Críticas


ANATOMIA DE UMA CENA

09.02.2018
Por Marcelo Janot
Documentário disseca o clímax antecipado da obra-prima "Psicose"

O prazer de rever certas obras-primas não se esgota com o tempo. “Psicose”, de Alfred Hitchcock, é daqueles filmes que trazem uma sensação de frescor a cada revisão. São tantos os detalhes a serem notados que é como se estivéssemos diante dele pela primeira vez. O documentário “78/52”, de Alexandre O. Phillipe, reforça esse sentimento. Inédito nos cinemas brasileiros, acaba de chegar ao Netflix. São 91 minutos dedicados a tudo que se relaciona à cena do chuveiro de “Psicose”, uma das mais marcantes da história do cinema.

Ao contrário de “Room 237”, que mais parecia uma reunião de teorias (algumas pra lá de fantasiosas) e interpretações de “O Iluminado”, de Stanley Kubrick, pescadas em sites de fãs na internet, o trabalho de Phillipe sobre a obra-prima de Hitchcock é mais rigoroso e cuidadoso, a começar pela gama de entrevistados, que inclui nomes como o montador Walter Murch, os diretores Peter Bogdanovich e Guillermo Del Toro, entre outros profissionais e teóricos, além de entrevistas de arquivo de Hitchcock e o testemunho da ex-coelhinha da Playboy Marli Renfro, que serviu de dublê de corpo para Janet Leigh no momento em que Marion Crane é esfaqueada.

Os depoimentos contextualizam o filme dentro da obra de Hitchcock, do cinema americano e das transformações pelas quais passava a sociedade americana na virada dos anos 50 para 60. A riqueza de detalhes inclui o significado voyeurístico e transgressor do quadro “Susana e Os Anciãos”, do pintor holandês do século 17 Frans Van Mieris, que Norman Bates tira da parede pra espionar Marion em seu quarto. Em seguida, a cena do chuveiro é dissecada em todos os seus aspectos, do uso da trilha sonora de Bernard Herrmann e dos storyboards de Saul Bass, dedicando obviamente grande espaço à genial montagem de George Tomasini (o título se refere às 78 tomadas que foram feitas e os 52 cortes que aparecem na tela durante os cerca de 3 minutos da cena). Um documentário que, assim como “Psicose”, merece ser visto mais vezes.

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