Críticas


RAINHA, A

De: STEPHEN FREARS
Com: HELEN MIRREN, MICHAEL SHEEN, JAMES CROMWELL, SYLVIA SYMS
15.02.2007
Por Jaime Biaggio
DISCRETAMENTE SURPREENDENTE

O trabalho de Helen Mirren como Elizabeth II em A Rainha, a atuação que, salvo mudança repentina na ordem mundial, vai ganhar o Oscar de melhor atriz dia 25 de fevereiro, é de fato muito bom. Mas o que o torna mais notável é o palco inusitado que o diretor Stephen Frears e o roteirista Peter Morgan lhe armaram: A Rainha, o filme. Que está acima do meramente “muito bom”. É forte, vibrante, chega a ser surpreendente. Chega a ser melhor do que o ótimo Os Infiltrados, de Martin Scorsese. Chega a merecer o Oscar de melhor filme.



Frears e Morgan se arriscaram aqui. Não exatamente no formato narrativo, que é baseado em texto e atores, informação verbal e nuances interpretativas que a façam passar algo mais do que o que é dito. Mas sim na estrutura da trama, na ação, ou melhor, na não-ação. Porque A Rainha, quase todo passado ao longo de uma semana, aquela entre a morte da princesa Diana, em Paris (31 de agosto de 1997), e seu funeral, em Londres (6 de setembro), é um filme sobre Elizabeth II tomando uma primeira decisão sobre como reagir à tragédia e depois revendo-a. Sobre alguém que não está acostumada a ser pressionada tendo que lidar com eventos em que não pode seguir nem o seu ritmo natural nem o seu curso de pensamento habitual. Um filme sobre uma mulher pensando, e logo depois pensando melhor. E, eis a surpresa, um filme ágil, que, em matéria de tensão e adrenalina, fica apenas alguns graus abaixo do típico formato do thriller político.



Até porque o filme utiliza recursos do gênero, em especial as imagens documentais, extraídas dos noticiários televisivos. Utiliza-as não para pontuar certas passagens, mas como lastro dramático mesmo. Na maior parte, inclusive, não se trata de imagens de TV reproduzidas na telinha de uma TV a que os personagens assistem. Não, elas ocupam toda a tela do cinema, inseridas que estão na dramaturgia do filme, cenas que ele pega emprestadas da vida real. Diana, em particular, no que pese o carisma que tinha, ultrapassa e muito o papel de imagem-fetiche: é quase um personagem de A Rainha, ainda que surja na tela só em imagens de arquivo, pouco definidas, fugazes e, em 90% do tempo, sem falar. Já seria naturalmente, por força das contingências, uma ausência sempre presente, como, por exemplo, o coronel Kurtz nos primeiros dois terços de Apocalypse Now ou, numa comparação mais próxima, a Rebecca do filme de Hitchcock: alguém que, do lado de fora, sem precisar agir, apenas com o peso de sua aura, determina o rumo da trama. Mas graças ao uso que o filme faz de sua imagem, vira uma presença mesmo, uma rival que, agindo diretamente do passado, acua e amedronta a rainha no presente. Num certo sentido, A Rainha não deixa de ser uma poderosa história de fantasma.



Na superfície, contudo, a trilha do filme é um admirável misto de intriga palaciana com drama psicológico. O primeiro ângulo, em função dos atos de todos, do jogo em que duas esferas de poder da Inglaterra, o governo e a monarquia, interagem e reagem uma à outra, e a uma terceira, que é quem, na verdade, dá as cartas: a opinião pública, mediada pela imprensa. Este é, talvez, o grande achado dramático do filme: ele inverte um argumento-padrão do cinema de suspense, aquele em que gente comum come o pão que o diabo amassou numa intriga comandada dos bastidores pela entidade sombria chamada “os poderosos”. Pois A Rainha se passa todo nos chamados corredores do poder da Grã-Bretanha, em Buckingham, Downing Street, no refúgio da Família Real na Escócia, e no entanto, aqui, o poder de fato emana do povo, pois só o que as cabeças real e metaforicamente coroadas fazem é tentar entender a voz das ruas e estar em harmonia com ela. Mesmo o primeiro-ministro Tony Blair (Michael Sheen, discreto e ótimo), que, na semana em questão, sai por cima, com a popularidade em alta, está sempre ciente que não tem a faculdade de manter a situação sempre assim. E a própria rainha o lembra disso, numa boa cena ao fim do filme, ao profetizar que o martírio da opinião pública, que se abateu sobre ela ali, ainda iria atingi-lo em algum momento. Dito e feito.



O ângulo de drama psicológico, este já pertence apenas a Elizabeth II/Helen Mirren. Seja nas várias tomadas de reação, os closes que a mostram atendendo o telefone, reagindo às sugestões de seus assessores ou do primeiro-ministro, seja na porção do filme em que o contato com um cervo faz aflorar suas emoções, A Rainha se recolhe em vários momentos para a concha de sua personagem-título. Contudo, o faz sem perder o ritmo, expondo o estado emocional da rainha a partir de pequenas ações, como escolher dirigir o próprio carro, ou saltar daquele em que conversava com Charles para voltar caminhando para o castelo. Mais um aspecto em que o filme é feliz revertendo expectativas: Elizabeth II, uma figura a que estamos acostumados a ver em total imobilidade, quase um fantoche vivo da instituição que encabeça, ícone da inação, é quem mais “faz coisas” em cena, quem mais caminha, quem mais tenta viver a própria vida, se comportar pura e simplesmente como uma pessoa.



A Rainha, como o cinema do inglês Stephen Frears de forma geral, desde lá atrás, desde os anos 80, desde o ótimo The Hit, não busca a inovação, a guinada estética de alto impacto. Impõe sua personalidade de forma sutil, nos detalhes. Aqui, Frears acha em Peter Morgan um colaborador que parece funcionar na mesma freqüência de onda, ainda que os raríssimos momentos com um quê de artificial venham mais do texto que da direção. Não importa: no geral, o texto é fluido, soa natural até quando tem natureza expositiva, quando está ali para adicionar informações à trama. E os atores o valorizam, numa atuação coletiva que justificaria aquele prêmio de melhor elenco que o Screen Actors Guild americano dá todos os anos, numa forma disfarçada de laurear o melhor filme. Há momentos impagáveis da parte de quase todos os coadjuvantes, com destaque para James Cromwell, o alívio cômico do filme com sua composição rabugenta do príncipe Philip. Não é apenas um filme respeitável, sério, denso: A Rainha é também uma delícia.



# A RAINHA (The Queen)

EUA, 2006

Direção: STEPHEN FREARS

Roteiro: PETER MORGAN

Fotografia: AFFONSO BEATO

Direção de Arte: ALAN McDONALD

Edição: LUCIA ZUCCHETTI

Música: ALEXANDRE DESPLAT

Figurino: CONSOLATA BOYLE

Elenco: HELEN MIRREN, MICHAEL SHEEN, JAMES CROMWELL, SYLVIA SYMS, ALEX JENNINGS, HELEN McCRORY, ROGER ALLAM

Duração: 97 minutos

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