Críticas


NO CORAÇÃO DO MUNDO

01.10.2019
Por Andrea Ormond
Hiperativo, cronista, reflexivo, debochado, pop, feminino: a beleza de vários filmes em um só.

O cinema silencioso é um lugar de alegrias e angústias profundas. Olhamos os filmes e imaginamos o que se perdeu. Nem sempre vemos o que a plateia original viu. Nem sempre ouvimos a mesma partitura de acompanhamento. Nós, o povo soberano do futuro, somos reféns de incêndios em arquivos, descasos históricos, versões alteradas.

Sangue Mineiro (1929), de Humberto Mauro, sobreviveu aos trancos e barrancos. É a Minas Gerais cristalizada para muita gente do século XX: verde, bucólica. “Cavada entre montanhas, no seu ingênuo deslumbramento de menina, Bello-Horizonte é a Cidade-encantamento, a Cidade-repouso, a Cidade-vergel…”, dizem as cartelas.

Notem que o filme conta com integrantes do Ciclo de Cataguases (Humberto e a atriz Nita Ney), além do jovial Adhemar Gonzaga em aparição como ator. Correndo por fora, Edgar Brasil, fotógrafo de Limite (1930). No epicentro, a primeira aliança de Mauro e Carmen Santos, a musa empreendedora do cinema brasileiro, aqui na ousadia de dirigir um carro ao lado do tipão Roberto (Luís Sorôa).

O enredo caminha para um sonho de folhetim, com bandidos e mocinhos. Sempre à espreita do Rio de Janeiro, para onde viajaria a melindrosa Carmen (vivida pela atriz homônima) e o próprio Mauro, que bateu nas portas da Cinédia – reduto de Gonzaga. Embora cultivasse a origem interiorana, Humberto não era exatamente um ingênuo. Basta vê-lo em Mauro, Humbertho (1975), direção de David Neves. Basta nos desmancharmos com Meus Oito Anos (1955). “Posso ser mineiro e ser nacional. Assim como posso ser nacional e ser universal”, costumava palestrar. Tudo é invenção nessa vida.

Noventa anos depois, 2019 traz No Coração do Mundo. E quando os créditos de abertura emendam com a música de MC Papo ao fundo (“BH é o Texas, Contagem é o motherfucking Texas”), o público já está comendo na mão de uma dupla de diretores-roteiristas-produtores: Gabriel Martins e Maurílio Martins.

Sobrenomes iguais, sem parentesco de sangue. O que temos aqui é um parentesco de almas. Gabriel e Maurílio falam da Minas Gerais dos Zés – o mimoso diminutivo que virou gíria para designar “cara”, “fulano”, “mano”, de qualquer sexo. Mulheres, homens, crianças, pretos, brancos, beijo gay em frente ao ônibus parado, na pachorra, em um dia de sol.

Minas Gerais, a essa altura do campeonato, não pode ter a pretensão de ser mineira e nada mais. Até porque se não é a Minas de Humberto Mauro, o rap também não o é. Temos agora a promessa da globalização, as bermudas largas, os cabelos estilosos. “Aqueles bolinho de fubá, guaraná Del Rey, Baré”, resmunga Marcos (Leo Pyrata) para a vizinha Brenda Lee (MC Carol). Com um carioquês castiço e entre digressões hilárias, com muita erva na cabeça, Brenda solta pérolas do tipo “Deixa a menina transar. Quer transar no lugar dela?” “Não dou na tua mão porque tu é safado. Vai querer comprar aqueles bolinho de laranja e vai pegar o dinheiro pra tu”. Memes instantâneos.

Breve resumo: o fracassado Marcos namora Ana (Kelly Crifer) e trabalha com Selma (Grace Passô), vendendo fotos de alunos em escolas primárias. Selma quer sair de Contagem, onde moram. Ao redor deles, os irmãos Beto (Renato Novaes) e Miro (Robert Frank) – opostos da mesma moeda –, Rose (Bárbara Colen) – o protótipo da mulher alfa, amante de Miro – e as vielas, as cores, os cheiros de Contagem.

