Críticas


PROVA, A

De: JOHN MADDEN
Com: GWYNETH PALTROW, ANTHONY HOPKINS, JAKE GYLLENHAAL, HOPE DAVIS
09.08.2006
Por Daniel Schenker
PROVA COM ETAPAS BEM DEMARCADAS

O dramaturgo David Auburn parece valorizar em A Prova tentativas de presentificar o passado, como se fosse possível recuperar pessoas e experiências que só permanecem existindo dentro de quem as evoca. Não por acaso, o texto traz diálogos entre vivos e mortos e entre personagens que desejam quase desesperadamente reter a passagem do tempo para congelar uma fase criativa mais intensa (“Quantos dias perdi? Não posso voltar ao tempo em que parei?”, perguntam) ou simplesmente para conservar o ímpeto da juventude.



Texto valorizado tanto em esfera internacional quanto nacional (rendeu bem-sucedida montagem dirigida por Aderbal Freire-Filho e protagonizada por Andrea Beltrão), A Prova conta com uma estrutura algo evidente. Coloca o espectador diante das personagens principais – Catherine e Robert, filha e pai unidos pela cumplicidade e pelo apego à matemática, Hal, estudante abalado pela genialidade dos dois, e Claire, a outra filha desvinculada desta tumultuada redoma afetiva – e depois de um objeto central – uma brilhante prova matemática, de autoria controversa – e dos conflitos decorrentes.



Na transposição para o cinema, John Madden torna ainda mais previsível a estrutura da peça, seja ao sublinhar as frases principais de cada cena, seja ao valorizar, desde o figurino, o contraponto esquemático entre as duas irmãs. O diretor e os roteiristas (Auburn e Rebecca Miller) destacam com lápis fosforescente frases como: “é um funeral, mas não temos que ficar completamente tristes”, que traduz com obviedade a postura de Claire e, não por acaso, surge inserida imediatamente antes do corte para a cena seguinte; ou “não fui eu que encontrei. Eu escrevi”, sentença-chave dita por Catherine em relação à prova do título, introduzindo o dado polêmico do texto. Também é sintomática toda a passagem do velório de Robert, na qual a mesma Catherine toma a palavra sem pedir licença (“eu não estou no programa”, diz, prestes a começar um discurso que pode ser imprevisto dentro da situação ficcional mas nada mais é que um recurso utilizado um sem número de vezes por roteiristas) para descrever, na contramão das declarações diplomáticas, seus anos de sofrimento ao lado do pai. Antes de encerrar a fala, a atriz Gwyneth Paltrow investe numa previsível quebra emocional, criada com o intuito de valorizar o trecho “ainda bem que ele morreu”.



A construção convencional das personagens fica clara no desdobramento desta mesma seqüência. Ao deixar a cerimônia, Catherine é seguida por Claire, que, porém, hesita, deixando ainda mais explícita sua conexão com as convenções sociais; e por Hal, que, portador de um interesse sincero apesar de confuso por ela, vai adiante. As irmãs, particularmente, funcionam por contraste: enquanto Catherine apresenta-se sem requintes, imersa num permanente estado melancólico e portadora de uma postura reservada, Claire é identificada com o mundo do consumo, esbanja praticidade e não suporta o confronto com o silêncio. Não se pode negar um certo esforço de John Madden em incluir o espectador. Numa passagem, Robert não é o único a ser confrontado com a sua desarticulação mental – o público também, só que os espectadores não são surpreendidos pela revelação, espelhada, antes, na reação constrangida de Catherine, que ganha de Paltrow excessiva ênfase nos arroubos passionais, opção que uniformiza sua interpretação.



# A PROVA (PROOF)

EUA, 2005

Direção: JOHN MADDEN

Roteiro: DAVID AUBURN, REBECCA MILLER

Produção: BOB WEINSTEIN, HARVEY WEINSTEIN, JULIE GOLDSTEIN, JAMES D. STERN

Trilha Sonora: STEPHEN WARBECK

Fotografia: ALWIN KÜSHLER

Elenco: GWYNETH PALTROW, ANTHONY HOPKINS, JAKE GYLLENHAAL, HOPE DAVIS

Duração: 99 minutos



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