam de lembrar os vaqueiros americanos de Brokeback Mountain. Aqui, a questão idealizada é o surpreendente acaso que faz com que o pai de Johnny, semi-inválido para as tarefas extenuantes, contrate exatamente um homem que também transa com homens, assim como seu filho – sem que o pai ou a avó de Johnny conheçam este aspecto da vida íntima do rapaz, pelo menos de modo evidente.

Dado esse desconto ao acaso, afinal, uma possibilidade, seja mais ou menos plausível, o que importa é a direção segura no desenvolvimento do filme: enquadramentos, cortes, posição da câmera, tudo que diz respeito à narrativa imagética serve adequadamente ao que o roteiro do próprio diretor pretendeu. Quanto aos preconceitos externos, o que se vê (e apenas rapidamente) é muito mais uma questão de xenofobia do que de homofobia, um dos aspectos que assinalam as diferenças entre este filme e o dos cowboys dirigido por Ang Lee em 2005.

No elenco, um dos destaques é o protagonista, Josh O’Connor, com seu semblante fechado de poucos amigos, compondo um Johnny tenso e rude que precisa dissimular sua fragilidade emocional até quando não pode mais escondê-la; mas Alec Secareanu não fica atrás no desenho do imigrante romeno mais maduro emocionalmente do que Johnny. O veterano Ian Hart (que foi John Lennon em Backbeat, de 1994) e a veteraníssima Gemma Jones dão colorido a personagens igualmente sofridos e afetivamente “secos” como a paisagem exemplarmente fotografada pelo quase estreante Joshua James Richards. O filme está na repescagem do Festival nesta segunda-feira 16/10 à tarde.

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PATTI CAKES , de Geremy Jasper

Por Daniel Schenker

O cotidiano de Patricia Dombrowski (Danielle MacDonald) não é dos mais fáceis: sofre bullying por causa do excesso de peso (convive desde a infância com o apelido de Dumbo), se vê obrigada a lidar com as frustrações da mãe (Bridget Everett), que não seguiu carreira profissional de cantora, se depara com dificuldades para se lançar como rapper, transita entre empregos pouco estimulantes e mora em Nova Jersey, distante, portanto, da cena artística de Nova York. Mas ela conta com aliados – o amigo Jheri (Siddhart Dhananjay), a avó Nana (Cathy Moriarty) e um músico gótico, misterioso e recluso, Basterd (Mamoudou Athie), que atrai Patricia pelo som desesperado, catártico.

Geremy Jasper entrelaça realidade e desejo ao inserir sequências surreais no dia a dia da protagonista. O resultado transborda energia e também conquista pelas personagens e situações empáticas, em especial no momento em que Patricia, Basterd, Nana e Jheri se juntam e formam a banda PBNJ. A avó interpretada por Moriarty concentra as passagens mais divertidas do filme. Contudo, não há como deixar de perceber determinadas soluções previsíveis presentes no roteiro, assinado pelo diretor. Exemplos: na pior fase da vida de Patricia, aparece uma ótima oportunidade de trabalho; no instante em que ela finalmente tem a chance de se expressar como artista diante do público, a mãe, que até então não acreditava em sua capacidade, surge para apoiá-la; e a mensagem esquemática se impõe no desfecho – algo como “o mundo é cruel, mas, com boa dose de talento e perseverança, você pode vencer”.

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HANNAH, de Andrea Pallaoro

por Luiz Fernnado Gallego

Hannah estabelece uma relação de poder com o espectador, já que escamoteia a origem da situação em que a personagem-título se encontra: já uma senhora de idade, bastante formal, ela trabalha como faxineira e também faz aulas de teatro, nada em um clube... A detalhada demonstração do dia-a-dia de Hannah procura deixar evidente que há discrepâncias entre suas tarefas mais humildes e seu lazer. O segredo, um tanto “de Polichinelo”, vai ser revelado aos poucos: o marido, igualmente idoso, está preso e ela vai visita-lo. O motivo da prisão ficará evidente após uma descoberta casual de um envelope só perto do desfecho. Também há cenas "simbólicas" (baleia encalhada na praia) de gosto duvidoso.

