Críticas


O CINEMA DE JOSEPH LOSEY

19.12.2019
Por Luiz Fernando Gallego
Seis filmes de Losey, todos ótimos, incluindo o raro Fugitivo de Santa Marta, tristemente atual: traz preconceito, fake news e policiais modificando fatos.

No espetacular pacote de cinco caixas de DVDs lançadas em dezembro pela Versátil, uma escolha imprescindível para o cinéfilo é O CINEMA DE JOSEPH LOSEY com quatro filmes do diretor nunca lançados em DVD anteriormente no Brasil: Armadilha a Sangue Frio (1960), da fase inglesa inicial de Losey; A Inglesa Romântica (1975), de quando já era um diretor autoral considerado indispensável; o raríssimo No Limiar da Liberdade (1970); e o não menos raro O Fugitivo de Santa Marta (1950), um dos cinco que ele pôde realizar nos Estados Unidos antes de ser praticamente expulso pela lista negra do McCarthysmo com sua caça às bruxas.

Completando a caixa, duas obras-primas inquestionáveis em novas edições primorosas: O Criado (1963) e Cidadão Klein (1976), com algumas semelhanças estilísticas nas filmagens de interiores onde a câmera se movimenta labirinticamente em cenários claustrofóbicos. O que permite um interessante confronto com No Limiar das Liberdade, todo filmado em exteriores, mas com a mesma competência  na mise-en-scène que o cineasta demonstra de modo até mesmo espetacular - o que é enfatizado  em um dos extras que aborda especificamente este filme de 1970.

Há outro extra, também muito informativo, mais centrado em Armadilha a sangue frio, mas contextualizando a carreira de Losey entre seu primeiro filme, O Menino dos cabelos verdes (1948), passando sobre O Fugitivo de Santa Marta (que também está na caixa) e a fase em que teve que usar pseudônimos para poder trabalhar (na Itália e na Inglaterra), ao todo em três filmes, entre 1952 e 1956.

Falando em O Fugitivo de Santa Marta (The Lawless, título original), não deixa de ser surpreendente para o fã de Losey encontrá-lo, já em seu segundo filme, com pleno domínio da mise-en-scène, utilizando planos-sequência e profundidade de foco, entre outras características formais, numa narrativa de conteúdo social expressivo. É impressionante que este roteiro possa nos parecer tão familiar, infelizmente: há preconceito contra mexicanos e latinos, notícias distorcidas ou mesmo inventadas por jornalistas inescrupulosos (antecedendo as atuais fake news pela internet), policiais perversos modificando as cenas dos crimes para favorecer um extrato social em detrimento de outros, mas humildes e desprestigiados.

Claro que também há as concessões inevitáveis para um filme distribuído por um grande estúdio naquela época (no caso, a Paramount), incluindo um romance entre um jornalista branco desencantado, mas ético, e uma moça de origem latina, também da imprensa e defensora dos trabalhadores de sua mesma etnia, pobres; também não falta um pai rico de playboy, mas com consciência social e generoso (o que pode não ser impossível, embora soe mais como uma forma de não desagradar  à plateia mais identificada com o establishment). Mas nada disso compromete a admiração que esta joia rara pode provocar no espectador.

Autor de 31 filmes, a Versátil já havia lançado separadamente uma das três obras que ele filmou com roteiro de Harold Pinter (“Estranho Acidente”) assim como a curiosa investida de Losey no terreno da ópera (“Don Giovanni”, de Mozart). Em uma das caixas da série Cinema Noir a Versátil já nos deu acesso ao bem dark Cúmplice das Sombras (1951) e numa das caixas da série de Sci-fi, Os Malditos (1962), além de O Rei e o Cidadão (King and Country, 1964) na caixa A Primeira Guerra no Cinema; e M- O Maldito (1951) quando Losey foi contratado para refilmar “M- o Vampiro de Dusseldorf”, de Fritz Lang, em um box especial que reúne os dois filmes.

Em DVDs lançados pela Folha de SP em convênio com a mesma distribuidora tivemos O Assassinato de Trotsky (1972) e Galileu (1975), baseado na peça de Brecht que Losey dirigiu na estreia teatral americana antes de se voltar para o Cinema.

Anteriormente a Lume havia lançado em DVD A Sombra da forca (1957), Eva (1962) e O Mensageiro (The Go-between)que levou a Palma de Ouro em Cannes 1971. E o Instituto Moreira Salles lançou o excelente, ainda que maldito, Cerimônia Secreta (1968) que traz os possivelmente melhores desempenhos de Elizabeth Taylor e Mia Farrow.

Tomara que a Versátil ainda possa nos trazer outros filmes do diretor, alguns inéditos no Brasil até mesmo em salas de cinema. De qualquer modo, esta caixa já é indispensável.

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