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LARA

05.11.2019
Por Maria Caú
Em meio à excepcional programação da Mostra de Cinema de São Paulo, uma joia semiescondida

Alguns dos destaques da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorreu entre os dias 17 e 30 de outubro, já estavam anunciados pela crítica internacional e acabaram sublinhados mais uma vez pelo júri. Filmes como System Crasher, Parasita e Honeyland, todos espetaculares, foram merecidamente premiados. Festivais como esse, no entanto, sempre escondem pérolas: obras menos comentadas, em geral com uma dimensão mais comedida e afeita às investigações psicológicas, de impacto menos estrondoso, ainda que certeiro. Um dos trabalhos mais divertidos da crítica é tentar encontrar essas joias.

Assim, se System Crasher e Parasita agarram o espectador pelos cabelos, Lara o leva pelas mãos com um leve toque, uma certa pressão no pulso que indica o caminho e esconde a ligeira aceleração dos batimentos cardíacos.A premissa é enganosamente simples: a solitária Lara está fazendo 60 anos, seu filho Victor vai apresentar um grande concerto de piano, sua estreia pública como compositor. Movida por um impulso e uma pequena depressão, ela decide comprar uma quantidade grande de ingressos para presentear os amigos que não tem. Assim, perambula pelas ruas, visitando colegas do antigo trabalho, um ex-professor de piano, familiares, distribuindo ingressos e retomando relações sempre ambíguas, moldadas por sua personalidade misantropa, egoísta e ressentida. Ao mesmo tempo, tenta descobrir os planos do filho para o concerto: a relação de amor e rancor que os une é a um só tempo a raiz da genialidade de Victor ao piano e de sua profunda insegurança, e tem por lastro a mal disfarçada frustração de Lara com suas próprias escolhas.

Tudo se passa em apenas um dia. No cinema, narrativas que transcorrem em um curto período de tempo (em geral, espelhando a duração aproximada de um dia) têm o desafio de relevar organicamente a complexidade das relações que se esconde em gestos e trocas cotidianos, mostrando os ecos da passagem do tempo sem a alternativa de pormenorizá-los e revelando com sutileza a amplitude de sentimentos e a bagagem individual pressentida em cada interação. É uma tarefa difícil. A maneira mais fácil de realizá-la é escolher retratar um dia em que algo extremo e incomum ocorre, pois isso permite uma maior exposição dos conflitos antes dormentes. Um dia de cão (Sidney Lumet) e Depois de horas (Scorsese) escolhem esse caminho e o fazem com segurança e inteligência em dois gêneros muito distintos.

Mais difícil é revelar a densidade do cotidiano sintetizada num único dia aparentemente comum, percurso que pode produzir obras do quilate de Um dia (Zsófia Szilágyi), Curtindo a vida adoidado (John Hughes) e Antes do amanhecer (Richard Linklater). É nesse grupo que Lara toma lugar, firmemente apoiado no brilhantismo de sua protagonista (Corinna Harfouch), num roteiro impecável e numa fotografia precisa, que disseca o permanente descompasso de Lara com a metrópole, seu desconforto intrínseco com o seu lugar no mundo. As cenas que mostram Lara esperando no saguão do teatro remetem à solidão inescapável das personagens de Edward Hopper. A direção do alemão Jan-Ole Gerster orquestra todos esses instrumentos com enorme talento.

O desfecho surpreendente causa no espectador uma reação extrema, digna de uma grande revelação de um belo filme de mistério, mas o faz através do desvelamento de uma faceta da alma da personagem, materializada em um objeto-chave que permeia toda a projeção. Assemelha-se ao parágrafo final de um grande romance, quando têm-se a um só tempo o assombro e a sensação de que aquela história não poderia ter sido concluída de nenhuma outra forma.

De tempos em tempos, surgem filmes que reestabelecem a fé dos críticos de cinema mais alquebrados não pela originalidade de suas propostas estéticas ou narrativas (aspecto cada vez mais diluído numa contemporaneidade plena de pretensões vazias), mas pela fluência com que dominam as ferramentas tradicionais da narrativa cinematográfica. Lara tem essa leveza de movimentos, como um bailarino que esconde a força empregada num passo de dança: o espectador respira junto com o filme; tudo pressente, num instante reconhece a protagonista em sua evidente (e não óbvia) ambiguidade, em sua relação conflitiva com o mundo que a cerca. A ama e não a suporta, na mesma ambivalência com que ela se ergue no mundo. É um balé magnífico.

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