Críticas


QUANDO VOAM AS CEGONHAS em DVD

De: MIKHAIL KALATZOV
Com: TATYANA SAMOYLOVA, ALEKSEY BATALOV, VASSILLIY MERKUREV
27.08.2019
Por Leonardo Luiz Ferreira
Vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes, em 1958, é lançado em cópia restaurada pela distribuidora CPC-UMES.

Apresentação: DVD amaray simples com pôster do filme na capa e still na contracapa em fundo transparente. Informações de ficha técnica incluem sinopse, stills e descrição de extras. Menu animado com trilha sonora e imagem fixa do pôster. Os extras se resumem a textos biográficos dos principais nomes da produção.

Crítica do filme e análise da cópia

Quando voam as cegonhas (Letyat zhuravli, 1957), de Mikhail Kalatozov, tem, finalmente, uma edição à altura no mercado de home vídeo nacional, pouco mais de 60 anos depois de seu lançamento. A cópia aqui apresentada é uma restauração completa de imagem e som de 2017 realizada pelo Estúdio Mosfilm, com legendas em português vertidas diretamente do original russo – o que permite uma compreensão maior de particularidades nos discursos, já que a diluição para outra língua provoca distorções comuns. Além disso, a autoração da CPC-UMES faz com que a exibição permaneça fluida em uma velocidade de transmissão de dados entre 8 a 9.6 mb/s.

A abertura é uma sequência lírica que remete ao cinema mudo: moça observa o rio quando seu namorado chega e caminham felizes pelo horizonte. O movimento de câmera na grua parte do particular para o geral, uma característica da obra do diretor russo, que trabalha o espaço em uma organização simétrica e que valoriza a arquitetura tanto da urbe quanto da natureza. O cinema de Mikhail transmite uma sensação de poesia e lirismo, ainda que o caos esteja sempre instaurado. Isso tanto acontece aqui quanto em seus dois outros clássicos: A carta que não se enviou (Neotpravlennoe pismo, 1960) e Eu sou Cuba (Soy Cuba, 1964). O passeio do casal chega até uma esquina, onde são filmados em um ângulo diagonal para trabalhar a relação dos corpos com o espaço – uma tônica da produção. O cineasta repensa o estar no mundo dos dois personagens, Veronika e Boris, através da escolha dos planos e do direcionamento da câmera em cena: é um registro de cumplicidade, mas que, por intermédio, da mise en scène já demarca que algo está deslocado naquele universo, mesmo que o espectador não tenha ideia ainda do porvir.

“No amor, a perdição é de ambos”, ressalta o pai de Boris, em uma observação arguta; enquanto os enquadramentos mostram alternadamente os namorados se atirando na cama da mesma forma, como se um embarcasse nos braços do outro. O que parece um conto de fadas, e com elementos concentrados no melodrama, com encontros escondidos, apelido amoroso (‘esquilinha’) e um sentimento que parece maior que a vida, se transforma a partir de um simples pronunciamento no rádio: a declaração da 2ª Guerra mundial e a convocação da população soviética para se apresentar ao Exército Vermelho. O mundo em desalinho, já prenunciado pelas imagens iniciais, se torna real.

Boris é um operário de fábrica e movido pelo espírito patriota deseja se alistar, mesmo que isso signifique a separação momentânea de Veronika. O personagem crê cegamente em cumprir o dever e não pensa que pode sofrer nenhum revés. É uma jornada de fé, como os geólogos, em A carta que não se enviou, que buscam descobrir pedras preciosas nunca antes encontradas na Sibéria. Nesse instante, a câmera vai para as ruas, como num movimento neorrealista - que remete a Trilogia da Guerra, de Roberto Rossellini -, e Veronika passeia em desespero em meio aos tanques de guerra. Um plano-sequência de despedida do casal traz a marca indelével da parceria entre Kalatozov e o fotógrafo Sergey Urusevskiy: a câmera nas mãos percorre corpos em meio ao tropel no qual sentimentos conflitantes são capturados, por entre a alegria e a tristeza, em um curto espaço. A multidão, a marcha da banda e o caos cedem lugar às ruas vazias e ao pavor de ataques aéreos em Moscou. Todo simbolismo imagético construído na primeira metade da narrativa é, literalmente, demolido: a cidade está em escombros e a destruição arquitetônica é o legado da guerra.

Em Quando voam as cegonhas, a arte e a barbárie vão andar lado a lado: a sirene que prenuncia o ataque aéreo está em contraponto ao som do piano; e, ainda que, o pianista tente tocar mais alto, o barulho e o efeito da destruição são sempre maiores. É curioso como essa sequência é tão bem construída por entre trilha sonora, ação e reação dos personagens e o conflito latente estabelecido: vidros são estilhaçados, tapas são desferidos e a opacidade transforma os rostos.

O longa apresenta uma das melhores sequências já realizadas de morte no cinema: o personagem olha para o céu nebuloso logo após ser baleado, a queda acontece em uma rotação difusa na floresta na qual o movimento descrito pela câmera é de cima para baixo; em sobreposição de imagem, um sonho de casamento, amor e morte juntos. Em outro momento, a tentativa de suicídio de Veronika é narrada através da fusão da câmera com seu estado de espírito em uma caminhada desesperada próxima à linha do trem. Os instantes de tensão são delineados pela escrita da câmera em um passeio vertiginoso em uma montagem dinâmica e de extrema força ainda nos dias de hoje.

Kalatozov constrói uma ode ao amor em tempos de guerra. Uma obra antibelicista, como fica explicitada no discurso do desfecho, que ressalta “o ódio amargo da guerra”. Mas que em seus planos finais exalta o bebê como esperança no futuro de uma nova vida e novos tempos para a União Soviética. E o retorno simbólico das cegonhas ao céu de Moscou só corroboram essa esperança.

FICHA TÉCNICA

Formato de tela: 1.33:1

Som: 2.0 (448 Kbp/s)

Duração: 96 minutos

Distribuidora: CPC-UMES Filmes (cpcumesfilmes.org.br)









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