Críticas


O ANO DE 1985

De: YEN TAN
Com: CORY MICHAEL SMITH, VIRGINIA MADSEN, MICHAEL CHIKILIS, JAMIE CHUNG
25.04.2019
Por Maria Caú
A narrativa emociona nos momentos em que se liberta do formato de filme-tese

No Natal de 1985, Adrian (Cory Michael Smith) volta para sua casa no Texas após alguns anos longe. Ali, o jovem gay não assumido tem que lidar com os muitos questionamentos dos pais religiosos e conservadores (Michael Chiklis, bastante bem, e Virginia Madsen, que apesar do óbvio talento parece mal escalada como uma dona de casa oprimida e negligenciada), o ressentimento do irmão mais novo e a mágoa da ex-namorada abandonada. Essa trama é tão conhecida que até perdoamos a menção a um pequeno spoiler. É a história repetida e francamente comovente de tantos e tantos jovens que experimentavam pela primeira vez nas grandes capitais norte-americanas, em especial Los Angeles, Nova York e São Francisco, uma liberdade e um senso de comunidade impensáveis em suas cidades de origem apenas para serem assolados no auge da juventude e da liberdade pela epidemia da AIDS. Muitos acabaram rejeitados por seus familiares, e para todos retornar ao lar era uma experiência de grande tensão e estresse emocional. Esse retrato da vivência do homem gay nos Estados Unidos (e, em grande medida, no mundo) na década de 1980 ganha relevância nos tempos de intolerância que vivemos, mas já foi abordado de maneira muito mais potente no documentário (no maravilhoso Estávamos aqui, de 2011) e até mesmo no cinema brasileiro (no delicado e profundamente subestimado Califórnia, 2015, de Marina Person).

Aqui, infelizmente os diálogos extremamente esquemáticos e a mise-en-scène pobre fazem com que a obra tenha dificuldades em se libertar do formato burocrático de filme-tese para se tornar uma narrativa realmente envolvente e pulsante. À parte algumas boas sequências, como o reencontro do protagonista com um bully do colegial, ou a cena final com a mãe, o filme se perde no seu enorme senso de responsabilidade com o tema, e acaba resultando numa estrutura esquemática. A melhor escola do roteiro é a abordagem da relação entre Adrian e o irmão, que está ele mesmo se descobrindo bastante deslocado no contexto opressor em que vive; o ator que faz o pré-adolescente, entretanto, é convencionalmente bonito demais para interpretar um menino que sofre assédio dos colegas por conta não só de ser muito ligeiramente efeminado, mas principalmente pela aparência. Outro dos pontos altos, a fotografia, assinada por Hutch (que idealizou a história ao lado do diretor, Yen Tan), em preto e branco e com alta granulação, é interessante por parecer retratar um tempo já morto, o tempo da despedida, apontando para a impossibilidade de Adrian de antever um futuro para si. O filme foi filmado em película com o negativo mais antigo ainda em produção, Kodak Double X.

Aqui e ali, o conjunto emociona à medida que se liberta das amarras do roteiro e consegue soar mais genuíno. Além disso, é evidente que Cory Michael Smith, que interpreta o protagonista com muita dignidade, consegue pontualmente, através de olhares e gestos, dar ao personagem a tridimensionalidade que a maior parte dos diálogos não é capaz de delinear nem mesmo como subtexto.

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