Apesar do domínio da câmera fluida e da expressiva fotografia, o filme fica bastante apoiado nos ombros de Charlotte Rampling, prêmio de interpretação feminina no Festival de Veneza deste ano, fato que surpreendeu os críticos que apostavam em outras interpretações. Não se trata de retirar seus méritos: em sua filmografia há mais de 120 participações em 54 anos de carreira iniciada como modelo, tendo sido logo solicitada para filmes de Richard Lester e de outros diretores do cinema inglês da era Betales, tendo participado em seguida de filmes de Luchino Visconti, Liliana Cavani (O Porteiro da noite firmou seu nome pelos sucesso de escândalo do filme) e Giuliano Montaldo, dentre outros. Sua carreira esteve interrompida por três anos até que reapareceu em um filme de Woody Allen, e com o tempo filmou com Oshima, Cacoyanis e esteve em várias incursões de François Ozon. Envelhecendo sem esconder os 71 anos, Rampling ultimamente tem feito vários papéis característicos para sua idade, temperamento e semblante, com boa aceitação, incluindo uma indicação ao Oscar por 45 anos. Mesmo se repetindo, ela é a alma de Hannah, mas o filme se ressente de ter pouco corpo (excesso de silêncios e cenas triviais do dia-a-dia) para satisfazer o público.

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ANOS DOURADOS, de André Téchiné

por Luiz Fernando Gallego

Homenageado no Festival de Cannes 2017 por seus 50 anos de carreira, o diretor André Téchiné teve exibido hors-concours este seu mais recente filme, Os Anos Dourados : uma péssima tradução para o título original Nos années folles que, ao pé da letra, seria “nossos anos loucos”, em alusão aos anos 1920 (também conhecidos como The Roaring Twenties ou/e “da era do jazz”), mas também aludindo aos anos de “loucura” do casal Paul e Louise Grappe entre 1914 e 1928 por motivos que explicitaremos logo adiante. O site IMDb também informa que “folle” seria um termo pejorativo para “gay”, acrescentando outra conotação a mais

Desertor da I Guerra, Paul aceita a ideia de sua esposa: vestir-se de mulher, já que um homem jovem fora do exército era mal visto na França de então (um covarde, talvez desertor, etc) e ele poderia ser condenado à morte pela deserção. Até certo ponto esta sinopse pode lembrar A Garota Dinamarquesa, mas as semelhanças acabam por aqui: Paul jamais pretende mudar de sexo, descobrindo, entretanto, uma forma de sobrevivência financeira ao prostituir-se, travestido, no Bois de Boulogne. Há uma cena em que, usando roupas femininas pela primeira vez, ainda escondido do exército, fica excitado e transa com Louise. Mais adiante, vamos saber que ele passaria a manter relacionamentos homossexuais (com homens - ou também com mulheres, já que se apresenta como ‘Suzanne’) e participaria de diferentes variações sexuais com múltiplos parceiros.

Uma questão vai se colocar quando surge a anistia para desertores que viviam escondidos: Paul não se adapta mais plenamente ao papel social masculino, podendo ser problematizado um aspecto transgênero, ainda que ele tenha sido essencialmente travesti sob o nome de Suzanne Landgard.

O estudo de um caso transgênero na época foi o gancho que interessou aos historiadores Fabrice Virgili e Danièle Voldman no livro La garçonne et l’assassin : Histoire de Louise et de Paul, déserteur travesti, dans le Paris des années folles, lançado em 2011 e adaptado um tanto livremente por Téchiné em parceria com Cédric Anger (que também colaborou em outro filme do cineasta, O Homem que elas amavam demais, de 2014).

Não adianta lamentarmos que o roteiro não tenha dado prioridade aos desconcertantes fatos reais selecionados pelos historiadores. Entretanto, independentemente disto, o filme se ressente de algumas opções narrativas que deixam o resultado final irregular, ainda que sempre instigante. Por exemplo, parte do enredo é mostrada através de um espetáculo de cabaré sobre a vida de Paul e Louise. O recurso não é novidade e pode ser interessante, mas, por vezes, não há clareza para o espectador, já que a cronologia das cenas “teatrais” nem sempre é a mesma das cenas “reais”. A redução de alguns episódios documentados à representação no palco pode ter sido econômica, mas, em outro exemplo, não passa a ideia de que uma mulher saltar de paraquedas era um significante de lesbianismo no imaginário da época. E ‘Suzanne’ teria saltado 18 vezes! Na narrativa - digamos - "convencional" (fora do espetáculo de cabaré) uma elipse não diz o destino de uma primeira gravidez de Louise: ela abortou? Não sabemos. E por que não contava a Paul que estava grávida?. Tais respostas importariam bastante, já que uma segunda gravidez vai merecer rejeição por parte de Paul, quando ‘Suzanne’ já teria sido abandonada (mas não completamente), levando à mais grave crise do casal.

