Críticas


ASSUNTO DE FAMÍLIA

De: HIROZAKU KORE-EDA
Com: LILY FRANKY, SAKURA ANDÔ, KIRIN KIKI.
10.01.2019
Por Luiz Fernando Gallego
Os personagens vão exigir uma empatia especial do espectador, tal é seu amoralismo e indiferença às regras sociais.

Já tendo abordado questões sobre laços de sangue e laços de afeto (Pais e Filhos), infância abandonada e maltratada (Ninguém pode saber) e diversos temas familiares em muitos de seus filmes (com destaque para Still Walking, que lamentavelmente não teve lançamento comercial no Brasil), em Shoplifters (título internacional para Manbiki kazoku) o diretor Kore-Eda mesclou estes seus assuntos recorrentes, correndo o risco de não dar conta de todas as situações abordadas. Seus personagens principais - um “pai”, uma “mãe” e uma “avó” - uma “família” em que ocupam esses papéis sem que tenham qualquer parentesco de fato - vão exigir uma empatia especial do espectador, tal é o amoralismo que rege seus expedientes e a indiferença às regras sociais que eles menosprezam; isso tudo, ao lado de afeto por uma menina que sofre violência por parte da mãe biológica; e de um menino que eles “criam” e a quem foi dado o nome do “pai”. Mas que também são utilizados para colaborarem com o orçamento minguado da “família”, aprendendo - e ajudando - a roubar supermercados e lojas de roupas. Aliás, o título internacional pode ser considerado enganoso, ou pelo menos parcial: os adultos não são “apenas” ladrões de lojas; entretanto, isso só será informado perto do desfecho, problematizando ainda mais a questão de usarem as crianças para seus furtos de alimentos e vestimenta.

Na medida em que o filme se desenrola, alguns detalhes sobre a “avó” e uma jovem agregada (praticamente uma adolescente, chamada de Aki) já vão sendo dados, ainda que de forma elíptica - e no caso da mocinha, até mesmo com lacunas, o que nos deixa com a dúvida quanto a tais incompletudes terem sido intencionais ou falha do roteiro; ou ainda, resultado de cortes para que o tempo de projeção não ultrapassasse os 121 minutos de duração. O atual gosto por explicações com lacunas por parte de Kore-Eda já havia sido questionado em seu filme anterior, o subestimado O Terceiro Assassinato. Ainda assim, as qualidades destes seus filmes superam em muito quaisquer pontos questionáveis que possam ser levantados. No caso de Assunto de Famíla, destaca-se a excelência dos atores, especialmente da veteraníssima Kirin Kiki - que já vimos em outros filmes do diretor, aqui em um de seus últimos papéis (ela faleceu em outubro de 2018). Mas também estão ótimas as duas crianças e seus “pais”.

No final das contas, não há como não lembrar da famosa réplica de Hamlet quando Polônio diz que vai tratar os atores de um grupo teatral “como merecem”, ao que o príncipe retruca: “Se tratarmos cada homem de acordo com seus méritos, quem escapará ao chicote?” Embora de modo nem sempre explícito, há sugestões de que um assistente social levasse dinheiro para resolver problemas de moradia para idosos solitários; e de que uma família mais bem situada financeiramente fosse, no mínimo, displicente para com sua filha. Não se trata de justificar as condutas antissociais do grupamento sobre o qual o filme se debruça, mas de questionar toda uma idealização dos laços de sangue como supostamente privilegiados na atenção e cuidados para com suas crianças.

Os cinéfilos mais antigos podem lembrar também de O Garoto Toshio, excepcional filme de Nagisa Ôshima lançado em 1969, alguns anos antes do escândalo de O Império dos Sentidos: no filme de Ôshima, se a memória não falha, havia uma família de sangue que fingia atropelamentos para extorquir dinheiro dos motoristas: cabia ao menino o questionamento ético, que de certa forma se reproduz neste impactante filme de Kore-Eda.

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Outros comentários
    4839
  • Magda
    10.01.2019 às 14:38

    Despertou curiosidade, Gallego! Obrigada.