Críticas


GRAÇAS A DEUS

De: FRANÇOIS OZON
Com: MELVIL POUPAUDE, DENIS MÉNOCHET, SWANN ARLAUD, ÉRIC CARAVACA
20.06.2019
Por Maria Caú
Centrado na força de um impressionante grupo de atores, o longa supera sua rigidez inicial

Um dos mais celebrados cineastas franceses da atualidade, François Ozon tem uma carreira bastante heterogênea, que une obras de ossatura mais tradicional (Potiche, Jovem e bela) àquelas fundadas em certas experimentações de linguagem, seja na inter-relação entre o cinema e as outras artes (Swimming Pool, por exemplo, faz do processo literário estrutura narrativa) ou nos transbordamentos possíveis entre os gêneros cinematográficos (Oito mulheres, Gotas d´água em pedras escaldantes). Graças a Deus não apenas pertence ao primeiro grupo, como trata de uma pesadíssima história real, abordando um processo criminal ainda em curso na França contra um cardeal que encobriu os terríveis crimes de um padre pedófilo na Lyon dos anos 1980. O padre abusara de dezenas de meninos, em geral escoteiros ou coroinhas.

Talvez certo senso de grave compromisso com o aspecto de denúncia explique parcialmente a rigidez que contamina o primeiro terço do filme, centrado no homem que fez a primeira denúncia oficial. Ali parece que a obra não consegue respirar, esbarrando num certo didatismo ao revelar uma perfeita família católica com cinco filhos que vive as consequências do trauma do patriarca (um homem retratado como corretíssimo e bastante religioso – e talvez fosse bom que ele tivesse alguma nuance dissonante, mas entendem-se as dificuldades de liberdade criativa próprias do caso).

A narrativa se apoia numa série de correspondências, depoimentos e outros relatos trocados entre as vítimas e seus algozes ou eventuais apoiadores, narrados em voz-over, recurso que funciona bastante bem para costurar tantas histórias, mesmo porque o filme por duas vezes “abandona” um personagem central para seguir com outro. Interessantemente, é quando dá esses saltos que a trama ganha em dimensão e profundidade, relevando diferentes homens, contextos familiares distintos e múltiplas reações à tenebrosa experiência do abuso. Essa investigação da masculinidade (ponto em que o longa se liga perfeitamente à obra de Ozon, que já empreende esses questionamentos há anos) é o grande trunfo do filme, que mostra a dificuldade do homem de assumir a posição de vítima, a importância do diálogo com aqueles com vivências semelhantes e o potencial do processo criminal para a expurgação dessas memórias dolorosas. É possível até que o filme ajude outros homens a juntarem a coragem para fazer esse tipo de denúncia, o que é em si bastante valoroso.

Quando se recupera da austeridade formal do início e respira, Graças a Deus segue com diversos momentos genuínos e emocionantes, apoiado num elenco bastante bom, em especial nas brilhantes atuações de Swann Arlaud e Denis Ménochet. Ambos dão tamanha realidade aos seus personagens que não é difícil pensar: em quantos homens comuns, de pais de família bem-sucedidos aos que permanecem sem conseguir ocupar um lugar produtivo na sociedade, se esconde a criança traumatizada e alquebrada que um dia sofreu nas mãos de um adulto abusador?



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Outros comentários
    4901
  • Ceci Lohmann
    20.06.2019 às 18:52

    Gostei muito do seu comentario.especialmente no que se refere a transparencia de tratar da questao do abuso nos homens. Percebi que no contexto.as mulheres eram mostradas como um elemento compreensivo e solidario a esses homens vitimados...me deu uma sensacao de familias perfeitas.ao contrario dos pais q foram cumplices desses abusos.negando o fato em si