Críticas


FESTIVAL DO RIO 2007: FAY GRIM

De: HAL HARTLEY
Com: PARKER POSEY, JEFF GOLDBLUM, CHUCK MONTGOMERY
21.09.2007
Por João Mattos
HARTLEY DO BOM

Continuação de Henry Fool (prêmio de roteiro em Cannes-98), Fay Grim (2006) nos traz de volta Hal Hartley. De volta? A tão proclamada decadência de um dos mais coerentes e pertinentes diretores do cinema independente dos EUA tal como no molde recente que este tipo de cinematografia adquiriu de um tempo bem delineado para cá, é um fato real. Hartley fez pelo menos um filme que quase todos detestam (No Such a Thing ), e vários que dividiram e muito as opiniões, poucos conseguindo a aclamação que ele já obteve, e o próprio artista admitindo que não gosta de algumas coisas que fez nestas realizações. Mas é injusto afirmar que ele realizou um montante extenso de obras que possibilitem afirmar a irrelevância ou decadência plena do estilo e do valor do diretor. Poucos deixarão de concordar, que pós Amateur (94) e Flirt (95), ele de forma progressiva deixou de trazer o talento tão fulgurante e evidente que trazia no duo de obras-primas Confiança(91) e Simples Desejo (92).



Porém é mais lícito afirmar que, por uma série de razões que aqui não cabem elucidar, mais do que tornar-se ruim o diretor pecou pela já mencionada coerência; e dentro do panorama de cinema que pratica, com sua trajetória retilínea, sem sobressaltos complexos em validade (ao contrário, por exemplo, de um Gus Van Sant), acabou parecendo meio óbvio demais, como se aos poucos ele por isso fosse definhando em importância, posto num nicho, acessível, mas que não interessasse à média da cinefilia como assunto para discussão. Embora altere por completo a trajetória e o sentido dos personagens usados em 98 – o arrogante vagabundo filosófico metido a artista-pensador profundo, acaba no centro de uma conspiração geopolítico internacional -, o diretor-roteirista usa de todos os expedientes estéticos e éticos que sempre empregou:



- Estilização psicológico-emocional, em personagens que fogem de qualquer aspiração realista, ou pseudo realista, de complexidade e riqueza moral de acordo com os ditames do que seria profundo, segundo o senso habitual de dramaturgia fílmica. Porém, é bacana notar que os homens e mulheres do diretor possuem uma espécie de vivacidade arquetípica-aforista; falam coisas que nada naturais soam em situações idem, mas que jamais aderem a um hiper realismo; são vias do discurso do diretor, que não faz questão nenhuma de esconder (como tantos que aspiram à esse suposto realismo) que está se pronunciando sobre o mundo e as pessoas. Com detalhes tortuosos, Fay Grim parece uma paródia leve da seriedade firme do caráter político de trabalhos com argumentos similares feitos pelos liberais de Hollywood (George Clooney, etc) nos últimos tempos, sem que por um segundo deixemos de ter certeza que Hartley é mais um deles, e tem posições nítidas, diria muito mais como um cidadão, do que como um artista político. A deliciosa cena em que o agente da CIA faz um neo-silogismo que combina participação dos EUA na queda de Allende no Chile, comunismo e Kuala Lampur, é uma estocada no que na visão do diretor, com certeza, pensa ser hipocrisia de um agente do poder (ou chavão parecido); termina sendo num outro aspecto, também saborosa provocação anti politicamente correto.



- Uma clareza formal, que não abdica de experimentar com os planos, a câmera, sem incorrer em linguagem rebuscada. Personagens se movimentam de uma maneira naturalista, só que um pouquinho estilizada (olha aí a palavra de novo), com gestos inesperados, ainda que não bruscos, se distendo de modo suave e contínuo, quebrando ainda mais a aparência de realismo, sem derivar para um exagero ostensivo demais – mesmo nas cenas de dança de que ele gosta. Aqui em Fay Grim, como a personagem-título, Parker Posey tem interpretação preciosa, que abusa de caras e bocas (procurando os contatos no aeroporto, andando pelas ruas), trazendo ironia fina que a afasta da meta-canastrice exagerada, e uma meiguice confusa, que nos arrebata com uma mulher tão apaixonada quanto tonta e sonsa. O gosto habitual por planos médios do diretor, aqui recebe a contribuição de uns tantos feitos com a câmera oblíqua, e uma divertida encenação das cenas de conflito físico e perseguição nas ruas, daquelas típicas de uma trama semelhante ao tipo da utilizada nesta narrativa. Logo, Hartley, as modifica, para que se tornem deles, pessoais, como um tiroteio numa escadaria e uma correria numa externa; ele suspende a direção habitual, para desenvolver o resto da cena com planos congelados em progressão, como se mostrasse fotos alternadas da seqüência pronta e editada, ao invés de realizar uma montagem comum.



Em todo esse filme e em toda a filmografia do diretor, um nome é sempre visível e debatido: Godard, o primeiro, dos anos 60, influência admitida e clara – a antológica abertura de Simples Desejo - ainda que com fôlego, o americano nunca tenha procurado a citação literal do trabalho do franco-suiço, mais evocando uma atmosfera. Como ele, Hartley traz uma boa dose de valor lúdico no que faz, de um entretenimento pop-filosófico adulto que não subestima a inteligência das pessoas, que também tem certa especificidade audaz nas idéias, no exercício intelectual, porém, no todo, desfrutável por qualquer tipo de espectador. Ainda que os últimos 15 minutos de Fay Grim acabem mais ajustados, sisudos e imponentes ao tipo de trama usada, mais do que à um filme do diretor utilizando esta para proveito próprio, e tropeços na carreira à parte, Hal Hartley continua o mesmo, sem que isso signifique apatia ou equívoco.



# FAY GRIMM (FAY GRIM)

EUA, 2006

Direção e roteiro:
HAL HARTLEY

Elenco: PARKER POSEY, JEFF GOLDBLUM, CHUCK MONTGOMERY, SAFFRAN BURROWS

Duração: 118 minutos

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