Críticas


TEMPORADA

De: ANDRÉ NOVAIS OLIVEIRA
Com: GRACE PASSÔ, RUSSO APR, HELIO RICARDO
20.01.2019
Por Maria Caú
Quando a densidade da narrativa está perfeitamente submersa sob uma superfície enganosamente plácida

Grande vencedor do Festival de Brasília de 2018, onde ganhou os Candangos de melhor filme, direção de arte, fotografia, atriz e ator coadjuvante, "Temporada" se apoia numa premissa bastante simples. Juliana (Grace Passô) acaba de ser convocada para um concurso prestado anos antes, e se muda de Itaúna, no interior de Minas Gerais, para Contagem, a fim de trabalhar no departamento de controle de endemias, especialmente no combate à dengue. Enquanto tenta estruturar ali uma nova vida para si e para o marido, que espera chegar, ela vai se entrosando com a nova rotina e os colegas de trabalho, em especial Russão.

Escrever sobre Temporada parece uma doce armadilha, pois é preciso se atrever a compreender como o diretor e roteirista André Novais Oliveira construiu uma narrativa bastante sofisticada e complexa por detrás de uma superfície aparentemente plácida e enganosamente simples, seguindo a célebre e repetida metáfora de Hemingway: criar uma história que tenha as qualidades de um iceberg, do qual se vê apenas uma intrigante ponta, com o tudo o mais permanecendo submerso, mas relevando sua presença de maneira indireta, com o leitor (aqui, espectador, o leitor das imagens) consciente das dimensões a que não tem completo acesso. Essa empreitada se sustenta a partir das atuações de todo o elenco, a começar por Grace Passô, que dá corpo e voz a uma mulher comedida e socialmente retraída, que em dado momento chega a dizer: “É que eu nunca fui de ter amigo”. A interpretação da protagonista trabalha com os pequenos gestos, que funcionam como pequenas fugas, e se preocupa em expressar de forma detida os mínimos ecos externos das grandes transformações de Juliana. A coesão das boas atuações de todo o elenco é sustentada por uma direção de atores (e, possivelmente, uma preparação de elenco) precisa e por diálogos muito bem escritos. Se o cinema brasileiro contemporâneo muitas vezes escorrega nesse quesito, criando falas que soam destoantes de seus contextos e personagens, acabando por esvaziar a qualidade de boas tramas, aqui elas cabem perfeitamente bem nas bocas dos personagens, sem perder um colorido divertido e inusitado.

Aliás, o longa navega bem entre a comédia e o drama com uma direção muito segura e uma fotografia (assinada por Wilssa Esser) que trabalha com muitos planos gerais e linhas sinuosas, que replicam a difícil jornada da personagem central, assim como sua desorientação na cidade nova, que ela precisa literalmente mapear, já que essa imersão rápida é a natureza do seu trabalho. Aos poucos, um ambiente inóspito vai se tornando mais e mais acolhedor, com os enquadramentos e a iluminação refletindo essa mudança, com destaque para dois momentos tocantes que Juliana vive com os colegas de trabalho Russão e Hélio (Russo APR e Hélio Ricardo, ambos ótimos), conversas que se dão no ambiente da cidade e revelam a beleza escondida em certos ângulos dos cantos menos fotogênicos do ambiente urbano pouco planejado e em constante (re)construção caótica.

As transições entre as sequências são orgânicas e tão bem planejadas que trazem à tona ironias e fazem o espectador caminhar entre o passado e o futuro daquela trajetória enquanto a experimenta, num fluxo de ressignificações constantes. Tudo isso sem que o equilíbrio da comédia seja perdido e sem jamais recorrer a soluções fáceis, como poderia ser a decisão, pressentida erroneamente pelo espectador, de aproximar Juliana romanticamente de um desses colegas quando a amizade que edifica com eles é em si muito mais potente e necessária para demolir sua solidão reiterada de mulher negra numa sociedade machista e racista, uma mulher que – descobrimos eventualmente –, a despeito de não ter qualquer problema congênito de fala, perdeu a voz por anos durante a infância.

Numa época em que um certo cinema sádico está bastante em voga, um cinema que costuma desenhar personagens apenas para usá-los como sacos de pancada de uma narrativa que serve tão somente para revelar a trajetória de sua dor enquanto apela ao gozo perverso do público ou ao seu horror, Temporada escolhe o corajoso caminho dos encontros e dos afetos que eles despertam. São laços que amarram os personagens de volta a seus caminhos, ainda que eles pareçam muitas vezes labirínticos (condição médica de que a personagem sofre) ou tortuosos.

O dicionário aulete assim define a palavra temporada: determinado espaço de tempo; época para certas atividades; estação do ano. É interessante que o filme desloque o sentido do título para cada uma dessas (e outras) vertentes: para o emprego em que Juliana, segundo os próprios colegas, deve ficar pouco tempo, já que paga mal; para a fase de vida em que ela se encontra, presa entre o abandono do marido e a dureza da reconstrução; para o seu futuro, que o espectador não vê, mas pressente no lindíssimo plano final, que dá a ela a possibilidade de um porvir livre, estrada a percorrer, ainda que certas curvas e alguns retornos sejam necessários.

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Outros comentários
    4844
  • Bruno
    06.02.2019 às 08:39

    Bela crítica, muito bem escrita!