Críticas


OS PAPÉIS DE ASPERN

De: JULIAN LANDAIS
Com: JOELY RICHARDSON, JONATHAN RHYS MEYERS, VANESSA REDGRAVE
17.05.2019
Por Luiz Fernando Gallego
Os desempenhos de Joely Richardson e de sua mãe, Vanessa Redgrave, são destaques em um filme frustrado.

Com produção de dois dos seus principais atores, Jonathan Rhys Meyers e Joely Richardson, esta versão para cinema do romance homônimo de Henry James parece ter sido pensada como veículo para a dupla, tanto que contou com a participação luxuosa de Vanessa Redgrave, mãe de Joely, que certamente dá força à empreitada com o peso de seu nome e mais do que reconhecido talento dramático. Enfrentando uma personagem que se mantém quase o tempo todo numa cadeira de rodas, Vanessa sabe bem o que faz nos planos fechados sobre seu rosto enrugado: há sutilezas na modulação da voz, pequenas alterações no olhar e força até mesmo num pequeno gesto com o dedo indicador indicando que o visitante deve sair – tudo é admirável, embora nada surpreendente para quem acompanha a carreira da atriz de 82 anos.

Com mais cenas e diálogos, o destaque, entretanto, vai mesmo para Joely que, de modo geral, vinha chamando bem menos atenção do que a irmã mais velha, Natasha Richardson, falecida em decorrência de um traumatismo craniano há dez anos. Com mais de 60 filmes para cinema (quase nenhum memorável) e TV (onde teve um pouco mais de repercussão), Joely surge neste filme sem esconder - e até mesmo - acentuando sua idade e conseguindo uma boa chave de interpretação para a personagem: é seu melhor desempenho dentre os que conhecemos.

Já Jonathan Rhys Meyers mostra-se excessivamente “duro” na composição do pesquisador da vida de um poeta que teria deixado cartas e - talvez - poemas inéditos em posse de sua amante de juventude, hoje idosa e reclusa, cuidada por uma sobrinha num casarão decadente de Veneza. Sua interpretação é excessivamente monocórdia, acentuando um lado esnobe e antipático do personagem.

Quanto ao resultado final, infelizmente, não corresponde tanto ao investimento que provavelmente os atores esperavam. Henry James não é um autor fácil de ser levado às telas, ainda que haja alguns excelentes filmes extraídos de seus escritos: Tarde demais (1949), de William Wyler e baseado em “A Herdeira” (Washington Square) é o maior destaque ao lado de Os Inocentes (1961), de Jack Clayton, adaptado de “A Outra volta do parafuso”. Apesar de pouco apreciado quando de seu lançamento, A Taça de Ouro, de James Ivory (2000) é um tour de force na adaptação da enorme obra final de James, um de seus livros mais complexos. Ivory adaptou outras obras de James, assim como até mesmo François Truffaut mesclou " O Altar dos Mortos" com "A Fera da Selva" em um de seus filmes menos conhecidos, O Quarto Verde.

Já a pequena novela “Os Papéis de Aspern” tem pouquíssima ação e pode ter servido bem a adaptações teatrais. Há notícias de que o pai de Vanessa, Michael Redgrave, esteve numa versão para o palco no final dos anos 1950. A própria Vanessa fez o papel da mulher mais nova, Tina, em outra encenação anos depois. Agora é sua filha que interpreta a personagem de meia idade que foi de Vanessa no teatro inglês. E este filme, assinado pelo estreante Julian Landais, também seria pautado por outra montagem recente na França.

Um dos produtores executivos é James Ivory e o que se vê na tela tem características dos filmes de época assinados por ele: imagens suntuosas (de Veneza), bela fotografia, bonito vestuário de época. Entretanto, a origem do diretor Landais em comerciais se faz notar nas cenas de flashback sobre o que teria acontecido entre a agora idosa personagem de Vanessa Redgrave e o poeta que Rhys Mayers pesquisa e idolatra: são os momentos menos felizes do filme com um clima excessivamente enfeitado, coreografado e “sensual” às raias da breguice, com atores que lembram mais modelos do que intérpretes.

Também os encontros do pesquisador com uma amiga e outras americanas radicadas em Veneza pouco acrescentam ao tema central da história, assim como as andanças dele por becos, em clima de pesadelo: confundem mais do que explicam o personagem que fica bem unidimensional. Quem manipula, quem é manipulado nas relações entre ele e as duas mulheres? O filme esboça este aspecto sem maior brilho, ainda que tais sutilezas nem sempre fiquem mesmo claras nos enredos de Henry James.

Curiosamente, entre mais de 130 adaptações de obras do romancista para o audiovisual, "Os Papéis de Aspern" deu origem ao segundo filme extraído de um livro do autor: em 1947, o ator Martin Gabel (que teve papéis secundários em filmes de Losey e Hitchcock) fez seu único filme atrás das câmeras antes de começar a carreira de ator: Recordações, com Agnes Moorehead e Susan Hayward, e cujo título original é The Lost Moment, bem jamesiano.

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Outros comentários
    4894
  • Margareth Mallet
    24.05.2019 às 17:25

    Concordo plenamente com a crítica de Luiz Fernando e me furtarei a acrescentar alguns comentários.Primeiro:o ator protagonista tem desempenho artificial e fraco !!Segundo:a dramaturgia ,péssima.Terceiro:nem Vanessa Redgrave ,um ícone em matéria de interpretação, salva o filme.Quarto:nem a fotografia belíssima!!Um desperdício...