Críticas


O OUTRO LADO DA ESPERANÇA

De: AKI KAURISMÄKI
Com: Sherwan Haji, Sakari Kuosmanen
11.11.2017
Por Hamilton Rosa Jr.
Um filme sutil e muito especial.

O cinema do finlandês Aki Kaurismäki é feita de excluídos e de párias com pouco dinheiro nos bolsos mas muita nobreza no caráter. São solidários, sempre que aparece um personagem com mais dificuldades, cercam o sujeito de calor humano, comida, bebida e boa música (sempre um rock tocado por uma banda finlandesa do underground), por que no fundo, isso é o mais digno que se pode ter na vida.

O Outro Lado da Esperança, o novo filme de Kaurismäki, não foge desse mundo marginal cheio de ternura. A diferença é que, desta vez, ele toca numa questão política delicada, o afluxo de refugiados sírios e iraquianos na Europa, e como a invasão dessa imensa multidão pressupõe a chegada de outros sinais de “modernidade” e de outros valores incompreensíveis e inaceitáveis.

Não há dúvida sobre a posição moral do cineasta. Quando os personagens principais em O Outro Lado da Esperança encontram o refugiado sírio Khaled (Sherwan Haji) morando, como clandestino, ao lado de uma caçamba de lixo, oferecem-lhe emprego e falsificam seus documentos para que não seja expulso do país.

Apesar do tema pesado, Kaurismäki tem um dom muito especial para o equilíbrio. Seu filme oscila entre a crônica social, a comédia seca e o drama agridoce. E ele nunca perde a chance de dar um arremate cínico e ferino à cena. Mais irônico de tudo é a ilusão de Khaled por imaginar que escolheu o refúgio no país certo. Sabe-se que a Finlândia tem uma boa reputação no tratamento dos direitos civis. Mas esse "avanço" funciona nos guias turísticos, pois na real o sistema se afunda em contradições. Khaled se apresenta no guichê da imigração de Helsinque cheio de esperança e se depara com a burocracia do setor. É fotografado e catalogado como se fosse um inseto e isolado por dias num quartinho da alfândega, para depois ser comunicado que seu pedido de asilo foi rejeitado e ele será deportado.

Imediatamente após o veredicto, Kaurismäki mostra, numa cena irônica, um agente tentando conformar Khaled, dizendo que recebeu notícias que as coisas melhoraram na Síria, enquanto atrás, na TV, o telejornal exibe um relatório evidenciando as atrocidades que estão acontecendo em Aleppo.

O personagem fica impassível diante do contraste, mas a emoção, mesmo nos momentos mais cruciais, sempre é contida. Aliás, essa postura estática, cara de pedra, estende-se ao resto do elenco. É uma das marcas de Kaurismäki. As reações são minimamente esboçadas, o que acrescenta uma dimensão extra à mensagem. O refugiado não reclama, seus protetores não discutem, os fascistas, violentos, não explicam. E tudo acontece.

O roteiro tem uma estrutura especial: o espectador está assistindo duas histórias separadas. Uma delas diz respeito a Khaled e a outra é sobre Walter Wikström (Sakari Kuosmanen), o comerciante entediado que larga a esposa, o lar, para se aventurar no mundo dos jogos de pôquer, mas termina assentado num novo negócio, um restaurante, o Golden Lit, ao qual não tem a mínima noção de como comandar.

As vidas de Wikström e Khaled se cruzam no beco atrás do restaurante e nasce um relacionamento estranho. Os funcionários do restaurante (todos estranhos por direito próprio) acolhem Khaled.

Tão econômico em seu estilo visual como em seu diálogo, Kaurismäki atesta que num mundo feito de rotina, ou de tentativa de estabelecer uma rotina, existe muita tensão.

De fato, ele faz um filme sutil e muito especial, já que em seu minimalismo, o cineasta nunca alimenta o público com comentários evidentes ou uma crítica fácil. Ao contrário, ele permite que o espectador imagine e descubra este filme por conta própria. Se um personagem chega a abstração de limpar minuciosamente uma janela que não existe ou se outro deles, esmera-se para preparar um sushi, sem ter a menor ideia de como é a receita, o resultado não se fecha apenas na chave cômica, mas é profundamente tocante.

Dada a situação atual de tantos refugiados do Oriente Médio e o surgimento do sentimento anti-imigrante e islamofóbico, este também é um filme oportuno abordando uma questão global crítica.

O Outro Lado da Esperança venceu o Urso de Prata de Melhor Direção no Festival de Berlim, foi eleito o melhor filme do Festival de San Sebastian e sua carreira de prêmios prossegue.

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