Como em O Anjo da Guerra (Les Égarés, de 2003), o filme tem evidente caráter antibelicista. E diversos filmes de Téchiné abordam sexualidades consideradas “heterodoxas” (hoje em dia, bem menos): já deu a Catherine Deneuve uma personagem lésbica (Os Ladrões, 1996) e mais de uma vez abordou homossexuais masculinos e/ou bissexuais (As Testemunhas, 2007). Como de hábito em seus filmes, os atores se destacam: Pierre Deladonchamps (de Um estranho no Lago) e Céline Sallette (de L'Apollonide - Os Amores da Casa de Tolerância) transmitem bem a indefinição e ambiguidade da dupla. Cabe ainda destacar a fotografia de Julien Hirsch (premiado com o 'César' por Lady Chatterley, versão francesa de 2006, além de ter participado de vários dentre os mais recentes filmes de Téchiné).

Apesar dos aspectos antes mencionados menos satisfatórios, um primeiro contato com a impressionante história real já vale o filme que prende a curiosidade do espectador por outras características: qualidade da encenação,os desempenhos e a beleza de várias tomadas.

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DESARQUIVANDO ALICE GONZAGA, de Betse de Paula

por Marcia Vitari

Em 1930, Adhemar Gonzaga cria o primeiro estúdio de cinema no Brasil: a Cinédia. Sua filha, Alice Gonzaga, fica como guardiã de um imenso acervo que até hoje diariamente cataloga, documenta, arquiva. Sua personalidade esfuziante não caberia numa gaveta, compartimento que ela abre e fecha ao longo de anos. Papéis, fotos, diários. A cineasta Betse de Paula, com intimidade e traquejo, observa e instiga sua personagem a apresentar fatos e versões. Alice, extrovertida e franca, vai desfiando sua história pessoal junto com a história do cinema brasileiro.

Ao longo de 88 minutos vemos trechos de filmes realizados no estúdio dirigido por cineastas consagrados tais como Humberto Mauro, Oduvaldo Viana e até Orson Welles que conseguiu equipamento emprestado quando a RKO recolheu seu material de volta aos Estados Unidos. Em “Lábios sem Beijos”, sua mãe, a atriz Didi Vianna, passeia num fotogênico Rio de Janeiro de 1930. Na cena antológica de Vicente Celestino cantando “O Ébrio”, filme de 1946, a plateia fica inebriada. Alice acredita ser o filme de maior público até então, até mais do que foi “Dona Flor e Seus Dois Maridos”.

O documentário ganha vida com o vigor de Alice no país da regras, ordens e método. Mas, o que poderia parecer tedioso, torna-se divertido pela maneira low profile que submete cada assunto e decisão, por mais sério que possa parecer. Estoica, fala da separação dos pais e ausência da mãe. De sua ida ao internato em Petrópolis, de sua peculiaridade para uma moça daquela época: frequentava bailes e boates, usava maiô de duas peças. Da decisão de fazer um curso de secretariado para voltar a estar ao lado do pai de quem nunca se manteve distante. Uma paixão pelo cinema que vem do avô João Antônio Gonzaga que chegou a ter uma fábrica de filmes e ajudava cinemas, como fez com o Iris, próximo à Praça Tiradentes.

É com orgulho que ela fala da atividade que exerce desde os sete anos onde tudo começou em São Cristovão. De serem responsáveis pelo filme considerado um monumento do cinema nacional que é “Limite”. Vemos gravações dela bebê feitas pelo grande fotógrafo Edgar Brazil. Depois, com a mudança para Jacarepaguá, há momentos de apreensão com a catástrofe de 1996 que inundou a região e quase destruiu todo o acervo do estúdio. O esforço do Hernani Heffner, da Cinemateca do MAM, que enfrenta a inundação e teve o fairplay de colocar os rolos diante de holofotes que os aquece e ajuda a secar, minimizando as perdas. Até o evento festivo quase catástrofe de incendiar filmes em nitrato no centro do terreno como uma grande fogueira.

