Convidados


RODA GIGANTE

De: WOODY ALLEN
Com: KATE WINSLET, JUSTIN TIMBERLAKE, JAMES BELUSHI, JUNO TEMPLE
28.12.2017
Por Maria Caú
Uma nota de pé de página na brilhantíssima carreira de Woody Allen.

Existem alguns (poucos) realizadores que conseguem trabalhar com um grau de sofisticação da linguagem cinematográfica tal que as narrativas por eles construídas funcionam em diferentes níveis a um só tempo. São filmes que parecem feitos sem esforço, que representam um entretenimento muito envolvente e apaixonante, mas cujas múltiplas camadas se abrem em leque numa segunda (ou terceira, ou quarta) visita. Woody Allen é um desses hábeis mestres. Sendo assim, tentar escrever uma crítica sobre um filme do diretor que se viu apenas uma vez (e aqui discordamos profundamente do método Pauline Kael) é um risco. Um risco que assumo.

Em Roda gigante (título original: Wonder Wheel), que se passa na Coney Island do início dos anos 1950, uma mulher casada à beira dos 40 anos toma um salva-vidas bonitão como amante em seu desespero para fugir de um cotidiano opressor. As coisas se complicam quando sua enteada, que reaparecera subitamente após se casar com um mafioso e passar anos sem dar notícias, chama a atenção do rapaz.

Esta é a primeira parceria de Allen com Kate Winslet, que já havia sido escalada para Match Point, mas decidira abandonar a produção. Como era de se esperar, a atriz aparece em mais um drama de época, num papel que parece cair como uma luva para ela. Ginny, uma ex-atriz frustrada que trabalha como garçonete e conserva um relacionamento falido com um segundo marido alcoólatra e violento, é um papel por demais winsletiano, e Kate tem uma atuação impecável, mas quase sem nenhum fator surpresa. Tem-se a impressão de que já vimos versões daquela mulher antes: um pouco em Mildred Pierce (minissérie feita para TV dirigida por Todd Haynes, 2011), um pouco em Foi apenas um sonho, de Sam Mendes, 2008. No papel do vértice do triângulo amoroso, Justin Timberlake parece engessado e (não raro) inexpressivo. Esse pequeno problema de produção de elenco, em geral raro em filmes allenianos, pode ser parcialmente explicado por ser este o primeiro filme em que o diretor não trabalhou com sua genial diretora de casting, Juliet Taylor, uma de suas maiores colaboradoras, que atuou em 43 dos seus filmes (!!!), inclusive tendo sugerido alterações de roteiro/construção de personagem cruciais em certos deles. Taylor, que parece ter se aposentado, é um desses nomes invisíveis nessa arte colaborativa que é o cinema: ver sua ausência dos créditos de Roda gigante é mais que lamentável e prenuncia alguns dos percalços do filme.

Os problemas começam com um roteiro confuso, cheio de personagens estereotipados. No afã de lançar um filme por ano como um bom artesão do cinema, fato que nos deixa a todos muito contentes, é frequente que alguns dos roteiros de Allen pareçam menos trabalhados do que poderiam ser, clamando por uma segunda versão: Roda gigante é um desses títulos. Ginny é a única personagem minimamente tridimensional, e isso parece ter mais relação com o trabalho de Kate Winslet, de uma força absoluta, do que com o arco dramático criado por Allen, que resvala no caricatural. Os outros personagens mais parecem recortes de papelão: o marido abusivo, a enteada enjoadamente angelical, cuja inocência em nada combina com seu passado como mulher de mafioso que sabe “onde os corpos estão enterrados”, o filho piromaníaco. De fato, descritos aqui estão esses três personagens em suas totalidades, sem contradições ou maiores nuances a serem reveladas ao longo de um desenvolvimento fraco e vacilante.

