Críticas


DOSSIÊ TARANTINO: CÃES DE ALUGUEL (1992)

15.08.2019
Por Daniel Schenker
Explosões de brutalidade e rompantes de afeto

Quentin Tarantino despontou para o mundo com Cães de aluguel, surpreendente cartão de visitas em que apresentou um cinema cheio de referências, muitas adquiridas ao longo de sua vivência em videolocadora, marcado por notável domínio técnico e segura direção de atores.

Uma influência teatral vem à tona, tendo em vista a concentração em espaços fechados (em especial, um galpão) e o investimento no texto (inegável o teor verborrágico) e nas atuações. O teatro se insinua ainda na afirmação de que “um tira disfarçado tem que ser um bom ator”. Essa crença é justificada nas cenas em que o policial infiltrado, Mr. Orange/Freddy (Tim Roth), ensaia suas falas e no instante em que, de fato, age como bandido e acaba baleado. Mas a câmera se impõe desde a primeira sequência, rodeando os personagens reunidos numa lanchonete (fotografia de Andrzej Sekula).

Bastante simples, a história – um assalto, que dá errado, a uma joalheria, situação cuja tensão aumenta diante da desconfiança da presença de um informante da polícia dentro do grupo de assaltantes – tem determinadas lacunas preenchidas por meio de flashbacks, que, porém, não são inseridos de maneira meramente didática. Tarantino individualiza os personagens através de uma estrutura formada por capítulos em que cada um ganha certo destaque. Os personagens, contudo, têm suas identidades devidamente ocultadas (são identificados por cores, de modo a evitar que uns passem dados sobre os outros, se forem capturados). Apesar dessa designação impessoal, vínculos afetivos eventualmente se insinuam entre eles, como entre Mr. Orange/Freddy e Mr. White/Larry (Harvey Keitel), nesse filme interpretado por afinado elenco masculino.

Em todo caso, as relações são brutais, a julgar pela violência estampada na tela. O contraste entre a leveza da trilha sonora e sequências repletas de sangue acentua a perversão de alguns personagens. As imagens do policial torturado, Marvin Nash (Kirk Baltz), e do integrante baleado do bando, sangrando sem parar, sugerem que Tarantino procura valorizar os extremos do corpo – os extremos da dor –, perspectiva realçada no momento em que ambos, já quase sem forças, conversam. Essa abordagem do corpo conecta Cães de aluguel a realizações futuras do diretor, principalmente ao projeto Kill Bill (2003/2004). Há também um discreto elo com Jackie Brown (1997) através da menção a Pam Grier e da questão do racismo, frisada constantemente nos comentários preconceituosos dos personagens. Conciso, rigoroso, irreverente e desconcertante, Cães de aluguel mobilizou uma geração cinéfila no início da década de 1990. O filme sobrevive plenamente à passagem do tempo.

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