O que não se pode é acusar Alice de ser alguém sem iniciativa, ação. Pai diretor, mãe atriz, escreveu artigos para a revista Cinearte, mãe de três filhas, síndica no prédio onde mora há mais de trinta anos, faz sua caminhada e mergulha no mar toda manhã. Diz que não cede, não doa, nem empresta nada porque sabe o trabalho que dá para manter este material por tanto tempo e que pretende encontrar um interessado que possa fazer bom uso de tanta informação. Ela diz não ter trabalho para desarquivar, pois o trabalhoso é recolocar algo de volta, já que sempre se requalifica. Alguém que enxerga uma mudança em tudo, até mesmo num arquivo supostamente estático. Nunca deixou sua atividade de lado. Porque tem prazer. Porque sente-se livre e dá valor ao que tem e seu legado.

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120 BATIMENTOS POR MINUTO , de Robin Campillo

Por Daniel Schenker

Em 120 Batimentos por Minuto , Robin Campillo insere o espectador nas acaloradas reuniões do grupo ativista Act Up, que reivindica melhores condições aos contaminados pelo vírus da Aids, seja protestando contra a demora dos laboratórios farmacêuticos em fornecer remédios numa época (o começo dos anos 90) em que as formas de tratamento estavam se revelando ineficazes, seja chamando atenção para a importância da prevenção por meio de ações como distribuição de preservativos nas escolas. O cineasta frisa a estrutura das reuniões (no que se refere à tentativa de imprimir uma organização), as colocações de cada um e as divergências que surgem, às vezes de modo passional. E se distancia desse ambiente ao mostrar a militância do grupo nas ruas e nos espaços das instituições.

Mas o filme não se limita a registrar esses encontros. Também individualiza personagens, como Sean (Nahuel Pérez Biscayart), soropositivo, Nathan (Arnaud Valois), não contaminado, que iniciam um relacionamento, Thibault (Antoine Reinartz), com quem Sean tem conflitos, e Jérémie (Ariel Borenstein), que não reage bem à medicação disponível. Em determinado instante, Campillo abafa o som ambiente numa das sequências de reunião para se concentrar em Sean e Nathan. Alguns personagens relembram o passado em cenas intimistas, parte delas marcada por momentos de sexo filmados de maneira expressiva. Apesar de quase todos serem jovens, as famílias pouco aparecem. Há breves menções a mães que lutam por filhos doentes e a presença destacada da mãe de Sean (Saadia Bentaïeb), ao final. Vencedor do Grande Prêmio do Júri e do prêmio Fipresci no Festival de Cannes, 120 Batimentos por Minuto evoca, ao longe, Meu Querido Companheiro (1989), de Norman René, que, mesmo retratando um período anterior ao trazido à tona nesse trabalho de Campillo, abordou a dizimação provocada pela Aids, doença, de início, difundida como “peste gay”.

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OS MEYEROWITZ: FAMÍLIA NÃO SE ESCOLHE (HISTÓRIAS NOVAS E SELECIONADAS), de Noah Baumbach

por Luiz Fernando Gallego

Se o cinéfilo prefere ver filmes em salas de cinema, só há mais duas oportunidades (sexta, 13 em Niterói e domingo, 15 no Rio) durante o Festival 2017 para assistir o mais recente filme de Noah Baumbach, feito para a Netflix - o que gerou controvérsias quando foi lançado no Festival de Cannes deste ano.

Depois de conhecer o filme no Odeon, acho que funciona melhor em tela grande, mas não deve fazer feio em telas menores. Talvez seja o melhor filme do diretor desde Margot e o casamento (2007), repetindo temas familiares, já anunciados como de origem autobiográfica desde que Baumbach lançou A Lula e a Baleia em 2005. Desta vez, o pai artista e egocêntrico é vivido por Dustin Hoffman com a competência de sempre, sem escorregar em caricatura, mas suficientemente irritante.

Um casal de filhos (Adam Sandler e Elizabeth Marvel), menos prestigiados pelo pai, mostram-se mais submissos do que o favorito, de outro casamento posterior (Bem Stiller, já numa terceira colaboração com o cineasta). O pai, já idoso, está com a quarta companheira (EmmaThompson, igualmente competente em se fazer superficial e pouco simpática). Mas a alma do filme está mesmo na dupla Sandler-Stiller, atores que têm fãs e desafetos - mas mesmo estes terão que reconhecer que os dois estão muito bem, ainda que o destaque maior vá para Sandler. Outros atores famosos aparecem em pequenos papéis, como Candice Bergen em uma única cena.