A estrutura narrativa inconsistente se apoia na narração de Mickey Rubin (o salva-vidas aspirante a dramaturgo), que por vezes quebra a quarta parede em estrutura semelhante às de Annie Hall ou Igual a tudo na vida, mas sem a organicidade destes; e em outras passagens narra em voz-over para sumir no desfecho sem qualquer explicação, simplesmente por um lapso no esqueleto da narrativa, que tornaria esse recurso implausível na resolução. A narração falha também ao explicitar os sentimentos de Mickey, que parece apenas um conquistador barato, embora ensaie dividir com o espectador seus conflitos internos. Já no início, o salva-vidas anuncia uma das referências da história: os melodramas – o que poderia parcialmente explicar a opção por personagens tão arquetípicos. Outra influência que emerge com força é o teatro norte-americano, em especial as obras de Eugene O´Neill e Tennessee Williams. No entanto, essas alusões carecem de escopo ou atualização, e parecem jogadas num grande caldeirão de citações sem qualquer coesão narrativa. Em realidade, tem-se a impressão de que Allen recorreu a alguns dos mesmos recursos que havia trabalhado melhor antes, como a trajetória da protagonista espelhando a Blanche Dubois de Um bonde chamado desejo, já belamente esculpida na obra-prima Blue Jasmine, de 2013. Ginny de fato parece uma Jasmine alquebrada, que não suscita a empatia do espectador dado seu temperamento tão exaltado, irritadiço, egoísta, incapaz de demonstrar afeto por qualquer um a não ser o amante. Ela trata o filho aos gritos e reclama de dores de cabeça a cada 10 páginas de roteiro, frequência quase igual com a que se condói com o fato de ter traído o primeiro marido e acabado com aquele casamento. No meio tempo, o público não consegue se decidir entre a pena condescendente e a desconexão completa com relação à personagem. Outro retorno é a imagem de uma família que vive numa residência colada a uma grande atração de um parque de diversões, e cujo movimento replica os altos e baixos da convivência entre parentes: sendo que a montanha-russa em Annie Hall é muito mais forte como metáfora que a roda gigante que vemos aqui em lindas cores.

Ou em gradações da mesma cor, visto que o filme é uma repetição de tons de laranja e vermelho que remetem ao pôr-do-sol e surgem sem parar na luz e nos figurinos, em especial no vestuário (e até nos cabelos) de Ginny. A bela iluminação do talentoso Vittorio Storaro, reverenciada em 9 de 10 citações ao filme, malgrado seja bela, é maneirista e parece ter mais lugar no teatro do que no cinema. Os halos de luz alaranjada que surgem amiúde emoldurando o rosto dos personagens não parecem ter qualquer justificação narrativa, além de uma vaga referência ao teatro que pouco se concretiza na trama de forma minimamente palpável. Por sinal, era de se esperar que num enredo calcado nos palcos Allen escolhesse cortar pouco, como é do seu estilo tradicional, mantendo os personagens em longos planos de conjunto. No entanto, ele caminha na direção oposta: Roda gigante parece ser seu filme com mais cortes em muito tempo, e há um sem número de closes, enquadramento que o diretor sempre usou com toda economia. Além disso, há um frequente uso de plano e contraplano nunca visto nos filmes de Allen e que parece esvaziar a típica potência da mise-en-scène alleniana.

Esse conjunto esquemático leva a um desfecho no mínimo canhestro, do qual se salvam os últimos planos. De positivo, os diálogos sempre muito bons de Allen, com momentos inspirados e tocantes, incluindo uma breve passagem de Ginny ao espelho e o longo monólogo em que ela conta sua vida a Mickey. As sutis referências sartreanas nas declarações da protagonista sobre “estar apenas desempenhando o papel de uma garçonete” no seu dia a dia surgem muito comovedoras. A reconstituição de época é acertada e a direção de arte e os cenários muito bem pensados. Também chama atenção que o diretor tenha, enfim, escolhido como par romântico uma mulher de 40 anos com um homem mais jovem, ainda que a diferença entre ambos não seja muito grande (a trama dá a entender que se trata de algo na casa de dez anos), o que mostra que ele tem ouvido minimamente as críticas a seus infinitos pares entre jovenzinhas e homens de meia-idade. Há ainda alguns planos de grande força, como na última cena com a enteada ou diversas tênues reações e esgares do rosto de Kate, uma atriz de grandeza absoluta, que por vezes carrega o filme francamente nas costas e até consegue elevá-lo bastante, mantendo firme o interesse a despeito dos muitos poréns.

Dizem por aí que um Woody Allen é sempre um Woody Allen, e eu tendo a concordar. Mas Roda gigante é, sem dúvida, uma nota de pé de página numa brilhantíssima carreira.

Maria Caú é formada em Cinema, doutora em Literatura Comparada e autora do livro "Olhar o mar: Woody Allen e Philip Roth - a exigência da morte".

P.S: Leia outra opinião sobre o filme na seção "Críticas": http://criticos.com.br/?p=10271&cat=1

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