Críticas


ULTIMO REI DA ESCÓCIA, O

De: KEVIN MACDONALD
Com: FOREST WHITAKER, JAMES MCAVOY
15.02.2007
Por Nelson Hoineff
FICÇÃO E REALIDADE

Em 1974, o francês (nascido no Irã) Barbet Schroeder já havia ganhado notoriedade como produtor de alguns dos contos morais de Rohmer (O Joelho de Claire, Amor à Tarde) quando conseguiu do governo de Uganda a permissão para fazer um documentário sobre Idi Amin Dada, que dominava o país com singular truculência. A permissão, é claro, limitava-se ao que o general gostaria que fosse visto. Schroeder tomou então a providência de convidar o próprio Idi Amin para dirigir o filme – e, ao nome do ditador, acrescentou o subtítulo: “auto-retrato”.



O auto-retrato de Idi Amin (fotografado por Nestor Almendros, uma grande herança de Rohmer) tornou-se o melhor documento existente sobre seu regime; e solidificou um modelo de documentário em que a abordagem do tema pelo diretor vincula-se à liberdade que ele concede ao seu objeto.



O certo é que nenhum diretor contribuiu mais para a compreensão do fenômeno Idi Amin do que o próprio Idi Amin. No seu auto-retrato, ele informa que seqüestradores de avião seriam muito bem recebidos em Uganda – isso dois anos antes de Entebbe. Ameaça um de seus oficiais - que meses depois apareceria morto. Fala com crocodilos e se espanta quando eles não respondem; afirma que os nazistas deveriam ter matado mais judeus; e é saudado pelo povo em sequências que são (como Schroeder tem o cuidado de informar à platéia) meticulosamente encenadas.



Não há ficção capaz de reproduzir tal coisa. Não é de se estranhar, portanto, que, pelo menos à luz do auto-retrato de Idi Amin, um filme como O Ultimo Rei da Escócia soe tão pueril.



Crocodilos de verdade fazem uma escada bem melhor do que um inocente médico louro de olhos azuis para se chegar a um personagem assim. Talvez fosse de outra maneira se o personagem não fosse o mesmo. Alguns tiranos são igualmente histriônicos. Mas Idi Amin dá forma teatral única ao seu comportamento. É uma imbativel paródia de si mesmo.



Forest Whitaker (que seguramente viu muitas vezes o auto-retrato de Idi Amin) reproduz com acuidade este lado performático do ex-campeão de boxe que, no comando da nação, matou 300 mil compatriotas. Seu antecessor, Milton Obote, pode ter matado o dobro disso, o que não apenas realça a tragédia do país africano como torna plausível a admiração inicial de um jovem médico escocês, mulherengo e despolitizado, pelo líder que se instala no país. A ingenuidade do personagem vivido por James McAvoy sugere, no entanto, que ou Giles Foldan, que escreveu a novela, ou Kevin Macdonald, que dirigiu o filme, estejam dando uma mãozinha para transformar o ditador de Uganda num bandido sanguinário.



Disso Amin não precisava, como fica claro no documentário que dirigiu. Com um eixo dramático bastante óbvio, Macdonald cria seqüências impactantes que compõem um bom filme. Mas, quando se trata do general Idi Amin Dada, nada que se crie pode ser maior do que a realidade.





O ÚLTIMO REI DA ESCÓCIA (THE LAST KING OF SCOTLAND)

Inglaterra, 2006

Direção: KEVIN MACDONALD

Roteiro: PETER MORGAN e JEREMY BROCK, baseado na novela de Giles Foden

Fotografia: ANTHONY DOD MANTLE

Montagem: JUSTINE WRIGHT

Música: ALEX REFFES

Elenco: FOREST WHITAKER, JAMES MCAVOY, KERRY WASHINGTON, GILLIAN ANDERSON

Duração: 121 minutos

Site oficial: clique aqui



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