Com humor doceamargo, o filme tanto diverte como provoca algum desconforto pelo contraste de atitudes entre os filhos: o preferido é o que mais se esforça em ser crítico ao pai, enquanto os outros dois, tratados com indiferença, não conseguem dizer não aos caprichos e exigências do vaidoso escultor, talvez mais superestimado por si próprio do que o grande artista que se crê? Mas, como sabemos nada é tão simples entre filhos e pais; e também no caprichado roteiro do próprio Baumbach aproximações e distanciamentos assumirão variadas configurações em diferentes momentos.

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RASTROS, de Agnieszka Holland

Por Octavio Caruso

Cenas importantes como a do padre católico defendendo que Deus fez os animais para serem subservientes aos homens, pensadas como dramaturgia rasa de telenovela, filmadas sem qualquer sutileza, prejudicam um filme que tenta desesperadamente transmitir sua mensagem nobre com imperdoável didatismo. A solitária professora Janina, vivida por Agnieszka Mandat-Grabka, é uma ativista pelos direitos animais que passa a investigar a origem misteriosa de uma série de crimes que ocorrem na Polônia.

Como crítica à cultura da caça e aos dogmas religiosos, o esforço é tremendamente válido, mas enfraquecido pela previsibilidade absurda que envolve o desenvolvimento do roteiro e, especialmente, opções estéticas como o foco nos olhos ou lábios dos personagens quando expressavam algo asqueroso, recursos simplórios e desgastados. O ritmo se perde após os primeiros trinta minutos, a experiência se torna bastante cansativa, a diretora Agnieszka Holland parece não saber exatamente qual subtrama seguir.

“Rastros” não é competente enquanto suspense e a tentativa de injetar um interesse romântico no momento mais equivocado é pífia, sem qualquer relevância. Nas mãos dos irmãos Coen, este projeto até poderia funcionar, mas nem mesmo a aura de fantasia que a diretora estabeleceu tão bem em seu “O Jardim Secreto”, elemento presente no livro original de Olga Tokarczuk, consegue ser emulada desta feita. O melhor trabalho de Holland continua sendo “Eclipse de Uma Paixão”, de 1995.

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SEVERINA , de Felipe Hirsch

por Daniel Schenker

Felipe Hirsch se vale do recurso da narração, que pressupõe um certo distanciamento, numa história sobre paixão, na qual o protagonista (e narrador) se revela cada vez mais enredado nos acontecimentos e, portanto, menos capaz de se perceber à distância. O personagem em questão é um jovem livreiro e aspirante a escritor (Javier Drolas), que se envolve com uma mulher (Carla Quevedo) de identidade misteriosa, que rouba livros do seu e de outros estabelecimentos. Mergulhar nos livros pode significar a tentativa de experimentar diversas vidas. Uma personagem nebulosa (concreta ou projeção de um delírio?), que dá a sensação de que as informações transmitidas como verdadeiras não o são necessariamente, que não há como apreender o real.

A jornada dos personagens é ambientada em livrarias antigas e efervescentes. São lugares de resistência – a julgar por falas do protagonista, que afirma com alguma constância que ainda existem pessoas que amam os livros e viabilizam a permanência das livrarias. Um dos frequentadores opina que o papel demorará muito para desaparecer completamente. A atmosfera das livrarias e os espaços onde estão localizadas – em ruas quase desertas e acinzentadas de Montevidéu – talvez sejam mais sedutores do que a história em si.

Escorada em conto do escritor guatemalteco Rodrigo Rey Rosa e dividida em oito capítulos e um epílogo, essa segunda incursão de Hirsch, experiente encenador teatral, na direção de longa-metragem (a primeira foi Insolação , de 2009) evidencia uma disposição maior do cineasta a se conectar com uma faixa mais ampla de espectadores, mas essa comparação entre essa nova produção e a anterior não deve ser traduzida como juízo de valor. Contando com pequena participação do ator Daniel Hendler, presença habitual em filmes de Daniel Burman, Severina é uma realização dedicada ao diretor argentino Hector Babenco.

