Críticas


BOX JEAN COCTEAU

25.01.2019
Por Leonardo Luiz Ferreira
Caixa traz quatro filmes restaurados do cineasta francês

Apresentação: Box de dois discos em formato digipack com imagens de Cocteau, desenhos e trechos escritos. Bela apresentação visual em tons brancos e azuis, com destaque para texto na parte interna da caixa e a presença de uma luva com quatro cards de pôsteres de cada filme.

Filmes: Sangue de um poeta (1932); A Bela e a Fera (1946); Orfeu (1950); e O Testamento de Orfeu (1960).

Crítica dos filmes e análise das cópias:

Sangue de um poeta (Le sang d´un poète)

Com Enrique Rivero, Elizabeth Miller e Pauline Carton.

Logo na primeira sequência de Sangue de um poeta, que é a estreia cinematográfica de Cocteau, um homem aparece fantasiado e encenando como se apresentasse a ação para o público. Na realidade, se transforma em uma carta de princípios do próprio realizador, que tem nas artes cênicas uma das forças motrizes de seu trabalho.

O filme tem a duração de 50 minutos, portanto se configurando um média-metragem em que Cocteau expõe não só o seu pensamento cinematográfico, mas artístico como um todo. A ligação direta de associação é com o movimento surrealista e suas expressões no cinema, mais precisamente o duo de filmes criados por Luis Buñuel e Salvador Dalí entre 1929 (Um cão andaluz) e 1930 (A idade do ouro). As outras referências serão o cinema mudo de Georges Méliès em termos de efeitos de imagem e a pantomima teatral com gestos exageros em cena. À parte apropriações e inspirações, o cineasta Cocteau demonstra talento na construção de imagens alegóricas e efeitos de animação rudimentares, porém criativos.

A reflexão de Sangue de um poeta perpassa a liberdade da arte, algo que fica claro desde a abertura: o que se esconde por trás de uma porta que não abre? É na sequência em que o personagem vagueia por diversas portas e observa pelo olho mágico cada uma delas que o sentido do cinema de Cocteau vai tomando forma: oculto, interdito, proibido, mágico e fantástico. Como vai ficar claro em toda sua filmografia, Jean é um dos poucos diretores que conseguia unir poesia, literatura, cinema, pintura e teatro numa mesma obra.

A cópia apresentada tem um desgaste natural de passagem de tempo e ainda uma irregularidade de qualidade entre os episódios do filme, com bit rate de 4,5 a 5,5 Mb/s. Ainda assim é a melhor versão disponível no mercado de uma joia que merece ser estudada e mais conhecida.

A Bela e a Fera (La belle et la bête)

Com Jean Marais, Josette Day e Mila Parély

O longa mais conhecido de Cocteau, pelo qual recebeu consagração crítica e de público, começa com um alerta singelo ao público: pedindo a simplicidade do olhar infantil para o espectador embarcar na jornada. É através da fabulação que o cineasta busca tecer e aprimorar tudo aquilo que já havia trabalho de alguma forma em sua estreia. Mas é pela chave do humor que a história tem início em um pequeno vilarejo cujos personagens são movidos por ganância ou desprezo irônico para com os outros. Dessa forma, enaltecer a pureza da personagem Bela.

Cocteau sonhava em rodar o filme a cores, mas devido ao orçamento teve que se contentar com o preto e branco. De fato hoje é difícil imaginar qual seria o impacto do longa colorido, porque tanto o diretor quanto o fotógrafo exploram bem a questão da luz e sombra. Há um contraste forte e evidente de um branco solar com as sombras em uma espécie de subversão imagética do conto de fadas. A composição de enquadramento atinge o ápice de requinte na obra de Jean com anteparos cênicos e a disposição dos personagens em cena.

A Bela e a Fera apresenta a construção de uma poética de imagens de Jean Cocteau: onde natureza e magia se unem em efeitos simples e marcantes, como o braço que segura o candelabro no castelo de a Fera. E as estátuas que observam atentas e silenciosas a ação. É por intermédio do encontro de extremos que o filme caminha: falsidade, desejo de poder x pureza do coração e olhar de criança. Mas somente o amor pode transformar um coração bom aprisionado em um corpo monstruoso.

A cópia foi restaurada pelo Centro Audiovisual de Luxemburgo. É um excelente transfer, limpo de impurezas no som e imagem, como atesta um extra especial no disco 2. A taxa de gravação varia entre 6 a 8Mb/s

Extra do disco 1:

Autobiografia de um desconhecido (Jean Cocteau: autoportrait d´un inconnu)

Documentário dirigido por Edgard Cozarinsky, que tem duração de 66 minutos, que traz narração do próprio Cocteau a respeito de sua vida e obra. Material precioso para compreender melhor o artista. Há um repasse na biografia, corrige erros, mostra fotos raras de família e uma entrevista com o diretor. Este ressalta a amizade com Pablo Picasso e Erik Satie, que contribuíram na sua formação, e a admiração pelo balé russo e Nijinski.

Cocteau revela métodos de direção e afirma: “eu usei o cinema como veículo poético para mostrar coisas que eu não podia dizer.”

DISCO 2

Orfeu (Orphée)

Com Jean Marais, François Périer e María Casares

O próprio Jean Cocteau inicia sua obra como narrador situando o mito sobre Orfeu. E ressaltando que as histórias mitológicas podem ser ambientadas em qualquer lugar: “interprete (espectador) como quiser.” A opção escolhida pelo realizador foi a de trazer para a atualidade, naquele momento nos anos 1950, e transformar o personagem em um poeta famoso com o público, mas odiado pelos pares e críticos. Na própria trilha sonora, Cocteau promove a transição entre a música lírica para o jazz.

