Críticas


JORNADA DA VIDA

De: PHILIPPE GODEAU
Com: OMAR SY, LIONEL LOUIS BASSE, FATOUMATA DIAWARA
18.07.2019
Por Luiz Baez
Um cinema que desmerece a si mesmo.

Em um luxuoso apartamento parisiense, o pequeno Nathan comemora seu aniversário. Enquanto se distrai com a atração da festa - um palhaço -, o menino se deixa capturar pelas lentes do pai. Corte. Mais de cinco mil quilômetros distante, no nordeste do Senegal, o ligeiramente mais velho Yao conta uma história aos amigos. A narração interrompe-se pelo acaso, algo inimaginável aos olhos do espectador metropolitano: um bode devora uma página inteira do livro - a qual, por sua vez, o jovem leitor se prontifica a reescrever.

Embora breve, a introdução de Jornada da Vida muito revela sobre uma proposta opositiva. Se, por um lado, o núcleo africano resgata a comunidade de leitores e ouvintes da cultura letrada, por outro, os potenciais do audiovisual são negados no paralelo europeu. Como? - talvez paire essa dúvida. Em primeira análise, salta aos olhos um par de elementos: o palhaço e a câmera fotográfica - esta, ferramenta indispensável da arte cinematográfica; aquele, caricatura máxima de um registro performático.

Caso, porém, a sugestão de uma dicotomia ainda soe como um salto indutivo, o intercâmbio entre os dois núcleos clarifica algumas questões. Yao sonha conhecer Seydou, pai de Nathan. Ator de renome, Seydou Tall escreveu Fils de tailleur [Filho de alfaiate], espécie de autobiografia sobre uma descendência esquecida. Em viagem para a Bienal do Senegal, o agora autor experimenta um vazio decorrente do status célebre. “Dizem que as mulheres desmaiam quando você entra no set”, brinca um taxista. Esse e semelhantes comentários desprestigiam a carreira cinematográfica de Tall, ao passo que a literária é louvada enquanto exemplo para o menino Yao, cuja origem humilde assemelha-se à de sua inspiração.

Mesmo que o encontro entre as duas crianças limite-se a uma ligação telefônica, comparações abundam no decorrer do filme. Os diversos obstáculos não impediram o africano de versar-se em literatura, de Homero a Júlio Verne. O europeu, por sua vez, celebra o aniversário com palhaços, mágicos e sons e imagens de tablet. Valorizar a vontade de Yao certamente consistiria em um acerto narrativo. Contraditório, no entanto, é assistir a um cinema que desmerece a si mesmo. O que seria, afinal, da Sétima Arte sem a dimensão mágica do prestidigitador Georges Méliès?

Deposto, portanto, de seu prestígio, restam ao audiovisual soluções formulaicas. Uma comédia francesa estrelada por Omar Sy: a aposta certeira dispensa qualquer novidade. Felizmente, contudo, o diretor e roteirista Philippe Godeau demonstra recuperar a fé. Na escolha por um elenco majoritariamente negro e africano, Jornada da Vida permite a outros Yao se reconhecerem - como o amigo Demba, que sonha tornar-se ator. Na estrutura de road movie, Godeau abraça o fluxo, a imprevisibilidade do trajeto - segundo uma personagem, “o destino é Deus viajando escondido”. Na simbologia das águas, por fim, uma arte moderna, turbulenta como as ondas ou as grandes cidades, captura o tempo ralentado da vida rural, encerrando-o entre margens - sejam elas as de um rio, sejam elas as de um plano.



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