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LOGAN LUCKY - ROUBO EM FAMÍLIA, de Steven Soderbergh

Por Octavio Caruso

Se a estratégia do Steven Soderbergh com todo aquele papo de aposentadoria objetivava tirar da equação o elemento da expectativa em seus trabalhos, funcionou sobremaneira, porque se “Logan Lucky” viesse na esteira de seus projetos mais celebrados, provavelmente seria ignorado, mas, como inesperado retorno, entrega em sua leveza despretensiosa um par de horas agradáveis. Um filme de assalto em que o roteiro faz questão de não levar seus personagens a sério, espécie de primo pobre e propositalmente desajeitado de “Onze Homens e Um Segredo”, refilmagem do clássico protagonizado por Frank Sinatra, que Soderbergh revitalizou em 2001.

Adam Driver e Channing Tatum vivem irmãos (ideia, por si só, engraçada) que se unem em um plano para fazer um assalto em plena corrida da NASCAR, mas quem rouba verdadeiramente a cena é Daniel Craig, vivendo um especialista que, de tão competente, acabou na penitenciária. Eles irão eventualmente unir forças com a irmã azarada, vivida por Riley Keough, neta de Elvis Presley. O terceiro ato perde ritmo com a entrada de uma personagem sem relevância na trama, momento inglório de Hilary Swank, desperdiçando tempo precioso que poderia ter sido utilizado para aparar arestas nas personalidades dos principais, que, sem exceção, são caricaturas unidimensionais. O humor funciona na maior parte das vezes, mas o charme inicial se desgasta rápido. Entretenimento inofensivo, o que não é um grande elogio quando se trata de um diretor como Soderbergh.

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MARJORIE PRIME, de Michael Almeyreda

por Luiz Fernando Gallego

Marjorie é uma senhora de 85 anos que ficou viúva há 15 mas conversa diariamente com Walter, seu marido - e ele aparenta ter uns 40 anos. Trata-se de um programa holográfico de Inteligência Artificial que tem dados sobre o falecido para mimetizá-lo e acumula novos dados com as conversas que mantém com Marjorie. 'Ele' também é instruído por Jon, seu genro. Marjorie está numa fase oscilante de Alzheimer e tanto pode ter dias em que oferece novas lembranças para ‘Walter’ quarentão, como receber lembranças de coisas que ela já esqueceu mas que ‘Walter’ tem arquivadas. Ela escolheu essa aparência do Walter aos 40, mesmo que na realidade ele fosse mais velho do que ela.

A elaboração das perdas já mereceu um famoso ensaio de Freud sobre o processo de luto, ainda que nem sempre plenamente satisfatório: como, de fato, convivemos com a ausência definitiva de um ente muito amado? Como sobrevivemos às perdas mais significativas? E esta não é a única questão levantada pelo roteiro de Jordan Harrison (autor da peça original e finalista do Pulitzer 2015) em parceria com o diretor Michael Almeyreda: Marjorie, além de perda(s) objetiva(s) também está se perdendo pela doença que destrói sua memória.

O riquíssimo texto da peça original muito bem adaptada no roteiro tem várias outras camadas de leitura: somos feitos da mesma matéria dos sonhos, já dizia Shakespeare, mas também da relação intersubjetiva com os outros. Mesmo que ‘Walter’ não seja um humano, ele é formado pelas lembranças de Marjorie e de Jon; assim como a Marjorie do presente é atualizada pelas lembranças dela mesma, ainda que perdidas, mas recuperadas por ‘Walter’ - que por usa vez é formado pelas memórias dela, de Jon e do que mais a I.A. possa encontrar sobre quem o Walter-humano foi... na internet.

A dificuldade de lidar com as perdas e elaborar o luto é exemplificada também por outras situações mencionadas, como o fato da família composta por Marjorie, Walter e Tess (a filha deles) ter tido dois cãezinhos com o mesmo nome, Toni e Toni-2 (Toni-two), como se o segundo fosse a continuidade do primeiro que morrera. Ou "o mesmo" (na vivência que nega a perda do anterior)? O ‘Walter’ holográfico seria como um Toni-two, um “Walter-two”?

