Críticas


CORINGA

De: TODD PHILLIPS
Com: JOAQUIN PHOENIX, ROBERT DE NIRO, FRANCES CONROY
03.10.2019
Por Luiz Fernando Gallego
Não é possível imaginar o filme sem o desempenho fenomenal de Joaquin Phoenix.

Numa Gothan City infestada por ratos (a Nova York decadente dos anos 1970 – ou outra cidade de hoje em dia ou de um futuro próximo) reinventa-se a história prévia do Coringa, vilão que vai se tornar arqui-inimigo do Batman em tantos filmes e encarnações, sendo as mais famosas até agora as de Jack Nicholson em 1989 e Heath Ledger em 2008. Com Joaquin Phoenix surge uma versão em que ele aparece inicialmente como vítima antes de assumir sua vilania.

A assinatura do filme surpreende por ser de um diretor mais identificado por suas comédias (Se beber, não case), também co-autor do roteiro com ares distópicos. Mas é daqueles filmes em que o ator central (Phoenix) merece ser considerado como outro co-autor: sua criação é antológica, não sendo possível imaginar o mesmo filme sem seu desempenho fenomenal. Não é novidade que se trata de um intérprete excepcional: filmes como Ela, O Mestre, Era uma vez em Nova York, Amantes, Johnny e June - dentre outros - já comprovaram isso. Mesmo assim, esta nova interpretação poderá surpreender até os mais entusiasmados fãs que o consideravam inexcedível até então. Trabalhando no limite do patético, a um passo de descambar no ridículo, Phoenix é capaz de andar (e dançar e sapatear) na corda bamba ao transmitir a vivência de humilhação do personagem, seu ressentimento, o caminho para a indiferença pela alteridade com o ódio do mais frio psicopata.

A compreensão pelo percurso do personagem rumo aos atos mais ensandecidos jamais surge como uma “justificativa” (como já se quis acusar o enredo). Por outro lado, a situação de abandono dos mais necessitados por uma sociedade que não atende suas necessidades mínimas aparece como barril de pólvora prestes a explodir. Um candidato a prefeito chama a população de “palhaços”, provocando uma reação caótica por parte dos ressentidos com as desigualdades. Neste sentido, o filme se mostra mais atual do que apenas referido à década de 1970.

Referências óbvias a Taxi Driver e a O Rei da Comédia, ambos de Scorsese, ficam acentuadas pela presença de Robert De Niro no elenco. E a trilha musical, além de trazer standards conhecidos do cancioneiro norte-americano usados com ironia, tem colaboração da compositora recém-premiada pela trilha da série de TV Chernobyl, Hildur Guðnadóttir, também premiada em Veneza - onde o filme arrebatou o Leão de Ouro de modo inesperado.

Alguns senões: o roteiro força a presença do personagem de Phoenix num programa ao vivo de TV; e esta cena surge como um dos três ou quatro “finais” que parecem encerrar o filme sem que se chegue de fato ao desfecho. Nada que prejudique muito suas muitas qualidades.

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Outros comentários
    4935
  • Douglas Pizza
    07.10.2019 às 19:52

    Grande Gallego.
  • 4936
  • Concy Pinto
    11.10.2019 às 14:01

    Pensei o mesmo. Muito atual. Tão atual que dá medo.
  • 4937
  • nanci
    12.10.2019 às 19:16

    ATENÇÃO: SPOILER! Arthur ( Coringa) vai em busca da sua historia apos abrir uma carta da mãe. Se a versão da mãe é real (apos a morte da mãe, Arthur encontra uma foto dela com dedicatoria amorosa de W.H) Arthur e Bruce ( futuro Batman) seriam meio-irmãos. Ha logico, uma outra versao “oficial” dada pelo poderoso politico pai do Batman. E nisso ofilme é tb atual ao insinuar a manipulação de registros ( fake) ja que o poderoso Politico poderia ter “pago” para que os psiquiatras dessem um diagnostico desqualificando a versao da mãe rotulando-a de paranoica e a.busiva. Qual seja a verdadeira historia da infancia do Coringa, a construção de Joaquim Phoenix do personagem pisoteado pela vida é primorosa, contundente, poderosa e original. Filme que abala e faz pensar. Pungente!
  • 4941
  • Felipe Borges
    17.10.2019 às 20:28

    Após assistir o filme, tive a sensação de uma dose muito cavalar de J. Phoenix em cena e acho que isso acaba até prejudicando levemente o “todo”. Mas ao mesmo tempo não sei se iria preferir que fosse diferente...rs! É um prazer incabível ser telespectador dessa orgia de atuação que Phoenix nos proporcionou!