Críticas


42a MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA SP

23.10.2018
Por Daniel Schenker
Atualizações diárias sobre filmes exibidos na mostra.

O ANJO , de Luis Ortega



Escorado numa história verdadeira, Luis Ortega apresenta a jornada de Carlitos (Lorenzo Ferro), rapaz de aparência angelical e atitudes demoníacas que evolui rapidamente dos roubos para os assassinatos em série. Na Buenos Aires de 1971, Carlitos não hesita em matar, postura diferente da do parceiro de crime, o amigo Ramon (Chino Darin). Esse contraste não bate na tela de forma propriamente original, mas, seja como for, a total ausência de culpa em relação às mortes pelas quais é responsável e de justificativa para tais atos tendem a causar certo impacto sobre o público ao longo da projeção.

Também responsável pelo roteiro, ao lado de Rodolfo Palacios e Sergio Olguin, Ortega aborda, sem verticalizar, uma aproximação homoafetiva entre Carlitos e Ramon. Cabe destacar a soberania do vermelho (seguida do azul) na fotografia de Julián Apezteguía. São cores frequentes no cinema de Pedro Almodóvar – El Deseo, de Pedro e Agustín Almodóvar, figura na produção desse longa.





TEATRO DE GUERRA , de Lola Arias



Seis veteranos da Guerra das Malvinas (três argentinos, três britânicos) realizam uma operação de presentificação do passado ao encenarem vivências do conflito ocorrido em 1982. Não reproduzem os fatos como se deram – o que seria, evidentemente, impossível –, mas como ficaram internalizados em cada um. Ficcionalizam a realidade, nesse sentido. São convidados a evocar de maneira prática as suas histórias e a dirigir jovens atores, encarregados de interpretá-los.

Em Teatro de Guerra , Lola Arias – diretamente norteada pela encenação de Campo Minado , que apresentou na Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MIT-SP) – realiza operações, acerca das fronteiras entre documentário e ficção, realidade e interpretação, deixadas intencionalmente à mostra diante do público: toda a estrutura do estúdio de filmagem permanece exposta, bem como escolhas de figurinos, reprodução de acontecimentos em maquetes, simulações de experiências em determinadas locações. O resultado é instigante.





TARDE PARA MORRER JOVEM , de Dominga Sotomayor



Dominga Sotomayor se distancia, em Tarde para Morrer Jovem , da apresentação de uma história fechada, com início, meio e fim bem demarcados, apesar de fornecer ao espectador o desenvolvimento das jornadas de um ou outro personagem – em especial, de Sofia (Demian Hernández), adolescente em crise com o pai e com a região onde mora, uma comunidade sem luz elétrica no Chile dos anos 1990, que manifesta o desejo de morar com a mãe e ensaia um começo de experiência amorosa – e dos esforços empreendidos para recuperar a cadela Frida/Cindy.

Também responsável pelo roteiro, Sotomayor aborda, sem qualquer sobressalto, o cotidiano dos moradores da comunidade sem evidenciar a contextualização histórica. O esforço é louvável, mas a cineasta nem sempre sustenta o interesse em torno do universo que estampa na tela. Contudo, essa produção de Rodrigo Teixeira, com fotografia de Inti Briones, foi agraciada com o prêmio de direção no Festival de Locarno.





A MADELINE DE MADELINE , de Josephine Decker



A adolescente Madeline (Helena Howard) participa de uma espécie de oficina de teatro imersivo, conduzida pela afetuosa professora Evangeline (Molly Parker), que – de maneira lúdica, sensorial – tende a liberar vivências dolorosas. Madeline se entrega de modo apaixonado a esse processo, enquanto vive um cotidiano de desestabilização emocional ao lado da mãe, Regina (Miranda July), realçada por uma câmera instável (fotografia de Ashley Connor) que fornece imagens eventualmente embaçadas.

Às vezes, a diretora Josephine Decker procura colocar os espectadores no lugar de personagens. Em determinado momento, a própria Evangeline é deslocada pelos alunos de sua posição de comando, de controle, e se sente ameaçada ao ser inserida dentro da ação. Algumas características do roteiro, também assinado por Decker, chamam atenção: o fato de Evangeline só dar atenção para Madeline dentro do grupo de alunos – há um certo desconforto deles, perto do final da projeção, que talvez esteja relacionado a isso – e a questão da cor da pele – não muito desenvolvida, mas presente nos vínculos entre Madeline e Regina e entre Evangeline e o marido, George (Curtiss Cook).





