Críticas


RETRATO DE UMA JOVEM EM CHAMAS

De: CÉLINE SCIAMMA
Com: NOÉMIE MERLANT, ADÈLE HAENEL, VALERIA GOLINO
13.01.2020
Por João de Oliveira
Um filme sobre o processo criativo pleno de desejo e sensualidade

Celina Sciamma é uma das melhores roteiristas francesas da atualidade e já provou isso em inúmeras ocasiões. Retrato de uma Jovem em Chamas, seu último filme, é mais uma prova de seu talento como roteirista e diretora.

A narrativa é muito simples na aparência. Uma jovem deixa o convento para se preparar para um casamento arranjado por sua mãe, uma condessa. Na falta da fotografia, que ainda estava em fase de desenvolvimento no momento em que se passa a narrativa (1770), uma pintora deve realizar um retrato que será enviado ao futuro marido, um milanês, para que ele tenha uma ideia do que o espera e assegure o matrimônio.

O problema é que, numa espécie de autodefesa, a futura esposa é arredia a essa ideia, já tendo recusado a posar para um pintor no passado. Ela sabe que a concretização de seu retrato marca os preparativos para um casamento que ela não deseja. Sugestão da mãe, a artista deve passar por dama de companhia e aprisionar a imagem da jovem em segredo, sem o conhecimento dela, durante suas sucessivas caminhadas em meio às belas paisagens de uma ilha na Bretanha. A artista tenta, mas não consegue. O retrato, distante do modelo, é inverossímil, parece sem vida, sem alma. É como se a distância entre as duas obstaculizasse o acesso à inspiração. Diante disso a modelo, que já se entristecera com a traição daquela que ela achava que estava se transformando em sua amiga, o recusa. A artista não conseguiu captar a essência da jovem e atribui isso aos encontros fugidios e à distância entre elas.

A modelo pede à artista que faça um outro quadro, aceitando, desta vez, posar para ela. Na ausência da mãe, as duas, com a conivência da jovem empregada, tornam-se mais íntimas e cúmplices. Em oposição à vastidão e à dispersão dos belos exteriores, o interior da casa que abriga a intriga é repleto de formas geométricas de todos os tipos. E é em meio a essas formas que a jovem pousará e será imortalizada pela pintora.

O Retrato de uma Jovem em Chamas é, como mostra seu início, o final; e os diversos estudos em que vemos uma mão desenhar na tela, um filme sobre o ato criativo, sobre a melhor maneira de apreender o objeto artístico, de se relacionar com a inspiração, de traduzir em arte o produto de um olhar acurado, revelador. E neste sentido, aborda também a relação entre o artista e sua musa. Nesse sentido, além de descrever o relacionamento entre a diretora, Céline Sciamma, e sua atriz, Adèle Haenel, a obra, plena de lirismo, sensualidade e desejo, lembra, sem as mesmas conotações morais, o mito de Pigmalião e Galateia, da paixão do artista por sua obra. Se, na mitologia, Galateia, a escultura, ganha vida pelos poderes de Afrodite, neste filme, a jovem musa ganha vida através do envolvimento com a sua pintora. Ela vai se tornando progressivamente mais loquaz, mais vivaz, mais sorridente, abandonando o seu ensimesmamento, a sua sisudez e altivez aristocráticas para se abrir para um mundo do qual ela parecia alheia e permitir que a artista capte a sua verdadeira personalidade.

Apesar do forte sentimento que nasce entre as duas, o término do quadro significa o fim do relacionamento entre elas. A concretização da obra é como o olhar mortal de Orfeu para Eurídice no Reino dos Mortos,  que, na visão da narrativa, mata o seu amor para preservar as lembranças, agindo como poeta e artista, não como marido. A propósito, no momento em que a pintora está partindo, a jovem pede para que ela olhe para trás uma última vez, não para matar o amor, mas para preservar a memória.

E lembranças é o que não falta entre as duas. Após a separação, a pintora revê aquela que ela parece nunca ter esquecido em duas ocasiões. Num salão de pinturas, no qual ela apresenta um quadro sobre o mito de Orfeu, que denotaria a perpetuação das lembranças dos momentos vividos entre as duas, ela descobre um quadro com um retrato da jovem com sua filha. Neste último, vemos a jovem indicar o número da página de um livro no qual a pintora lhe desenhara um autorretrato. Numa outra ocasião, a pintora a revê, à distância, num teatro, assistindo um concerto clássico, debulhando-se em lágrimas. Na realidade, a música que ela escuta lhe fora apresentada e sumariamente executada pela pintora, que ela também não conseguiu esquecer. Alias, a própria escolha do flashback para a narrar a história é uma valorização da memória e do passado.

A direção optou por construir cenas extremamente pictóricas em termos de composição, enquadramento e iluminação. Alguns planos parecem saídos diretamente de alguns quadros. Tudo isso funciona muito bem esteticamente, ainda que torne o filme, em alguns momentos, extremamente clássico. A fotografia de Claire Matton é belíssima e constitui, junto com os excelentes diálogos, um dos pontos fortes do filme. Adèle Haenel, como Heloise, e Noémie Merlant, como Marianne, estão muito bem.

Retrato de uma Jovem em Chamas é uma ode ao seis anos que diretora e atriz viveram juntas.  Trata-se de uma bela declaração de amor da diretora à sua ex-companheira, que é magnificada nesse belo filme, onde os homens primam pela ausência, sendo meras alusões ameaçadoras.

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