Críticas


FESTIVAL DO RIO 2007: PAPEL NÃO EMBRULHA BRASAS

De: RITHY PANH
05.10.2007
Por Carlos Alberto Mattos
FLORES DE PHNOM PENH

Rithy Panh foi o diretor que colocou o Camboja no mapa do documentarismo mundial com filmes como O Povo do Arroz, S-21, a Máquina de Morte do Khmer Vermelho, Povo de Angkor e Os Artistas do Teatro Queimado. Seu tema permanente são as feridas da História no corpo do seu país – e é com freqüência no corpo das pessoas que elas aparecem. Em Papel Não Embrulha Brasas, essas marcas estão na carne maltratada e doente de prostitutas de Phnom Penh.



A câmera quase não sai do interior de um velho bordel, instalado num prédio de 1964 que funcionava como repartição pública e hoje é chamado apenas de “The Building”. O edifício nunca aparece de fora. Nem é vista a “madame” que chefia as mulheres – dela só ouvimos a voz numa seqüência. Ficamos, portanto, a sós com as prostitutas em momentos de descanso, refeições e confidências. Rithy Panh usou um método ao mesmo tempo simples e sofisticado: pediu que elas conversassem entre si sobre família, passado e presente, enquanto cuidava para que tivessem sempre as mãos ocupadas com alguma coisa. Ocasionalmente, as estimulava para que usassem bonecos e desenhos como apoios da narrativa oral.



O efeito é de grande fluência, sem perda da sensação de intimidade. A passagem da conversa banal para o domínio das emoções se faz da maneira mais natural. Ouvimos relatos brutais de violência familiar, miséria absoluta, doenças e sacrifícios em troca do arroz e do crack de cada dia. Da rala renda obtida na noite, sobra quase nada depois de dividi-la com cafetões, polícia, abortos, maquiagem e curativos para as pancadas que levam dos clientes. E ainda restam as contradições do sistema assistencial. Uma das moças conta como foi instada por uma ONG internacional a denunciar o pai que a violentara. Agora ela se remói de culpa e torce para que o pai saia da prisão.



Este é um dos docs mais tristes dos últimos tempos. Sua extrema melancolia exprime a morte espiritual do povo cambojano depois que os anos de terror do Khmer Vermelho e a guerra civil exterminaram o corpo e a alma do país. Rithy Panh traça esse microcosmo com imagens duras no conteúdo e elegantes na forma. A sobriedade e o recato do estilo traduzem o respeito do realizador pelas suas personagens.



PAPEL NÃO EMBRULHA BRASAS (LE PAPIER NE PEUT PAS ENVELOPPER LA BRAISE)

Camboja / França, 2007

Direção:
RITHY PANH

Duração: 90 minutos

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