O SEGREDO DE NÁPOLES , de Ferzan Özpetek



Fantasmas assombram Adriana (Giovanna Mezzogiorno), mulher que se envolve com Andrea (Alessandro Borghi), que, porém, desaparece no dia seguinte a uma noite de amor. A partir daí, ela se vê enredada numa trama relacionada não só com Andrea como com seu próprio passado – revelado à medida que a projeção avança. Traumatizada por tragédias antigas e por golpes afetivos no presente, Adriana dá início a um lento processo de restauração pessoal.

Ferzan Özpetek mantém certo grau de interesse no desdobramento do suspense, mas acaba assinando um thriller psicanalítico-erótico que não prima pela originalidade. O imbróglio familiar de Adriana, descortinado em flashback, bate na tela de forma um tanto carregada. Resta apreciar Nápoles, com suas obras de arte e varandas repletas de lençóis.





AQUI , de Hadi Mohaghegh



O elemento político está presente em Aqui por meio de um questionamento do idoso a respeito do filho, Sohrab: “porque querem matar o meu filho? Ele fez algo, além de falar?”. Hadi Mohaghegh, porém, privilegia o foco intimista ao destacar o isolamento do ancião e, diante da ausência do filho, a necessidade de estabelecer um elo com o neto pequeno. Também responsável pelo roteiro, Mohaghegh faz com que seu protagonista pense em voz alta através de falas explicativas – ainda que estas nem sempre explicitem tudo, como a mencionada no início desse texto.

O minimalismo impera nessa produção iraniana. Durante quase meia hora, o idoso é o único personagem que aparece na tela. A fotografia de Ali Shahideh merece destaque no registro da paisagem vasta, ora verdejante, ora inóspita, e na expressividade alcançada nas cenas em que a escuridão predomina.





AS CEIFADEIRAS , de Etienne Kallos



Etienne Kallos aborda, em As Ceifadeiras , certo contraste entre sentir-se pertencente ou deslocado por meio das jornadas de dois jovens, Janno (Brent Vermeuler) e Pieter (Alex van Dyk), dentro de uma comunidade marcada por rígidos costumes religiosos, realçados pela aspereza do pai, Jan, e pela devoção da mãe, Marie. Na verdade, Pieter é o elemento estrangeiro, trazido por Marie para esse mundo hierático com o qual externa, desde o princípio, pouca afinidade, apesar de vez por outra surpreender com alguma dose de leveza.

Em todo caso, à medida que a projeção avança, a relação entre Janno e Pieter adquire contornos cada vez mais passionais. O segundo gera desestabilização no primeiro ao confrontá-lo com ambientes mundanos, contrários à austeridade claustrofóbica do universo com o qual estava, até então, acostumado. Nesse seu primeiro longa-metragem, Kallos demonstra segurança na instalação de uma atmosfera notadamente opressiva.





303 , de Hans Weingartner



Jule (Mala Emde) e Jan (Anton Spieker) passam por momentos de vida parecidos. Basta dizer que ambos partem em viagem, saindo de Berlim, para resolver questões pessoais importantes: Jule está grávida e vai atrás do namorado em Portugal; Jan é movido pela determinação em conhecer o pai biológico na Espanha. Eles se conhecem quando Jule oferece carona a Jan. A partir daí, cruzam fronteiras e se tornam cada vez mais próximos.

Durante a viagem, falam sobre capitalismo e comunismo, concorrência e cooperação, monogamia e relacionamento aberto. Aos poucos, revelam um ao outro suas histórias particulares. Depois de Edukators (2004), Weingartner volta a se debruçar sobre jovens cheios de atitude num filme que lembra um pouco a trilogia assinada por Richard Linklater – Antes do Amanhecer (1995), Antes do Anoitecer (2004) e Antes da Meia-Noite (2013). 303 é um filme que não oferece obstáculos à apreciação do espectador, mas falta frescor ao resultado, um tanto previsível.





CAMINHOS MAGNÉTYKOS , de Edgar Pêra



“A minha doença é a lucidez”, afirma Raymond, desestabilizado diante do casamento da filha, Catarina, com Damião, um capitalista selvagem. Culpado por não conseguir evitar a união, ele vaga desnorteado por Portugal e sonha com a capital francesa. A história, escorada na obra de Branquinho da Fonseca, é, como se pode perceber, bastante simples. Mas Edgar Pêra imprime uma atmosfera delirante, realçada por constante sobreposição de imagens – proposta estética que soa repetitiva no decorrer da projeção.

O cineasta salpica referências, como ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A esposa de Raymond se chama Gertrudes e, como a mãe do Hamlet de William Shakespeare, é uma mulher iludida pelas vantagens imediatas do dinheiro, ainda que mais agressiva na relação com o marido. No elenco, Ney Matogrosso interpreta André, personagem que simboliza a oposição ao dinheiro como filosofia de vida e meta absoluta, e canta, em determinado instante, Rosa de Hiroshima .

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