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PANORAMA DO CINEMA BRASILEIRO

02.08.2002
Por Carlos Alberto Mattos
OS PRIMEIROS 70 ANOS

O documentário Panorama do Cinema Brasileiro, de Jurandyr Passos Noronha, que chega agora em DVD da Funarte, faz uma ponte instrutiva entre os pioneiros do início do século e os revolucionários dos anos 1960. É possível perceber, na sucessão de cenas que vão de Exemplo Regenerador (1919) a O Padre e a Moça (1966), um largo movimento no rumo da busca de identidade e de modernidade. Realizada em 1968, essa antologia de cenas célebres reconstrói uma história de invenções estéticas, buscas de caminhos e conquistas técnicas que marcaram os primeiros 70 anos da cinematografia nacional.



Trata-se de um filme oficial, sem dúvida. Foi produzido pelo Instituto Nacional do Cinema (órgão que antecedeu a Embrafilme), numa época em que as regras eram ditadas pelo regime militar. Mas não possui qualquer ranço de oficialidade, seja na seleção de cenas, seja no texto narrado por Milton Valério. Hoje, presta-se a corrigir a miopia de quem pensa que a modernidade só deu entrada no cinema brasileiro à época do Cinema Novo. Por essa ótica, tudo o que foi feito antes cairia numa genérica classificação de “pioneiros” ou de mera imitação do cinema hegemônico americano ou europeu.



Jurandyr Noronha mostra como isso era apenas uma meia-verdade. O cineasta e pesquisador, hoje com 85 anos, tem um dos currículos mais ricos do cinema brasileiro. Jornalista, chegou ao cinema pelas mãos de Adhemar Gonzaga, foi cinegrafista do DIP durante o Estado Novo, dirigiu documentários para o Instituto Nacional de Cinema Educativo e ocupou diversos cargos na burocracia do setor. Mas nunca abandonou o contato direto com o material cinematográfico. Ainda nos anos 30, apaixonou-se pela busca ao filme perdido, desde que encontrou, nos porões de uma produtora, o registro do vôo de Santos Dumont no 14 Bis. Os esforços de preservação e restauração de filmes no Brasil, hoje retomados com seriedade por alguns organismos e empresas, têm no trabalho de Noronha um exemplo seminal. Houve um tempo em que ele se dedicava a revirar latas de lixo de distribuidoras à procura de fragmentos preciosos. Um dia, enquanto “inspecionava” a casa do produtor Paulo Benedetti, acabou por descobrir os negativos de Tesouro Perdido, de Humberto Mauro, dados como desaparecidos.



Entre dezenas de curtas e filmes educativos, Noronha realizou três longas-metragens voltados para a recuperação da história do cinema brasileiro. Além deste Panorama, que cobre os filmes de ficção, ele inventariou os documentários em 70 Anos de Brasil (1974) e homenageou os comediantes em Cômicos + Cômicos (1971). Panorama foi o que obteve maior repercussão, com seus 134 minutos de imagens fundadoras.



O cinema mudo ocupa um quarto da metragem. Sobre esse período, o próprio Jurandyr Noronha já ofereceu um levantamento ainda mais completo, no CD-Rom Pioneiros do Cinema Brasileiro. Seu método historiográfico é largamente baseado no desenvolvimento técnico, não fosse ele um amante dos equipamentos. Tanto é que abriga em casa um Museu do Cinema Brasileiro, rico em câmeras e materiais de valor histórico, na esperança de encontrar uma instituição decente que o acolha. No Panorama, Noronha aponta momentos cruciais como a estréia do cinegrafista Edgar Brasil numa cena de Brasa Dormida, de Humberto Mauro, ou a primeira filmagem com retroprojeção feita no país – a paisagem na janela de um carro em movimento em Bonequinha de Seda, de Oduvaldo Vianna.



Quase sempre, vemos seqüências completas dos filmes, respeitados sua montagem e som originais. Cada trecho é introduzido por um pequeno texto que o situa, para depois transcorrer como uma unidade de sentido perfeitamente inteligível. A edição das seqüências procura ora o contraste brusco (dos arranha-céus de Simão, o Caolho para a ruralidade de O Cangaceiro), ora o contraponto irônico (do carro voyeur de Os Cafajestes para o cortejo fúnebre de O Beijo). Ou ainda a complementação temática, como na passagem do mar que encerra Deus e o Diabo para a euforia de Antonio Pitanga em A Grande Cidade, e daí para a introspecção de Paulo José em O Padre e a Moça. Nesse discurso oculto da montagem, Jurandyr Noronha deixa seu depoimento sobre a trajetória do cinema brasileiro.



Os heróis da antologia são Adhemar Gonzaga, Lima Barreto, Alberto Cavalcanti, Jorge Ileli, Nelson Pereira dos Santos e Walter Hugo Khouri. As heroínas são Carmem Santos e Norma Bengell, esta protagonizando três longos momentos (tirados de O Homem do Sputnik, Os Cafajestes e Noite Vazia). É a nata do cinema brasileiro dos anos 1930 aos 1950 segundo as preferências da crítica dominante no início da década de 1960, que tem em Antonio Moniz Vianna seu principal mentor. Moniz, que à época ocupava a Secretaria Executiva do INC, assina a “supervisão crítica” do filme. Noronha nega maiores interferências, mas admite pelo menos uma. Moniz insistiu para que Noite Vazia, de Khouri, fosse representado pela cena de amor entre Norma Bengell e Odete Lara. Na pré-estréia do filme, essa escolha agastou a mulher do ministro da Educação e Cultura, Tarso Dutra. Noronha foi, então, autorizado a trocar por sua seqüência preferida.



O Cinema Novo, que Moniz e seus correligionários viam com desconfiança, não é citado como tal, mas através da paráfrase “...talvez uma vida nova para um novo cinema”. Mas nem por isso faltam cenas fundamentais de Vidas Secas, Deus e o Diabo na Terra do Sol, Menino de Engenho e A Grande Cidade. Noronha subverte a rigorosa cronologia do filme para deixar o grand finale para O Pagador de Promessas, filme de 1962. Compilar é escolher, e Panorama do Cinema Brasileiro não esconde uma predileção pelas formas clássicas e alguma reserva em relação a grandes rupturas.





(Adaptado de artigo do autor, publicado em O Estado de S.Paulo de 30.07.02)





# PANORAMA DO CINEMA BRASILEIRO

Brasil, 1968

Direção e roteiro: JURANDYR PASSOS NORONHA

Preço: R$ 30,00

Informações e vendas: FUNARTE/DECINE/CTAV. Tel.: (21) 2580-3631.

E-mail: video.decine@funarte.gov.br

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