As primeiras sequências de Orfeu são passadas no Café do Poeta, que reúne jovens rebeldes artistas para recitar versos, cantar e fazer performances. Há uma encenação caótica no que parece uma arruaça de gangues e na construção de um imaginário de rebeldia artística. Estas cenas antecedem, por exemplo, O selvagem (1953), que promoveu Marlon Brando, e Juventude Transviada (1955), que lançou James Dean. E, colocadas lado a lado, carregam grande semelhança. Mas, claro, que a proposta de Jean é completamente distinta: o seu anti-herói é um poeta em busca de um sentido para vida e que vai iniciar uma jornada por um mundo desconhecido e fantástico.

Há um acidente trágico com motos, que serve como cortina de fumaça para o real intuito: um encontro do personagem com a morte. É a partir desse instante que o realismo cede lugar ao onírico, como nos outros filmes de Cocteau. Orfeu embarca numa viagem de carro para outra zona de espaço-tempo, como é ilustrado pelos efeitos de imagem na rua e as trucagens visuais. Dentro do veículo, o personagem permanece na escuridão e ouve que “o sonhador deve aceitar seus sonhos.” A imagem mais recorrente no cinema de Jean Cocteau é a do espelho, seja pela duplicidade de imagem, seja pela entrada no mundo inverso, que é regido por uma nova ordem. É essa magia que promove o encantamento dos personagens pelo estranho e que os movem em direção ao desconhecido, ainda que seja uma descida ao inferno (Orfeu) ou uma subida aos céus (A Bela e a Fera).

A cópia foi restaurada pelo CNC (Centro Nacional de Cinema), na França, e apresenta uma qualidade bem superior a primeira digitalização. A taxa média de gravação varia entre 7 e 8,5 Mb/s, gerando a melhor qualidade média na coleção.

O testamento de Orfeu (Le Testament d´Orphée)

Com Jean Cocteau, Françoise Arnoul e Claudine Auger

Filme-testamento de Jean Cocteau, que só realizou mais dois curtas depois do longa-metragem. O testamento de Orfeu promove não só uma súmula da carreira do realizador, como repassa sua vida e reflexões. Por essa razão, é estrelado pelo próprio cineasta, que reencontra amigos (Picasso) e personagens. É uma forma bastante poética como despedida do meio cinematográfico: “eu acabei me afastando do cinema porque tinha que produzir e fazer tudo.”

Antes mesmo dos créditos, aparecem as cenas finais de Orfeu, só que sem os diálogos. Há, como de hábito, uma narração em off explicando o sentido do filme como “uma revelação de minha alma nua.” Realidade e ficção vão caminhar na narrativa e através do choque entre elas promover um encontro de épocas em formato episódico, que remete diretamente a Sangue de um poeta.

O testamento de Orfeu parte do desenvolvimento da fenixologia, termo cunhado pelo pintor Pablo Picasso, em que um indivíduo pode morrer e renascer algumas vezes, como o pássaro fênix da mitologia grega. Nessa segunda jornada, Cocteau é guiado por um dos seus personagens (Cégeste) e inicia uma espécie de Odisseia particular onde realismo e fantasia se misturam novamente: a Igreja que pintou; a vila onde morou; personagens míticos; e amigos do presente.

O desfecho é alegórico e surrealista em um funeral cinematográfico marcado pelo sangue e a flor da esperança (únicos elementos com coloração em todo o filme). Para finalizar que “os poetas só fingem que morrem.”

A cópia é restaurada e apresenta uma variação de qualidade na gravação entre 3,5 e 7 Mb/s. Há apenas em alguns frames, ou poucos segundos, próximos ao desfecho, uma linha preta, que não compromete a apreciação.

Extras do disco 2:

Jean Cocteau e seus truques (Cocteau et ses trucages)

Curta documental dirigido pelo cineasta Marc Caro (Delicatessen), com duração de 13 minutos, que analisa os elementos técnicos usados por Cocteau em seus filmes: câmera lenta, movimento invertido e trucagens de câmera, bem como a forma dele trabalhar com a equipe e o roteiro.

Falando sobre jazz

Trecho de entrevista do realizador para a televisão, com duração de 17 minutos, que parte da utilização de jazz na trilha sonora de Orfeu: “dá força e intensidade ao filme.” Após esse momento, o diretor reflete sobre a vida, arte e juventude. Há também uma avaliação sobre o cinema francês e os jovens autores.

A restauração de A Bela e a Fera

Matéria explicativa, com duração de quatro minutos, sobre o estado original do negativo do filme e o registro do procedimento de trabalho para melhorar a imagem e retirar impurezas do som. Depois há a demonstração lado a lado de cenas entre o original e o restaurado mostrando a diferença na qualidade.

FICHA TÉCNICA

Formato de tela: 1.37:1

Som: Dolby Digital 2.0 (192 Kbps)

Autoração e legendagem: Menus animados com a moldura em cenas de filmes. Dois longas por disco e extras divididos de maneira igualitária. Idioma original francês com legendas em português. Durante a apresentação dos filmes só notei apenas um erro grosseiro com a palavra “viagem” grafada incorretamente com “j” em O Testamento de Orfeu. Com relação ao restante é uma boa tradução, sem pular falas ou acelerar.

Distribuidora: Obras-Primas do Cinema (www.colecioneclassicos.com.br)

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