Críticas


A VIDA INVISÍVEL

De: KARIM AINOUZ
Com: CAROL DUARTE, JULIA STOCKLER, GREGÓRIO DUVIVIER, FERNANDA MONTENEGRO.
20.11.2019
Por Luiz Fernando Gallego
É plausível o enredo sobre o sofrimento feminino causado por machismo e preconceito nos anos 1950, mas o fraco roteiro melodramático cai na platitude "um por um"

Em alguns filmes de Karim Ainouz, como Abismo Prateado, o roteiro fica aquém das qualidades de direção. Ao trabalhar com mais dois roteiristas a partir do elogiado livro de Martha Batalha, “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”, era de se esperar que houvesse uma boa história para melhor servir ao talento cinematográfico do diretor. Entretanto, do romance original, Ainouz  e seus co-roteiristas, Murilo Hauser (estreante em longa-metragem) e Inés Bortagaray (de alguns filmes argentinos), extraíram o que havia de melodramático referente à personagem Guida, irmã da Eurídice que dá título ao livro, acentuando a carga de melodrama - que também vai se estender a Eurídice, cuja vida é narrada, no livro, com mais humor e ironia, ainda que sem deixar de lado a situação de intenso aprisionamento feminino abusivo, tão comum em décadas passadas, num casamento coercitivo. Sofrendo maiores preconceitos há a  situação de “mãe solteira” que acontece com Guida. Só que no romance a escritora pisca o olho para o leitor ao mencionar que uma narrativa sobre trechos da vida de Guida (tal como estava sendo escutada por trás da porta por uma empregada doméstica) seria "melhor do que uma novela de rádio”, no sentido de que na época (anos 1950) novela boa era novela com dramalhão; já no filme, a semelhança com os dramalhões das antigas novelas é muito mais enfatizado.

Cabe ressaltar que todas as desgraças reservadas às duas irmãs do filme chegam a ser bastante plausíveis, tal a destrutividade do machismo e dos preconceitos moralistas que atingiam as mulheres; e neste aspecto, o roteiro filmado pode até servir como retrospecto do que podia ser a vida de mulheres com ambições de independência e autonomia num patamar mais elevado do que aqueles anos (e décadas anteriores) toleravam. A questão é como uma história melodramática pode ser encenada: dos melodramas clássicos hollywoodianos até as reinvenções de Fassbinder e Almodóvar há todo um espectro de filmes bem sucedidos - o que raramente acontecia em congêneres latinos. Mas o que fica mais anódino é um melodrama contemporâneo que patina numa espécie de limbo emocional a partir de um roteiro tão insatisfatório - independentemente de trair o que o livro é ao travestir a invisibilidade de uma força feminina esmagada por fatores externos em derrotas e desgraças infindáveis.

A opção pelo difícil gênero do melodrama não foi adequada ao cineasta: ele parece procurar manter certo grau de distanciamento (que funcionou bem em O Céu de Suely e Praia do Futuro), mas o que bate na tela acaba soando como uma representação “em um por um” de situações que podem até soar plausíveis para a realidade daqueles tempos, mas não conseguem atingir um dimensionamento ficcional mais criativo (que existe no livro) e não provocam uma comoção verossímil.

Há algumas poucas passagens que se destacam visualmente tal como um plano-sequência que toma como eixo um aquário que separa dois espaços de um restaurante, mas nada suficiente para emocionar o espectador - e que pode frustrar ainda mais os que leram o romance, na verdade desperdiçado, já que tantas passagens e desenvolvimentos do livro foram trocados por outros acontecimentos bem menos interessantes, pesando a mão no libelo contra o que podiam sofrer as mulheres nos anos 1950 dentro da estrutura pequeno-burguesa tacanha e moralista.

No filme, a vida que fica mais "invisível" para sua irmã é a de Guida, numa escolha bem diversa do material que deu origem ao roteiro - o que é um direito de qualquer adaptação -, mas o resultado incomoda mais ainda por ter ficado tão distante da origem literária tão bem realizada. Mesmo que visto à parte, do ponto de vista estritamente cinematográfico, o que bate na tela é muitas vezes bem canhestro.

O recurso excessivo da voice-over das cartas de Guida que parece existir mais para pontuar a passagem de cada ano que passa - e preparar para um pretenso clímax emocional do desfecho (que não passa de uma "reviravolta"-clichê) é apenas um dos exemplos de como a narrativa fílmica ficou tão aquém do que se podia esperar do diretor neste ponto de sua carreira.

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Outros comentários
    4954
  • Carmen Lícia Palazzo
    14.12.2019 às 23:05

    Excelente crítica, vi o filme hoje e tive a sensação de um melodrama que não me emocionou, apesar de ter entendido perfeitamente o aspecto da denúncia do machismo.