Críticas


Ó, PAI, Ó

De: MONIQUE GARDENBERG
Com: LAZARO RAMOS, STENIO GARCIA, DIRA PAES, WAGNER MOURA
05.04.2007
Por Nelson Hoineff
É TUDO MENTIRA

Todo produto que pode ser fabricado destina-se a algum consumidor. Por isso é comercial. O produto cinematográfico não é diferente. É feito para que seja visto e do ponto de vista comercial o que distingue é o tipo de audiência que ele tem em vista - e a forma que utiliza para chegar a esse público.



Em muitos casos o produto se adequa ao desejo deste público – ou ao que se supõe que seja esse desejo. Nos casos mais grosseiros, o produto se sujeita a esse pressuposto. Torna-se subserviente não a algo concreto, mas a uma hipótese. Quando a hipótese não é verdadeira, ou o produto não é capaz de ser construído de tal forma que proposta seja atendida, tem-se frequentemente um frankenstein cultural.



Nos anos 70, as pornochanchadas se fundamentavam no pressuposto de que era esse o tipo de filme que o povo queria. O país vivia sob a censura do regime militar e a produção cinematográfica era bancada diretamente pelo Estado. Fazer do cinema um artefato banal para o mercado era algo tão ingênuo quanto os filmes que eram construídos sob essa ótica. Mas defensável, pela excepcionalidade do modelo de produção.



Esses modelos são hoje ligeiramente mais diversificados. A má notícia é que não se tornaram mais sofisticados. Frágeis pressupostos sobre a comercialização do produto deixaram de ser construídos nas mesas de fórmica de repartições públicas e são agora formulados em atraentes escritórios que aparentam solidez, como a ante-sala de bancos falidos. O que se vai perceber é que a única coisa que mudou é o preço dos almoços. Asneiras sobre o valor mercadológico do produto são destiladas com igual leviandade.



Ó Pai Ó é um bom case study. O filme é construído de tal maneira que não há nele um só frame que exprima alguma relação verdadeira entre o autor que supõe-se existir e seu objeto. Através do filme, pode-se ler, quase a cada plano, os diálogos entre o que deveria ser o autor e os co-produtores. “Aqui vamos colocar um solo musical”. “Neste ponto, desaparece a criança”. “Joga Caetano aqui”. “Agora, um clipe da banda”. Não tem como errar.



É claro que tem, porque o primeiro erro está na criação de condições para o estabelecimento de uma relação tão promiscua entre o diretor e a produção, da sustentação de formas tão primárias de achismo na concepção de um produto que na sua essência tem grande complexidade. Mas que, concebido nesse nivel, ainda que tenha suporte em película, pode ser tudo menos cinematográfico.



Convém não esquecer como se formaram os produtores num modelo que antes todo intelectual rechaçava mas agora tenta perseguir. Em 1915, um garoto de 13 anos foi abandonado em Nebraska pelos pais – um pastor alcoólatra e uma prostituta. Menos de 12 anos depois, ele estava introduzindo o som no cinema. Aos 25, desenvolveu projetos como O Cantor de Jazz. Sete anos depois, estava à frente da combinação de uma produtora em expansão (Twentieth Century) com outra falida (Fox). Não tinha ainda chegado aos 35 quando fez filmes como Como Era Verde o Meu Vale ou Vinhas da Ira. Nas próximas cinco décadas, produziu mais de 200 títulos. Ganhou fama de fumar charutos gigantescos (o que era verdade), de comer toda mulher que se aproximasse (fazia isso todos os dias na Fox, entre 4 e 4:30 da tarde) e de ser grosseiro. Mas conhecia o cinema, o público e a relação que existe entre ambos. Saia das conversas com Ford dizendo: “Não há razão para que não sejamos sempre criativos”.



Podemos simplesmente reconhecer que cada país tem o Zanuck que merece e passar os dias nos abanando com um velho DVD de As Neves de Kilimanjaro. Mesmo que isso aconteça, convém que fique claro que filmes podem ser tratados como produtos, mas quando se está falando de espectadores, tratá-los como produtos é desconhecer primariamente o negócio em que se está envolvido.



Hollywood – que é o modelo que se diz perseguir – é a prova viva de que o público não é estúpido. E no entanto essa é a premissa sobre a qual se ampara a produção de um filme como Ó Pai Ó (e muitos outros cuja lista encheria de tédio e más recordações o leitor). Tal coisa não é mais do que uma digressão sobre como os diretores de idéias pouco seguras tutelados por produtores fascinados pelas possibilidades oferecidas pelo artigo 3º acreditam que um filme deva ser montado. Uma pitada de sexo aqui, a música óbvia ali, um mix de minorias batidas no liquidificador do politicamente correto.



As cores, os ritmos, os amores, os conflitos, o ambiente. Tudo ali é tão verdadeiro e profundo quanto o Big Brother Brasil. E no entanto, meu caro leitor, o mundo (a começar pelo Pelourinho) é bem mais belo, mais complexo, mais nobre que o Big Brother Brasil.



Além disso, Zanuck nunca perdeu dinheiro. E almoçava bem melhor do que os inconsequentes que, no Brasil, inventam fórmulas para dizer como um filme deveria ser. Ainda bem que eles não estão na industria farmacêutica.



# Ó, PAÍ, Ó

Brasil, 2007

Direção e Roteiro: MONIQUE GARDENBERG

Produção: AUGUSTO CASÉ, SARA SILVEIRA E PAULA LAVIGNE

Elenco: LAZARO RAMOS, STENIO GARCIA, DIRA PAES, WAGNER MOURA, EMANUELLE ARAUJO

Música: Caetano Veloso e Davi Moraes

Duração: 96 min.

site: www.opaio.com.br

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