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O BRILHO, CADA VEZ MAIS DESBOTADO, DO MUNDO

11.10.2002
Por Daniel Schenker
O BRILHO, CADA VEZ MAIS DESBOTADO, DO MUNDO

Dois filmes referentes a acontecimentos razoavelmente recentes estrearam nos cinemas: 11 de Setembro e Ônibus 174. As propostas de um e de outro são diferentes. Enquanto que o primeiro é um projeto ficcional que engloba vários cineastas, convidados para realizar curtas nos quais expressassem suas impressões causadas pelos atentados de Nova York, o outro apresenta as raízes do assalto ao ônibus que interrompeu durante algumas horas a Rua Jardim Botânico levando o Brasil a acompanhar a via-crucis de um grupo de reféns e a se deparar com Sandro do Nascimento, produto direto de uma ordem social deformada. Neste sentido, 11 de Setembro abre as portas para a liberdade criativa, a subjetividade de cada olhar, ao passo que Ônibus 174 se apóia na concretude de um trabalho de dissecação minuciosa que transcende uma mera documentação.



Os filmes, porém, mesmo explicitando, de formas variadas, que os fatos abordados não têm nada de isolados (há pleno destaque da abrangência geográfica e/ou global), trazem em seus títulos a especificidade de acontecimentos unitários, por mais singulares que sejam. Num certo sentido, anunciam-se mais como contemporâneos (referentes ao aqui/agora) do que como atuais (o que atravessa ao tempo) – principalmente 11 de Setembro, que evidencia uma base demagógica (reunião movida pela urgência de 11 cineastas representativos de todas as partes do mundo para a realização de curtas, algo fiel a uma época caracterizada pela necessidade de externar opiniões e juízos de valor).



Não se pode negar a existência de uma perspectiva atemporal. No caso de Ônibus 174, ela não emerge da justa preocupação dos realizadores em mostrar o assalto ao ônibus como o ponto culminante da sobrevida de Sandro, totalmente à mercê de um sistema arruinado, mas da consciência de que o assaltante, como qualquer ser humano, tem dentro de si toda uma gama de ingredientes que podem ser deflagrados em decorrência dos mais variados motivos – da falta generalizada ao deslumbramento com o poder. Não há exemplo mais claro que o holocausto. Mas 11 de Setembro e Ônibus 174 quebram a universalidade ao reiterarem uma necessidade um tanto comum de se prestar atenção ao estado-limite das coisas, quando muito mais grave parece ser a assustadora capacidade do mundo de digerir seja lá o que for.



Chocado com os atentados ao WTC, o mundo ficou mobilizado diante de Osama Bin Laden (e também do questionamento acerca da hegemonia inquebrantável dos EUA, da determinação dos kamikazes, do sofrimento dos afegãos) durante alguns meses, mas a página foi virada (pelo menos, na aparência) e o nível cotidiano, devidamente retomado. É como se o mundo dissesse que o 11 de setembro não teve tanta importância assim. Talvez parte do perigo resida na habilidade em abaixar a cabeça e seguir em frente, no poder da rotina. Apenas Idrissa Ouedraogo tocou na questão da desvalorização das tragédias num dos episódios de 11 de Setembro, no qual um grupo de meninos tenta lucrar às custas de um suposto Osama Bin Laden. Apesar de eles terem um motivo nobre – arranjar dinheiro para ajudar nas despesas médicas da mãe de um dos garotos –, as provocações estão presentes, seja na abordagem bem-humorada, seja na constatação de que a vida deles acaba não sofrendo grandes transformações a partir dos atentados.



É claro que houve mudanças. O mundo vem se tornando cada vez mais embrutecido e, de tempos em tempos, o homem se vê frontalmente confrontado com uma realidade que preferiria não ter de enxergar. Filmes como 11 de Setembro, calcado na diversidade artística, e Ônibus 174, incômodo mas não “impossível”, correm o risco de causarem frissons/comoções momentâneas, como as tragédias do cotidiano normalmente destituídas de sua gravidade. Há algo impalpável que escapa aos diretores: o brilho, cada vez mais desbotado, do mundo.

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