Críticas


10 SEGUNDOS PARA VENCER

De: JOSÉ ALVARENGA Jr.
Com: DANIEL OLIVEIRA, OSMAR PRADO, RICARDO GELLI, KELI FREITAS
26.09.2018
Por Maria Caú
Em atuação brilhantíssima, Osmar Prado eleva o filme para além da sua evidente caretice narrativa.

Enquanto os estadunidenses fazem filmes sobre literalmente qualquer feito menor conquistado por um de seus compatriotas, o cinema nacional ainda engatinha nas cinebiografias de brasileiros notórios, o que sublinha ainda mais a dificuldade do país para lidar com a memória. Indo neste caminho, 10 segundos para vencer, que conta a trajetória espetacular do boxeador paulista Éder Jofre, tem um papel importante de resgate. Éder conquistou títulos mundiais em duas categorias diferentes do esporte e entrou para o Hall Da Fama do Boxe em 1992.

O filme aborda os principais momentos dessa carreira extremamente vitoriosa, mas tem por foco ainda as relações familiares do protagonista, em especial seu período de formação e sua forte ligação com o pai e treinador, Kid Jofre, interpretado por Osmar Prado, que se consagrou o melhor ator no último Festival de Gramado pelo papel. De fato, pode-se dizer que Kid é o coprotagonista da narrativa e, indo mais além, que é o personagem através de cujos olhos e perspectiva o público observa a história se desenrolar em seus momentos cruciais (poderíamos chamá-lo de personagem-refletor se quiséssemos usar aqui um conceito literário). Adotar tal ponto de vista é sem dúvida a grande escolha do filme, já que Osmar Prado entrega possivelmente a melhor atuação brasileira do ano e um dos mais claros exemplos de como um ator pode contribuir de forma autoral para um filme, dando carne a um papel com tal maestria e verdade que o espectador tem certeza da existência física daquele homem para além das duas horas da trama.

Seria possível escrever três ou quatro páginas apenas sobre a irrepreensibilidade da performance de Prado, que consegue expressar num close, mesmo sem palavras, sentimentos os mais complexos, como a doçura escondida por detrás de um exterior forçadamente duro. A dinâmica do personagem com seu filho/pupilo se assemelha àquela entre treinador e aspirante a baterista em Whiplash, e Prado não deixa nada a dever a J. K. Simmons, que ganhou o Oscar por aquela interpretação. Também Daniel de Oliveira, como Éder Jofre, está bastante bem, mostrando um trabalho de corpo muito compenetrado. Ricardo Gelli, no papel do tio de Éder, também premiado em Gramado, é outro destaque.

A excelente atuação de Prado acaba por elevar o longa um tanto além da sua caretice formal, em especial em termos de roteiro (escrito por Thomas Stavros e Patrícia Andrade) e direção (José Alvarenga Jr.). A direção de arte e os figurinos são corretos, e a fotografia de Lula Carvalho, que se destaca nas cenas de lutas, em que a câmera dança por ângulos inusitados entre as cordas do ringue, se beneficiaria de se assumir um pouco mais “suja” e menos “bonita” ao estilo infância idílica na pobreza. Um outro problema num filme de tom tão realista é a caracterização, já que há diversos saltos temporais em que os personagens parecem simplesmente não envelhecer (e, com 40 anos, Daniel de Oliveira já tem dificuldades em convencer como um jovem de 20 e muito poucos).

O terço final do filme é também bastante arrastado, e as cenas sem o personagem de Kid acabam relevando as fragilidades da trama (toda a vida doméstica de Éder com a esposa, Cida, parece algo já visto muitas vezes e não desperta qualquer interesse).

Ao fim, no entanto, a brilhantíssima atuação de Osmar Prado impacta de tal modo o espectador que o saldo acaba sendo positivo. Que o cinema possa lhe dar mais vezes papéis à sua (gigantesca) altura.







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