Porque Contagem, periferia de Belo Horizonte, é uma obsessão, um ponto de partida, um ponto de chegada, que roda em torno de si mesma sem parar. Os personagens de No Coração do Mundo estão espalhados na obra de Gabriel e Maurílio. Em 2010, bastaram dezoito minutos para que o curta-metragem Contagem, dirigido pelos dois, estourasse em festivais e fosse abençoado por meio mundo – incluindo Carlos Reichenbach, o xamã que defendera Amarelo Manga (2003): filme de Cláudio Assis, pernambucano. Reichenbach é um nome querido ainda hoje para a geração dos 2000 que, na crítica de cinema, batia ponto nos blogs e já havia passado a amar cânones diferentes. Cinema popular, extremo, romântico, o que mais coubesse no balaio.

Esse imaginário aparece na “Filmes de Plástico”, produtora fundada em 2009 por Gabriel, Maurílio, André Novais Oliveira – diretor de Ela Volta Na Quinta (2014) – e Thiago Macêdo Correia. Os três primeiros, diretores. Nascidos em Contagem, cheios de habilidade para reinventá-la, cada qual ao seu modo. Na folha corrida, entre outros: Quinze (2014), de Maurílio; Dona Sônia Pediu Uma Arma Para Seu Vizinho Alcides (2011), de Gabriel; Fantasmas (2010), de André.

A partir do cataclisma de Contagem descobrimos um prólogo, o início da história que deságua nove anos depois em No Coração do Mundo. O longa-metragem bebe do curta. Usa equipes técnicas, tramas e atores que se repetem. Marcos (Leo Pyrata), Ana (Kelly Crifer), Rose (Bárbara Colen) e Miro (Robert Frank) – com exceção do pai demente de Ana, que retornaria em 2019, mas interpretado por outro ator, Eid Ribeiro, ao invés de Osman Rocha Alcântara. Novamente assistência de direção de André Novais Oliveira. Novamente a simbiose de Gabriel e Maurílio.

Em Contagem ouve-se pela primeira vez a expressão “no coração do mundo”, criada por Leo Pyrata e recitada por Ana. No Coração do Mundo destrincha o slogan, colocando-o no pódio do filme, em plena Escola Estadual Carlos Reichenbach – referência afetiva que é ligada a outra: o pesquisador Adilson Marcelino interpreta o diretor da escola, em uma participação que lembra as de Rubem Biáfora nos filmes da Boca do Lixo.

Partindo de um quadro estático e abrindo para a sala de aula, Grace Passô faz um quase monólogo, na certeza da apoteose – “estou pronta para o meu close, Mr. De Mille”. Temos o belo plano de 4 minutos e meio. Expõe-se o passado de Selma, as intenções da personagem, os meninos entrando para tirar foto com Selma e Marcos, uma angústia fina no peito. “Só penso em vazar daqui, rachar fora. Ir para o coração do mundo, cara. Coração do mundo é o próximo lugar. É pra onde a gente quer ir”. Existe técnica e não apenas a vontade de dois rapazes que se uniram em uma produtora e decidiram filmar.

Aliás, pelo fato de ser uma dupla de diretores-roteiristas, é nessas horas que geralmente surge a pergunta: onde começa o trabalho de um e onde começa o do outro? Na realidade, a intenção parece ser outra. Gabriel e Maurílio criam um bloco, algo sólido que representa os dois ao mesmo tempo. É a ponta, inclusive, para um grande achado: a beleza de vários filmes em um só. Hiperativo (com os enredos que se multiplicam); cronista (de uma cidade e de cada biboca sórdida ou iluminada que ela esconde); reflexivo (a morte banal, as derrotas, as pequenas alegrias); debochado (com direito a correio amoroso, trilha sonora da antiga banda Yahoo); pop (o compromisso com a verdade às vezes some, de propósito); feminino (as mulheres são o vértice da trajetória).