Para problematizar mais as relações dos humanos com a tecnologia que, no futuro próximo em que se passa a história, seria capaz de, digamos, refletir, ou melhor, como que “replicar” humanos (por mimese virtual, pois não se trata de clonagem – ainda) o filme traz diversas alusões e referências variadas que podem chegar à letra de "I shall be released”, de Bob Dylan, que abre com o verso They say everything can be replaced. E ‘tudo” pode mesmo ser substituído?

O enredo nem pára por aqui, mas não vamos cometer spoilers. Trata-se, sem dúvida, de “teatro filmado” - e da melhor qualidade, quase um “peça de câmara” que pode lembrar um pouco (especialmente no final) alguns recursos utilizados por Alain Resnais em Providence ou em Medos privados em lugares públicos.

Como curiosidade, Almeyreda rodou o filme em apenas 13 dias (!), aproveitando a mesma atriz que criou a personagem Marjorie nos palcos, Lois Smith - e que está absolutamente excepcional. O texto deve ter encantado os atores Jon Hamm (de Mad Men) e Tim Robbins, já que são uns dos co-produtores, além de interpretarem os dois principais papéis masculinos, o de ‘Walter', e o de Jon, respectivamente. Em outros momentos Jon Hamm é Walter real numa memória (de quem?). Além deles dois, é uma satisfação rever Geena Davis mostrando que continua a ser excelente atriz, apesar do botox.

O desenho de produção de Javiera Varas, a cenografia (quase sempre interiores, claro) de Roxane Kratt, a fotografia sensível no uso das cores por Sean Price Williams assim como a música de Mica Levi (indicada ao Oscar por Jackie) são elementos que contribuem para o resultado emocionante que o filme alcança. Mas também caberia citar outras peças musicais utilizadas na trilha sonora, diegética ou não, de Poulenc a Mozart.

Também não há como deixar de lembrar os jardins de Ano Passado em Marienbad (novamente Resnais, já que é um filme que trata de memórias perdidas, arquivadas ou falseadas) em relação a uma pintura vista em uma cena passada num museu.

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CORPO E ALMA, de Ildikó Enyedi

por Luiz Fernando Gallego

Raramente um filme recebe o maior prêmio de um festival importante e ao mesmo tempo o prêmio da Crítica (FIPRESCI) e do Júri Ecumênico. Pois foi o que aconteceu com o húngaro Corpo e Alma, premiado com o Urso de Ouro em Berlim 2017 quando também fez jus a mais estas duas outras relevantes premiações. É a primeira oportunidade que o público brasileiro está tendo de conhecer uma obra da diretora e roteirista Ildikó Enyedi que não filmava há 18 anos (!). Se possível, guardemos o seu nome.

O filme aborda o encontro entre um homem que tem o braço esquerdo paralisado, chefe de orçamento de um matadouro, e a nova fiscal de qualidade, uma moça tímida, fechada, rígida, com memória prodigiosa, mas com a afetividade de algum modo comprometida. Ao longo do filme saberemos que ela eventualmente se consulta com um provável terapeuta... infantil. Desconfortável, o profissional tenta encaminhá-la para um terapeuta de adultos sem que ela aceite.

O enredo é bastante original, oscilando entre comédia amarga e drama romântico com pitadas de ironia. O não-casal central tem à sua volta personagens secundários que emprestam variações à situação de base, com destaque para o de uma psicóloga de seios grandes realçados pelas blusas que usa. As entrevistas levadas a cabo por ela são bastante toscas, abordando os primórdios da vida sexual dos funcionários do frigorífico (!) e a pergunta "qual o sonho você teve na noite passada?" - uma caricatura da pior psicanálise de botequim (ou “selvagem”, como Freud desqualificou incursões deste tipo por parte de gente despreparada para o ofício).

Uma coincidência bastante peculiar vai dar a partida mais curiosa do roteiro muito bem desenvolvido, bastando que o espectador tolere algumas cenas iniciais no matadouro, daquelas que criam novos vegetarianos. Elas antecipam outro momento tenso que merece ser igualmente tolerado para aguardar o algo surpreendente, mas coerente, desfecho.

Também surpreende ser este o primeiro desempenho de Géza Morcsányi, até então tradutor de peças russas para o húngaro, diretor teatral e roteirista. A seu lado, a atriz Alexandra Borbély evita qualquer caricatura em que seu desempenho poderia resvalar: é com extrema delicadeza que ela cria uma personagem de traços autistas.

