Críticas


FERRUGEM

De: ALY MURITIBA
Com: GIOVANNI DE LORENZI, TIFFANY DOPKE, ENRIQUE DIAZ
30.08.2018
Por Maria Caú
Um tema urgente abordado de forma pouco responsável

Recentemente premiado no Festival de Gramado, onde recebeu os Kikitos de melhor filme, roteiro e desenho de som, o longa-metragem de Aly Muritiba lida com os temas da exposição indevida de vídeos íntimos e do cyberbullying, assuntos cuja discussão é mais que necessária nos dias de hoje. A trama é bastante simples e ecoa diversos casos reais dos últimos anos: Tati (Tifanny Dopke) é uma adolescente que vê seu cotidiano ruir quando, após perder o celular e ver o vazamento de um vídeo seu de conteúdo sexual, começa a ser alvo de uma série de assédios (virtuais, e alguns mais diretos no ambiente do colégio) extremamente violentos.

Se o tema é absolutamente premente, a narrativa acaba por escolher uma abordagem pouco responsável da discussão, o que faz com que a obra perca seu valor educativo importante, acabando por reforçar padrões de pensamento que deveriam ser desconstruídos. Isso é lamentável, já que o filme se comunica habilmente com o público jovem, com direção e arte que se apropriam bastante bem do universo hiperconectado dos adolescentes.

[É extremamente difícil discutir Ferrugem com um mínimo de aprofundamento sem tropeçar em spoilers, então aconselho o leitor que quer se surpreender a guardar o resto do texto para ler depois de conhecer o filme, caso pretenda vê-lo.]

A escolha do roteiro, assinado pelo diretor em companhia de Jessica Candal, é dividir a história em duas partes, uma centrada no cotidiano de Tati pouco antes e logo depois do episódio, terminando com um desfecho bastante forte e trágico. É aqui que conhecemos os amigos da menina, seu ex-namorado e os motivos do fim do relacionamento, assim como seu flerte com Renet (Giovanni de Lorenzi), de quem se aproxima numa excursão escolar. Essa primeira seção traz os melhores momentos do filme, ainda que oscile entre uma sensação de realidade bastante densa e passagens que parecem retiradas de um seriado americano e encontram pouca ressonância no cenário nacional.

A segunda parte, no entanto, desmantela o que foi construído até então, já que decide se concentrar na vida posterior de Renet após os acontecimentos trágicos, e é onde começa a se desenhar o envolvimento do rapaz com a difusão do vídeo de Tati. É importante notar que essa parte é mais extensa do que a primeira, e que, além disso, Renet é mostrado em seu contexto familiar, tendo suas relações com pai, mãe e primo (e, em menor grau, com a irmã) bastante bem delineadas, enquanto Tati é retratada em um isolamento quase que completo, com seus pais sempre fora de quadro ou ausentes (e numa ocasião importante, adormecidos). Dessa forma, o espectador tem sua empatia (re)direcionada ao menino, justamente o culpado pelo crime, enquanto a realidade da garota vai aos poucos se desfazendo em sua memória. Vemos Renet como um adolescente bonzinho que cometeu um pequeno deslize (ainda que o deslize se revele paulatinamente mais terrível), arrependido, sufocado pela separação dos pais e torturado por suas más escolhas. Esse recurso lembra dolorosamente os julgamentos norte-americanos de jovens estupradores ou assediadores, que em geral salientam a injustiça de terem os algozes suas vidas e oportunidades destruídas por conta de “um erro”, enquanto tratam a vítima como culpada ou abafam sua voz.

É justamente isso que a estrutura de Ferrugem (título cujo sentido me escapa) termina por fazer, ainda que não tenha sido esse seu objetivo inicial. Quando abandonamos Tati e nos concentramos em Renet nessa segunda parte arrastada e algumas vezes mesmo redundante, que se apoia muito na atuação vacilante de Giovanni Lorenzi, perdemos a possibilidade de investigar a repercussão dos acontecimentos para a família da menina ou para outras mulheres próximas a ela (suas amigas de colégio, que têm papel importante na primeira metade do filme). Essa pluralidade de pontos de vista possíveis sobre os eventos muito agregaria ao filme.

Além disso, a relação de Renet com os pais, Davi (Enrique Diaz), professor do colégio em que ele e Tati estudam e uma pessoa bastante ambígua, e Raquel (Clarissa Kiste), a mãe distante que se dedica a um novo relacionamento, resulta mal trabalhada. A rejeição do adolescente à mãe, que poderia inclusive atestar a profundidade do seu arraigado machismo, parece se justificar em algum nível, como se a falta de vigilância dela houvesse levado o menino a apresentar esses comportamentos, numa fórmula que mais uma vez culpabiliza a mulher. Essa ideia é sublinhada pela mudança na dinâmica da família quando a mãe reaparece, e que parece levar o filho a assumir sua parcela de culpa, ainda que de forma não muito convencível. Mais uma vez, é o retorno da mãe (e aqui o fato de ela estar grávida serve para ampliar essa “mágica feminina”) que recoloca o menino nos trilhos, numa solução canhestra.

A cena final, em que há o esperado confronto entre Renet e a mãe de Tati, é constrangedora por ampliar a sensação de que o filme é menos sobre a menina e sua família que sobre as razões (e desculpas, e arrependimentos falsa ou verdadeiramente sofridos) daqueles que a assediaram. O diretor escolhe apresentar a mãe de Tati inteiramente em voz off ou de costas, sem jamais lhe dar espaço em quadro, concentrando-se na reação de contrição do menino que tenta se redimir. O espectador se vê obrigado a sair do filme pensando menos em Tati e mais em Renet, e se questiona se deveria empatizar com ele, esse jovem que afinal de contas é apenas um menino perdido que cometeu um crime.

Nesse ínterim, esquecemos de Tati, a despeito da boa atuação da estreante Tifanny Dopke. E esquecemos também dos bons momentos de impacto dos minutos iniciais de um filme que toca num tema urgente de uma forma inteiramente equivocada.







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