Críticas


ME CHAME PELO SEU NOME

De: LUCA GUADAGNINO
Com: ARMIE HAMMER, TIMOTHÉE CHALOMET, MICHAEL STUHLBARG
19.01.2018
Por Octavio Caruso
Uma linda história de amor, fundamental nos dias hostis em que vivemos.

Não há nada especificamente engenhoso que eleve o roteiro de James Ivory ao patamar de obra-prima que muitos estão alardeando, o filme de Luca Guadagnino, em essência, aborda o amor proibido entre um adolescente italiano (Timothée Chalamet) e um visitante norte-americano (Armie Hammer), colega mais velho do pai, no contexto repressor do início da década de oitenta. O mérito está nos detalhes, na franqueza corajosa com que a trama trata o relacionamento, o despertar sexual com culpa, e, principalmente, na forma como os pais do jovem lidam com a experiência.

É interessante o contraste, elegantemente captado na fotografia do tailandês Sayombhu Mukdeeprom, entre o comportamento do casal no primeiro ato, servindo às exigências da sociedade e negando a natureza, e a liberdade que compartilham no terceiro ato, isolados da pressão dos conhecidos. Na cena em que eles, após vencerem o medo, encaram a possibilidade do sexo, a câmera se afasta e perdemos contato visual, típico momento em que se espera gemidos, o elemento proibido e provocador, algo relacionado à condição mais animalesca do ato, mas o que se escuta é a contagiante risada dos dois, a mesma atitude redentora que retorna inteligentemente nos créditos finais como forte revide para a frustração, decisão criativa preciosa que resume a maior qualidade da obra, o foco na cumplicidade que se estabelece aos poucos e de forma crível, o carinho que nasce de mãos dadas com o desejo. As mãos, vale destacar, são a alma desta exploração interna pela verdade do indivíduo, perceba como os namorados expressam na gentileza do toque tudo o que não podem revelar. Enquanto alguns projetos similares sobre relações homoafetivas se perdem no fetiche, ou tentam satisfazer sensorialmente com o choque, “Me Chame Pelo Seu Nome” apenas se dedica a contar uma linda história de amor.

O toque de brilhantismo, o monólogo do pai (Michael Stuhlbarg) do garoto ao final, texto que transborda humanismo e maturidade emocional, com destaque para o trecho em que ele salienta a necessidade de aproveitar a vida, enfatizando como a degradação do corpo é rápida, símbolo que rima com a utilização das esculturas nos créditos iniciais, a perfeição física retratada pelos artistas do passado, tentativa vã de imortalidade, analogia de extrema sensibilidade que dá o tom poético de uma obra muito bonita e, acima de tudo, fundamental nos dias hostis em que vivemos.

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Outros comentários
    4662
  • Concy Pinto
    19.01.2018 às 22:46

    Perfeita sua crítica. Toda a beleza do filme está nos pequenos e delicados detalhes da construção do romance e do amor. Cenas de normalidade da vida das pessoas. Não há tentativas de apaziguar ou explicar nada. Só mostrar como a vida se desenrola. Lindo filme. Depois de Moonlight, o melhor filme sobre o tema que já assisti.
  • 4664
  • Luiz Felipe Lopes de Sousa
    23.01.2018 às 08:01

    Concordo com sua análise. Também me emocionei com o monólogo final do pai. Excelente filme. O jovem é muito bom ator e boa promessa. Me impressionei com o número de pessoas que deixaram o cinema no meio do espetáculo numa clara demonstração de preconceito.
  • 4668
  • Jorge Duete
    26.01.2018 às 01:03

    Muito boa a cena do pai ao final. Digna de palmas incessantes. Um tapa na face da intolerância! De resto, natural e sutil, um filme que se beneficiaria caso fosse um pouco mais curto.