Críticas


CHICUAROTES

De: GAEL GARCÍA BERNAL
Com: BENNY EMMANUEL, GABRIEL CARBAJAL, DANIEL GIMÉNEZ CACHO
05.09.2019
Por Luiz Baez
No meio das cinzas, o protagonista descobre-se cúmplice da violência de que se cria vítima.

Uma mesma figura se repete em três momentos, cada qual dotado de novas significações. Esperança, risco e desilusão: talvez assim se traduza esse tríplice gesto. De início, Cagalera (Benny Emmanuel) acende e observa um fósforo, fagulha de possibilidades jamais realizadas. Em seguida, o novo palito queima duradouramente, ameaçando levar consigo o dedo - ou os sonhos - do protagonista. Ao fim, só restam duas unidades na caixa, riscadas simultaneamente. Em poucos segundos, porém, ambas se apagam. Só sobram as cinzas. Ou, melhor, nada remanesce. De uma só vez, esvai-se tanto a fantasia de um porvir quanto os perigos enfrentados ao longo desse trajeto.

Chicuarotes, segundo longa-metragem dirigido por Gael García Bernal, nomeia quem vive em San Gregorio de Atlapulco, povoado a sudeste da Cidade do México. Sinônimo de um fruto local, o gentílico associa a resiliência e a dureza do alimento ao caráter dos moradores. Nesse sentido, a informação, não apenas subjacente à experiência empírica do filme, traduz-se em uma interessante metáfora. Em determinada sequência, Cagalera foge para a casa da namorada, Sugheili (Leidi Gutiérrez), onde passa a noite. Lá habitam dois axolotes, confinados em um pequeno aquário. O animal, cujo nome deriva do deus asteca Xolotl, recebe o apelido salamandra mexicana, uma vez que dela se assemelha como perpetuação de seu estado larval. Em outras palavras, os axolotes são salamandras que nunca se desenvolvem.

Uma leitura biológica identifica, portanto, os axolotes aos jovens protagonistas: carentes de perspectivas, permanecem eles em um eterno estado embrionário. Tal análise depende ainda, no entanto, de saberes exteriores à obra. A solução, mais próxima do que se imagina, encontra-se então na própria diegese narrativa. Preocupado com as pequenas salamandras, Cagalera pergunta por que não liberá-las no canal da cidade. Sugheili responde: a poluição as mataria. Aparentemente simples, o argumento da menina volta o olhar para o ambiente hostil de San Gregorio de Atlapulco - não somente para os anfíbios, mas, e principalmente, para Sugheili, Cagalera e o amigo Moloteco (Gabriel Carbajal).

Nessa lógica, os cuidadosos cenários dispõem cartazes inteligentemente traduzidos pelas legendas brasileiras. Em um deles, por exemplo, lê-se: “Chillamil é o chefe agora. Dê o fora”. Ainda que o espectador desconheça o sujeito da frase inicial, pode imaginar a lógica miliciana por trás daquela sociedade. A violência domina os ambientes familiares. Baturro (Enoc Leaño), pai de Cagalera, embriaga-se e agride a esposa, Tonchi (Dolores Heredia), e os filhos. As corruptas policiais, por sua vez, aceitam roupas íntimas e sexo como suborno. Os núcleos individuais convergem coletivamente, enfim, com o sequestro do filho do açougueiro, sozinho à noite para comprar bebida e sustentar o alcoolismo do pai.

Capitaneada por Cagalera, a atividade criminosa corresponde à esperança última de escapar de uma insalubridade aprisionante. Como as chamas sobre os palitos de fósforo, os riscos da transgressão rapidamente incineram os sonhos de liberdade. E, no meio das cinzas, o protagonista descobre-se cúmplice da violência de que se cria vítima. Não há para onde fugir. Sugheili corre, para, olha para trás e para frente. O plano se afasta, o imobilismo permanece.

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