Críticas


FESTIVAL DO RIO 2006: DIÁRIOS (1973-1983)

De: DAVID PERLOV
22.09.2006
Por Carlos Alberto Mattos
DA JANELA DO SEU QUARTO

Muito antes que os “filmes pessoais” invadissem os domínios dos documentários, David Perlov (1930-2003) já fazia seus Diários. Em matéria de pioneirismo e fidelidade ao meio, talvez só rivalize com Jonas Mekas, o lituano que emigrou para Nova York e filmou cotidianamente seus encontros, passeios e divagações. Perlov nasceu no Rio de Janeiro, mudou-se para a Europa aos 20 anos e mais tarde estabeleceu-se em Israel. Talvez o diário filmado tenha mesmo a ver com o sentimento do imigrante, a fixação de uma identidade (ou várias) pelo cineasta que viaja. Não foi outra a motivação de Sandra Kogut ao fazer o seu Passaporte Húngaro.



Os Diários de Perlov incluem desde o primeiro plano captado com sua primeira câmera 16mm, em maio de 1973. Já então, uma tomada da janela do seu apartamento de Tel-Aviv. É desse ponto-de-vista, ao mesmo tempo íntimo e distanciado, que Perlov vai registrar os passantes da rua, os fatos da História israelense, os costumes do povo. Desde os primeiros momentos, ele também voltou a câmera para dentro de casa. Acompanhou os movimentos cotidianos de sua mulher e colaboradora, a polonesa Mira – que também viveu no Brasil –, o crescimento e as viagens de suas filhas, Yaël e Naomi, assim como os encontros com amigos e artistas que admira (Joris Ivens, Klaus Kinski, Claude Lanzman, Clara Sverner etc). Quando estoura uma guerra, ele não hesita em filmar a tela da TV. Com o mesmo interesse, detém-se diante de uma filha que boceja ou da mulher que dança na sala de jantar. Não há hierarquia quando se trata de documentar um ponto de vista estritamente pessoal. Nessas anotações, não há “projeto”, seja ele etnográfico, histórico ou didático.



Paralelamente à realização de documentários mais habituais para o cinema e a TV israelenses, Perlov dedicava-se aos Diários como um antídoto ao cinema profissional. E também como uma ginástica da memória.



O Brasil se faz sempre presente nas reflexões orais do autor, que adicionam às imagens uma ressonância literária. Paisagens de Tel-Aviv são comparadas às do Rio. Um pequeno canteiro de plantas pode lhe recordar os caixões infantis brasileiros. Aqui e ali, Perlov procura um rosto que lembre o da sua babá negra mineira. Em dois momentos no período coberto pelos Diários, David e Mira vieram o Brasil, assim como se visitassem um passado distante, envolto nos acordes de uma Ária de Bach.



A oportunidade de conhecer essa obra-prima do documentário poético, com a presença de Mira Perlov, está sendo oferecida no Festival do Rio, nos dias 24, 25 e 26 de setembro (Centro Cultural da Justiça Federal, às 20h30), com reprise em 2, 3 e 4 de outubro (Espaço Unibanco 3, às 14h). Além de ver pessoas, gestos e acontecimentos por uma ótica particular, esses Diários nos ensinam a ver o cinema como espaço legítimo de criação individual, tal como um poema, um quadro, uma canção que se ouve por acaso, numa esquina.





DIÁRIOS (1973-1983) YOMAN / DIARY

Israel, 1973-1983

Direção:
DAVID PERLOV

Site de David Perlov: clique aqui

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