Críticas


A GUERRA DOS SEXOS

De: JONATHAN DAYTON E VALERIE FARIS
Com: EMMA STONE, STEVE CARELL, ANDREA RISEBOROUGH, BILL PULLMAN
19.10.2017
Por Marcelo Janot
O tênis é o que menos importa no histórico duelo entre Billie Jean King e Bobby Riggs.

Estamos em 2017 e as mulheres ainda são discriminadas no ambiente de trabalho, seja sofrendo assédio sexual dos chefes (né, Harvey Weinstein?), seja recebendo salários menores que os dos homens. Imagine então em 1973, quando a estrela maior do tênis mundial, Billie Jean King, resolveu se rebelar contra isso? Ela não só teve a ousadia de se desfiliar da poderosa ATP e criar a primeira associação feminina de tênis, como ainda saiu do armário e virou uma importante ativista LGBT.

“A guerra dos sexos”, novo filme do casal Jonathan Dayton e Valerie Faris (“Pequena Miss Sunshine”) é, portanto, mais do que uma reconstituição do histórico jogo “amistoso” entre Billie (Emma Stone) e o veterano Bobby Riggs (Steve Carell), visto por 90 milhões de espectadores no mundo inteiro. No primeiro dos jogos conhecidos como “Batalha dos sexos”, quando Bobby derrota a então número um do ranking, Margaret Court, o locutor de TV diz que foi uma vitória contra “a maternidade e o movimento feminista”.

O bonachão Bobby, que encaixou como uma luva em Steve Carell, é muito mais um showman do que um porco chauvinista. Ele está interpretando um personagem que reforça o estereótipo que lhe renderá lucro, mas faz com que o machismo do cidadão comum aflore, como os espectadores na plateia orgulhosos de serem chauvinistas. Nesse aspecto, pode-se estabelecer uma relação com certas figuras abjetas da política atual que investem em estereótipos conservadores para ganhar a adesão fácil do eleitor com pouca massa crítica.

O processo de enamoramento de Billie e Marilyn (Andrea Riseborough) no salão de beleza, através de supercloses e música etérea, dilatando o tempo, é um dos pontos altos do filme. Graças sobretudo à sensível atuação de Emma Stone, a química entre as duas se estende pelo resto da narrativa, que cai um pouco quando Marilyn dá uma sumida da trama. Já a vida pessoal de Bobby não é tão bem desenvolvida. Afinal, ele é sustentado pela mulher ou pelos Rolls Royce que ganha em apostas com ricaços? A personagem de sua mulher, interpretada por Elizabeth Shue, que tem função decorativa na trama.

O filme realça o abismo existente entre os universos feminino e masculino graças à direção de arte impecável. O feminino não deixa de dar ênfase ao salão de beleza e ao atelier do estililsta, enquanto o masculino é pesado, escuro, os salões com poltronas de couro onde o “clube do bolinha” se reúne. Na reencenação do grande jogo, no ato final, o roteiro felizmente não derrapa em clichês sentimentalistas. Mas o tênis, ali, é o que menos importa.

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