A presença feminina ocorre sem paternalismos, sem esforço para cumprir um rosário de boas intenções. O protagonismo das mulheres é palpável, é óbvio, é do cotidiano de uma cidade abandonada, em que os amores brotam da superação, entre mães solteiras, maridos ausentes, filhos mortos, churrasco na laje, pagode com cerveja, cantoria religiosa, sexo no sofá. Ana tem o olhar inseguro, trabalha como cobradora de ônibus, a exemplo da protagonista do bom curta-metragem Estado Itinerante (2016) – de Ana Carolina Soares, também de Minas. É ladeada por Rejane Faria, a atriz que protagonizou o par romântico de Karine Teles, em Quinze, de Maurílio. A mãe e a irmã de Marcos obsedam o sanguessuga. Rose engole Miro, o irmão correto de Beto (personagem de Renato Novais, irmão de André). Beto incorpora um bandido pateta, perseguido pela mãe de outro, que havia sido baleado por ele. O morto é Gabriel Martins, em uma aparição de Hitchcock brejeiro; a subtrama da mãe vingadora remete a Dona Sônia Pediu Uma Arma Para Seu Vizinho Alcides. Enquanto isso, o pai fragilizado de Ana e o marido morto de Selma – citado e não mostrado – são fantasmas de homens que dançam na tela, como o anti-herói Marcos, que mal sabe o que faz, o que diz e qual o por quê de sua existência.

Como sempre, aparições-relâmpago de não-atores – o que não é exclusividade dos diretores, mas sim da essência do cinema, dentro ou fora do Brasil, conforme o orçamento determine e o estilo favoreça. MC Papo surge na cabine de porteiro, em um condomínio de alto luxo. André Novais de madeixas rastafari, encarnando um tal de Reguinaite. Alguns convidados eram falecidos à época da estreia do filme, como o crítico Geraldo Veloso e a mãe dos Novais, Maria José – estrela de Ela Volta na Quinta.

Em duas horas, No Coração do Mundo dá voltas e passa no teste da empatia, sem se aproximar do estereótipo de “filme de festival”: incompreensível para o mundo e incensado por um grupo seleto. Apesar de a trupe da Filmes de Plástico dever muito do seu combustível às mostras e às competições, consegue dialogar com o público sem maiores traumas, sem temê-lo ou desprezá-lo. Torcemos pelos personagens, nos lembramos deles horas depois, quando escovamos os dentes ou no meio de uma conversa qualquer. Esse fato gera uma dificuldade grande para quem ainda insiste na neurose de odiar os filmes brasileiros – neurose matreira, que dá uma trégua quando o assunto é comédia, a paixão eterna, ao lado dos pratos de arroz com feijão. A década dos 2010 viu uma explosão de filmes que eram rarefeitos há até alguns anos, com destaque para os de horror (vide Marco Dutra, Juliana Rojas, Gabriela Amaral) e granjeando os de plots múltiplos, feitos para um público cada vez mais acostumado às tramas paralelas, seja na TV a cabo, seja no streaming. No Coração do Mundo atua nesse contexto e deixa um final aberto, entre o possível e o ficcional.

Está claro que problemas de som devem ser solucionados, muitas vezes os diálogos perdem-se em momentos-chave. A reiteração no tema de Contagem também pode ser flexibilizada: quem sabe novos caminhos apareçam para os diretores, colocando-os na diáspora de serem universais fora da zona de conforto. Selma pode muito bem ter pegado o carro, disparado na noite escura até que, em uma profundeza maior que não vimos, deu as mãos à Carmen (a Santos), em um novo ciclo que ainda sequer nasceu. Porque tudo ainda é invenção nessa vida.



ANDREA ORMOND é curadora e crítica de cinema. Autora da trilogia de livros Ensaios de Cinema Brasileiro – Dos Filmes Silenciosos ao Século XXI.

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Outros comentários
    4934
  • Dermeval Netto
    01.10.2019 às 17:37

    Belíssima crítica, parabenizo pelo olhar delicado e pela escritura. Vou ver o filme, estimulado pela crítica, quem sabe tb escreverei sobre. Sou crítico, ensaísta e professor de cinema e de jornalismo. Público no meu blog dermevalnetto.blogdpot.com e na minha página do facebook café&cinema com Dermeval Netto.. Abraço.