Críticas


FESTIVAL DO RIO 2007: JIA ZHANG-KE VAI PRA CASA

De: DAMIEN OUNOURI
02.10.2007
Por Carlos Alberto Mattos
DE VOLTA A FENYANG

O retorno a um lugar – seja o lugar de origem, seja o cenário de um acontecimento ou de uma filmagem anterior – é mote convidativo para documentários. Nesta edição do Festival do Rio, a idéia da volta é central em Calle Santa Fé, A Cortina de Açúcar, De Volta à Normandia, Diário de Sintra, Um Lugar só Nosso e Jia Zhang-Ke Vai pra Casa. Isso sem falar em trechos de Cocalero, Os Gatos de Mirikitani e Kinshasa Palace.



O filme de conclusão de curso do francês Damien Ounouri parte de uma idéia muito simples: acompanhar a visita de Jia Zhang-Ke à cidade natal de Fenyang, no centro da China, logo após a conquista do Leão de Ouro em Veneza/2006 por Em Busca da Vida. A abordagem não é pessoal em termos de casa e família, mas rende talvez ainda mais como auto-retrato daquele que é o mais cultuado cineasta chinês da atualidade.



O tranqüilo e loquaz Zhang-Ke se dispõe a caminhar pela velha cidade, rever locações de seus três primeiros filmes (Xiao Shan Vai pra Casa, Pickpocket e Plataforma), conversar na rua com conhecidos e anônimos que se detêm para festejar o conterrâneo famoso. O retorno a Fenyang é a senha para ele recordar sua infância, formação cultural e a descoberta do cinema independente através de um livro de Fassbinder.



A câmera caminha com ele como um companheiro de passeio, junto a um fotógrafo e dois amigos. As lembranças e considerações sobre a situação atual do cinema chinês surgem de maneira espontânea, sem que pareça haver uma pauta predeterminada. Zhang-Ke explica com razões simples as sofisticadas escolhas de sua maneira de filmar. Considera-se uma espécie de cronista das transformações recentes do país, incluindo certa liberalização da expressão individual e a perda de referências das pessoas com a substituição da economia planificada pela de mercado.



Damien Ounouri teria lucrado se optasse por uma edição mais compacta, eliminando tempos mortos da caminhada pela cidade. Os depoimentos complementares de colaboradores e de um crítico, além de soarem um tanto supérfluos, ainda destoam da espontaneidade com que o resto foi captado.



De qualquer maneira, temos aí um registro precioso do pensamento de um realizador inteligente, que tudo faz para não dissociar os personagens de seu contexto. De certa forma, esse modesto doc restitui Jia Zhang-Ke ao seu próprio contexto.



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JIA ZHANG-KE VAI PRA CASA (XIAO JIA)

França, 2007

Direção: DAMIEN OUNOURI

Duração: 109 minutos

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