Críticas


NO CORAÇÃO DO MUNDO

De: GABRIEL MARTINS e MAURÍLIO MARTINS
Com: GRACE PASSÔ, KELLY CRIFER, LEO PYRATA, BARBARA COLEN, MC CAROL DE NITERÓI
01.08.2019
Por Luiz Baez
Os Martins retratam uma Contagem que, paradoxalmente, não leva em conta grande parte de seus habitantes

No coração do mundo é onde queriam estar as personagens do filme homônimo. Desse destino as separa um grande evento, guardado para os últimos minutos de projeção. Seus rostos, cada qual voltado para um lado, dissolvem-se no trajeto. Selma (Grace Passô) sonha reencontrar a filha, abandonada ainda bebê. Ana (Kelly Crifer) luta contra a pacata rotina de cobranças de passagens de ônibus e cuidados com o adoecido pai. Marcos (Leo Pyrata), por fim, talvez só deseje retribuir os esforços da dedicada mãe.

De início receosas, as frontes ganham, no regresso, contornos de esperança. Antes interdita, a trilha emana diegeticamente do rádio. “Eu já chorei muito ouvindo essa música”, diz Selma ao som de Mordida de amor. Quanto ao espectador, pode ele entreouvir o trecho “Isso é amor / Ou uma doce mentira”. Esquecido o contexto original da canção - isto é, a ilusão romântica -, importa pensar a qual “doce mentira” diz respeito o longa-metragem. Resposta possível encontra-se na figura de Ana.

Com pele clara e boa aparência, a moça desempenha papel-chave no plano de seus co-protagonistas. Apenas ela, afinal, conseguiria viver “uma doce mentira”. Em outras palavras, bastam-lhe roupa e penteado novos para emular o pertencimento a uma classe da qual, na verdade, está excluída. Afirmar um corte não significa, contudo, concordar com uma intransponibilidade. Para além do caráter ideológico da mobilidade social - manifesta em cena pela manchete “Como ganhar dinheiro se o Brasil der certo” da revista Exame -, os cineastas Gabriel e Maurilio Martins transparecem a pura fantasia fundadora de tal distinção.

Não somente os protagonistas, também os coadjuvantes, porém, aspiram transpassar essa barreira. Rose (Barbara Colen), por exemplo, divide-se entre marido e amante, salão de beleza e Uber. Vive dupla vida, dupla jornada, enquanto contesta a própria ideia de pertencimento. “Tô precisando ganhar dinheiro. Vou ficar vivendo de amor com você?”, pergunta, em uma tradução literal da ascensão - ou do novo coração do mundo - por ela almejado. Beto (Renato Novaes), por sua vez, não dispõe da mesma paciência. Busca, de outro modo, enriquecer imediatamente por meio do crime. Tal opção revela-se igualmente desterritorializante. Em troca de independer de “salário, busão lotado, esporro do patrão”, acaba por perder o privilégio de dormir “com os dois olhos fechados”.

Há, ainda, a voluntária decisão de descentrar-se, incorporada por Brenda (MC Carol de Niterói). Em face das dificuldades para sustentar a avó, cujos medicamentos não provê o poder público, a jovem escolhe refugiar-se na maconha. A ineficácia do governo, por sinal, dita a tônica do filme: seja implicitamente na indisposição em solucionar abismos socioeconômicos, seja explicitamente em uma violência mimética.

Ironicamente a história se passa em Contagem, município de Minas Gerais. Nesse sentido, os Martins retratam uma Contagem que, paradoxalmente, não leva em conta grande parte de seus habitantes. A essa parcela resta sonhar com outro lugar, com o seu lugar no coração do mundo.

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