Críticas


SIGNO DA CIDADE, O

De: CARLOS ALBERTO RICELLI
Com: BRUNA LOMBARDI, JUCA DE OLIVEIRA, MALVINO SALVADOR, GRAZIELLA MORETTO.
18.02.2008
Por Marcelo Moutinho
LUZES DA CIDADE

Foi Ítalo Calvino quem apontou a tensão que amalgama, no âmbito da cidade, a racionalidade geométrica das construções e o emaranhado de existências humanas. O escritor italiano compreendia o espaço urbano a partir de uma espécie de “cartografia afetiva”, traçada em sensações, pulsações e afetos que circulam, como sangue, nas ruas-veias de uma metrópole.



O Signo da Cidade, novo trabalho de Carlos Alberto Riccelli, tenta um movimento semelhante, transportando a idéia-motriz de Calvino da literatura para o campo cinematográfico. A opção pelo formato do ‘filme-mosaico’, consagrado por Robert Altman, insinua-se já no roteiro de Bruna Lombardi, que também assume o papel principal na pele da astróloga Teca.



A protagonista funciona como um ponto de interseção, em torno do qual as múltiplas histórias do filme irão se desenrolar. Teca apresenta um programa noturno de rádio e, durante as transmissões, ausculta as dores de uma São Paulo que parece oculta sobre o desenho frio da arquitetura. Os ouvintes telefonam para confessar as angústias mais fundas, à espera de algum consolo que nem sempre ela pode oferecer.



No rastro dos dramas desses ouvintes - e das pessoas que cercam o cotidiano da astróloga -, o filme se constrói. Há o pai moribundo (Juca de Oliveira, um tanto histriônico) com quem Teca se relaciona parcamente. Há o enfermeiro ético que cuida dele com todo o zelo. Há o menino que esconde sua homossexualidade da mãe carola; e também o travesti eivado de sonhos que vão se esfarelando no dia-a-dia do calçadão. Todos esses personagens, de resto bem desenvolvidos, representam os átomos de humanidade que a cidade, em sua face brutal e selvagem, insiste em embotar.



O filme é pontuado pela recorrente e doce imagem de janelas acesas nas fachadas gris dos edifícios – que aludem à tensão mencionada por Calvino - e conta com seqüências inspiradíssimas, como a que retrata o espancamento do travesti por uma dupla de playboys. Na cena, Riccelli abre mão do realismo em favor de um registro expressionista, utilizando com rara beleza o contraste entre a penumbra, a chuva e o reflexo dos faróis de um carro, projetados sobre os monitores de TV na vitrine de uma loja já fechada - os mesmos televisores diante dos quais o travesti estacionara minutos antes no afã de pegar emprestado uma réstia de glamour e que estão, agora, desligados.



As premissas, portanto, davam margem à construção de um grande filme. E se O Signo da Cidade naufraga, é porque Bruna e Riccielli forçam demais a mão, impedindo que as histórias falem por si mesmas. Bom exemplo disso se dá na seqüência em que a garota deprimida, cuja mania é se ferir, atira seus estiletes de estimação na lata de lixo. A câmera então se aproxima, como se fosse necessário destacar ainda uma vez que a vida dela mudara para melhor, e já não precisava deles.



A redundância, infelizmente, não se limita aos planos fechados. Em muitos momentos, a própria trilha sonora e o recurso da narração em off acabam apagando as nuances e sublinhando com traços grosseiros o que já fora devidamente sugerido. Ao optar por essa claridade excessiva, Bruna e Riccelli esgarçam as metáforas até o limite. Parecem esquecer que, assim como a sombra, a luz demasiada também impede de ver.



# O SIGNO DA CIDADE

Brasil, 2007

Direção: Carlos Alberto Riccelli

Roteiro: Bruna Lombardi

Elenco: Bruna Lombardi, Juca de Oliveira, Malvino Salvador, Graziella Moretto, Luis Miranda, Sidney Santiago, Laís Marques, Kim Riccelli

Duração: 95 min.

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