Críticas


NOVO MUNDO

De: EMANUELE CRIALESE
Com: VINCENZO AMATO, CHARLOTTE GAINSBOURG
09.12.2007
Por Carlos Alberto Mattos
O PAÍS DE SÃO SARUÊ

Dinheiro crescendo em árvores, legumes gigantes brotando da terra, rios de leite. Existe uma universalidade nas representações da utopia de fartura e vida melhor que povoam a imaginação dos necessitados. Os mesmos relatos fabulosos que encontramos, por exemplo, nos cordéis nordestinos de O País de São Saruê correm nas aldeias pedregosas da Sicília, onde tem início a história de Novo Mundo.



As visões delirantes de Salvatore Mancuso o convencem a embarcar num navio para a “Mérica”, levando os dois filhos e sua velha mãe. Para o camponês viúvo e analfabeto, não se trata de uma viagem qualquer, mas de uma aventura com muitos significados. Salvatore precisará aprender a renunciar, aceitar humilhações e aproveitar oportunidades, além de confirmar que milagres acontecem. O ator Vincenzo Amato tem a vantagem de poder se transformar de lavrador rústico em galã apenas raspando barba e bigode. Rapidamente, a conveniência burocrática de uma passageira inglesa (Charlote Gainsbourg) ganha ares de interesse romântico. Poesia e realismo viajam juntos no mesmo convés.



Emanuele Crialese vem dividindo seu cinema entre a Sicília (onde estão as raízes de sua família) e Nova York, onde estudou cinema. O Salvatore de Novo Mundo pode ser visto como um predecessor do personagem que o mesmo Vincenzo Amato interpretou no primeiro longa de Crialese, Once We Were Strangers, um siciliano vivendo ilegalmente em NY. Respiro, seu belo filme seguinte, estava plantado no coração da Sicília e tratava da condenação social de uma mulher excessivamente livre para os costumes do lugar.



Crialese ambiciona combinar etnografia e lirismo como Ermanno Olmi e os irmãos Taviani. Daí boa parte das esperanças de reafirmação do cinema italiano estarem depositadas nele já há algum tempo, embora seu ritmo lento de produção não autorize grandes expectativas. As primeiras seqüências de Novo Mundo evocam a atmosfera de A Árvore dos Tamancos ou de Kaos. Mas quando os personagens se transferem para o navio, é a sombra de Fellini (...E la Nave Va) e Gianni Amelio (Lamerica) que se avoluma. O detalhismo da pesquisa sobre a viagem, a quarentena dos imigrantes em Ellis Island, os testes e os acasalamentos para a entrada no “novo mundo”, tudo isso é quebrado por irrupções alegóricas e suspensões poéticas que transformam o filme ora numa encenação quase teatral, ora em ensaios de instalação de grande efeito plástico. Essa impureza é responsável pelo que o filme tem de surpreendente e sedutor, ainda que a estetização venha em prejuízo do gume social e mesmo romântico da história.



Uma leitura mais “interpretativa” do filme vai apontar a metáfora, sempre tangenciada, do processo de fecundação do óvulo, condição do surgimento de uma nova vida, equivalente a um novo mundo. Nas rotinas da viagem e na seleção eugenista praticada pelas autoridades estadunidenses, em que só os sãos e hábeis podem entrar, os imigrantes reproduzem o processo da corrida de espermatozóides. A idéia de fluxo é representada pelas filas e movimentações nas escadas do navio, enquanto os personagens emergindo do mar de leite remetem ao ambiente intra-ulterino e à fertilidade. Dado o papel de destaque das mães em Respiro e Novo Mundo, não se deve negligenciar esse traço do cinema de Crialese.



NOVO MUNDO (NUOVO MONDO)

Itália, 2006

Direção e roteiro:
EMANUELE CRIALESE

Fotografia: AGNÈS GODARD

Montagem: MARYLINE MONTHIEUX

Música: ANTONIO CASTRIGANO

Desenho de produção: CARLOS CONTI

Elenco: VINCENZO AMATO, CHARLOTTE GAINSBOURG, AURORA QUATTROCCHI, FRANCESCO CASISA, FILIPPO PUCILLO

Duração: 120 minutos

Site oficial (EUA): clique aqui

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