Distante do cinema mais exigente de um Bela Tarr, esta produção húngara tem grandes chances de agradar ao público e, pelos prêmios recebidos, à crítica e aos júris de festivais. Também é o candidato oficial da Hungria ao Oscar 2018 de filme estrangeiro

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A FORMA DA ÁGUA, de Guillermo del Toro

por Luiz Fernando Gallego

Desta vez, o diretor reduziu a escatologia que comprometia a boa proposta inicial de O Labirinto do Fauno (se quiser, leia minha crítica em http://criticos.com.br/?p=1127) e sai do atoleiro em que se meteu ao tentar reciclar de modo infeliz o “terror gótico” em A Colina Escarlate (2015). Como no Labirinto, o tom é de fábula, o que permite algumas facilidades por um lado - mas traz alto risco de estereótipos por outro – na definição bem clara do pretendido. Realmente, o cineasta deixa bem explícita sua ojeriza por preconceitos contra as mais diversas minorias: negros, gays, pessoas de profissões tidas como de "baixo estrato social" (faxineiras), ainda mais se forem deficientes (e a personagem central é muda e faxineira), além da xenofobia para com estranhos (a tal “forma” que nem é tão disforme assim: não deixa de ser humanoide, ainda que com aspectos de criaturas aquáticas)... Enfim, todos esses preconceitos que voltam a se manifestar de modo assustador nos dias de hoje, para não mencionar essa preocupante “era Trump” (ainda que não só). Como época da ação, a bem escolhida da “guerra fria”, da “corrida espacial” e dos sonhos democráticos da era Kennedy inicial começando a fazer água.

Mas de boas intenções não se faz um bom filme e del Toro caprichou no modo de contar sua história. Efeitos especiais, como de hábito, estão lá, mas sem o abuso que ajudou a enterrar A Colina Escarlate. Aqui, os truques visuais estão a serviço do enredo e das necessidades que o roteiro exige.

Contando com um elenco afinadíssimo, os aspectos mais unidimensionais dos personagens fabulares ganham mais profundidade, o que é verdade até mesmo para o fantástico desempenho de Doug Jones, mais uma vez sob máscara e próteses, com uma expressão corporal de se admirar - ainda que sendo apenas um pouco mais humanoide do que o “Monstro da Lagoa Negra” do filme homônimo de 1954, óbvia inspiração para a “forma” anfíbia.

Sally Hawkins, a quem a Academia está devendo o Oscar de 2014 por seu trabalho em Blue Jasmine, pode ser um nome forte no páreo se os preconceitos contra cenas de nudismo de corpos fora dos padrões y otras cositas más não pesarem no moralismo americano. Quase sem emitir uma palavra o filme todo, ela se mostra excepcional num papel que poderia resvalar facilmente no ridículo. Richard Jenkins também tem muitas chances de voltar à corrida do Oscar fazendo um gay enrustido dos anos 1960.

Com menos chances nos papéis secundários, Octavia Spencer (a amiga da “mocinha" que traduz sua linguagem gestual) e Michael Stuhlbarg (o inimigo que pode ser amigo) fazem bem o que se espera deles, sendo que Octavia já levou seu Oscar, mas Stuhlbarg ainda merece melhores papeis desde Um Homem Sério dos Coen. Vamos poder vê-lo no festival também em Me chame pelo seu nome. O papel mais ingrato de vilão-vilão ficou com Michael Shannon que precisa cuidar para não ficar preso à sua máscara de homem mau - mas numa fábula a coisa funciona assim mesmo para vilões (lembrar o militar fascista do Fauno)

A fotografia climática do dinamarquês Dan Laustsen, que já havia trabalhado duas vezes para o diretor é outro trunfo, além do revival de canções românticas adequadas à trama como “You’ll never know” (de 1943) e outras com bandas de Glenn Miller e Benny Goodman. O link para essas músicas que nem eram de 1962 é o gosto do personagem de Jenkins por cantoras e estrelas já fora de sucesso naquele ano. Já a trilha de Alexandre Desplat não brilha tanto assim, embora mais uma vez a pegada de fábula torne sua canção tema "bonitinha" funcional.

No mais, é admirar o lance da criatura aquática não saber falar e a personagem de Sally Hawkins ser muda: como ela explicita “ele não sabe que sou “ incompleta’ ”. A química corporal entre eles vai se fazer destacada numa cena-surpresa antológica.

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