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M.A.S.H.

05.07.2002
Por Ricardo Cota
FAÇA HUMOR NÃO FAÇA A GUERRA

Existem filmes que nascem sob o estigma do fracasso. Alguns correspondem, outros não. M.A.S.H., por exemplo, tinha tudo para dar errado. Baseado num romance que ninguém leu, dirigido por um diretor até então inexpressivo e com um orçamento de fazer corar o mais independente dos realizadores, este longa-metragem atípico abriu a década de 70 fundindo a cuca da crítica e do público. Virou clássico. Mais do que isso: virou seriado de tevê, cujos 250 episódios permaneceram no ar por dez anos acumulando um caminhão de prêmios. Trinta e dois anos depois, é hora de rever M.A.S.H., lançado em edição de luxo da Fox com dois DVDs reunindo quatro documentários, trailer, comentários do diretor e fotos de still. Programa obrigatório.



A vitalidade de M.A.S.H. (abreviatura de Mobile Army Surgical Hospital) reflete o espírito de um tempo em que hippies queimavam cartas de convocação em praça pública, a contracultura revirava os ícones da América e a marginalidade assumia condição heróica. A história dos cirurgiões que servem num posto militar na Coréia é pretexto para uma crítica aguda ao poder, à hierarquia dos campos de guerra e às convenções religiosas e sexuais. O choque de informações se estabelece desde o início, quando soldados feridos são mostrados ao som da melosa canção “Suicide is painless” (“suicido é indolor”) e prossegue no humor negro de Donald Sutherland e Elliott Gould nas ensangüentadas mesas de operação.



Muito antes de a correção política minar os arroubos de criatividade, M.A.S.H. já fazia troça multicultural. O que dizer de um personagem, anglo-americano típico, que ao ser desbancado por um oficial negro retruca: “racista”? Ou ainda como se comportar com correção diante das constantes humilhações sofridas pela oficial boazuda maliciosamente apelidada pelo pelotão de Hot Lips (Lábios Quentes)? Pura molecagem.



Até cair nas mãos de Robert Altman, o roteiro de M.A.S.H. foi recusado por uma dúzia de diretores que sentiram cheiro de roubada. M.A.S.H. foi a oportunidade para Altman exibir sua incomparável habilidade em lidar com inúmeros personagens, conduzir tramas episódicas, refinar o humor pastelão e acima de tudo fazer de um microcosmo uma referência universal. Quem viu Assassinato em Gosford Park sabe bem do que estou falando. Vencedor do Oscar de Melhor Roteiro e da Palma de Ouro em Cannes, M.A.S.H. é um exemplo do cinema americano possível, capaz de driblar as convenções comerciais, afirmando-se nas entrelinhas. É bom saber que Altman, um libertário por excelência, continua sendo a referência de nove entre dez diretores independentes e que M.A.S.H. continua sendo uma resposta humorada ao horror da guerra. Aliás, de todas as guerras.



#M.A.S.H.



Direção: ROBERT ALTMAN

Roteiro: RING LARDNER JR.

Fotografia: HAROLD E. STINE

Elenco: DONALD SUTHERLAND, ELLIOT GOULD, ROBERT DUVALL, TOM SKERRITT, SALLY KELLERMAN

País/Ano de produção: EUA, 1970

Duração: 116 minutos

Região do DVD: 4

Legenda: Inglês, Espanhol, Português

Som: Dolby Digital 2.0

Formato de Tela: Widescreen

Extras: Seleção de Cena / Menu Interativo / Trailer de Cinema / Comentário em Áudio do Diretor/ Documentários/ Fotos

Distribuidor: Fox Video do Brasil

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