Críticas


ROMANCE DO VAQUEIRO VOADOR

De: MANFREDO CALDAS
Com: LUIZ CARLOS VASCONCELOS
25.04.2008
Por Carlos Alberto Mattos
O CANDANGO FANTASMA

Para entender a proposta de O Romance do Vaqueiro Voador é preciso compreender certa genealogia. Ela começa pela viagem do designer gráfico estadunidense Eugene Feldman ao imenso canteiro de obras de Brasília, em 1959. Portando uma câmera 16mm e usando filme colorido, Feldman filmou à larga a movimentação dos peões, os esqueletos dos edifícios começando a brotar da terra vermelha do Planalto.



Após a morte de Feldman, em 1975, esse precioso material bruto foi entregue em 1978 ao designer brasileiro Aloísio Magalhães, que o mostrou a Vladimir Carvalho na Universidade de Brasília. Vladimir selecionou os melhores trechos e chamou o artista plástico Athos Bulcão e o ex-candango e sindicalista Luiz Perseghini para comentar as imagens. O resultado é o magnífico Brasília Segundo Feldman (1979), onde pela primeira vez se falou do lado sombrio do épico juscelinista, com centenas de operários mortos em acidentes e num massacre cometido pela guarda de Brasília.



O próprio Vladimir iria ampliar esse enfoque no ainda mais magnífico Conterrâneos Velhos de Guerra, de 1990. Mas foi Brasília Segundo Feldman que inspirou o poeta cearense/brasiliense João Bosco Bezerra Bonfim a escrever o cordel erudito O Romance do Vaqueiro Voador (2003). No poema, Bonfim elabora todo um referencial mítico em torno do vaqueiro que se abala do Nordeste para trabalhar na construção da capital e desaba do alto de um prédio em vôo cego para a morte.



Seria esse fantasma que Luiz Carlos Vasconcelos representa em suas caminhadas pela Brasília atual. Sob os alicerces de algum ministério, dizem, jaz o mistério do vaqueiro acidentado. Seu aboio ainda se ouve nas planuras do Plano Piloto ou reverbera nas versalhadas dos cantadores. Sua história exemplar se perpetua nos relatos de outros ex-candangos, como Joacyr Rodrigues de Araújo, que garante ter sido o Hotel Nacional (sede do Festival de Brasília) o lugar de onde três caminhões de operários mortos foram retirados após o famoso massacre.



Romance beneficia-se ao mesmo tempo que se ressente dessa larga precedência. Por um lado, constrói sua narrativa em camadas – e nisso a excelente montagem de Ricardo Miranda é fundamental –, deixando claro que se trata de uma obra basicamente remissiva. A edição incorpora cenas de Vidas Secas, das filmagens de cangaceiros por Benjamim Abraão e de vários filmes sobre a edificação de Brasília. Num certo momento, diretor e montador aparecem à beira da ilha de edição para dar o crédito direto a Brasília Segundo Feldman. É compreensível que um filme sobre reiteração de mitos trabalhe assim abertamente com obras que o precederam – elas também, de certa maneira, míticas.



Mas o preço a pagar é o baixo teor de novidade para quem conhece os filmes de Vladimir – de quem, aliás, Manfredo tem sido parceiro freqüente. Afora um ou outro detalhe, nada se configura revelador em Romance. No entanto, é de supor que tenha força junto a faixas de público menos informadas – como o júri do Prêmio Signis dos Encontros de Cinema Latino-americano de Toulouse, que o premiaram recentemente como melhor doc. Além disso, o site oficial do filme oferece textos muito elogiosos de gente altamente respeitável no cinema brasileiro.



De minha parte, como já tive oportunidade de discutir com Manfredo, admiro as inserções da Brasília atual nas deambulações do vaqueiro; aprecio as nuvens de “poeira”, fusões e ligaduras sonoras que costuram os dois tempos (reparem o contrabando de uma rápida cena de manifestação de massa em meio às imagens das obras, criando um transbordamento político quase subliminar); gosto particularmente dos paralelos entre a construção das cúpulas do Congresso e a do novo Museu Nacional de Brasília; acho arrojada a edição de cenas de Feldman ao som de tiros para sugerir o episódio do massacre.



No entanto, sinto que as diversas linguagens adotadas (entrevistas, recital, cantoria, making of reflexivo, experimentação) não se justificam plenamente, como se estivessem ali apenas enunciadas de maneira um tanto frágil. Entrando e saindo do personagem aleatoriamente, Luiz Carlos Vasconcelos caminha por boa parte da cidade sem marcar presença, provavelmente porque nada foi pedido ao personagem além de caminhar, olhar as coisas com ar vagamente intrigado e vez por outra ensaiar ou recitar um trecho do poema. Usar o personagem central como guia para uma câmera contemplativa é um dos problemas que vejo na opção de Manfredo e de seu co-roteirista Sérgio Moriconi.



O desejo de abrir o filme para uma perspectiva multifacetada é algo que se esboça, deixa-se perceber como intenção honesta e moderna, mas não basta para criar um olhar original sobre a saga dos candangos.





ROMANCE DO VAQUEIRO VOADOR

Brasil, 2007

Direção e produção:
MANFREDO CALDAS

Roteiro: MANFREDO CALDAS, SÉRGIO MORICONI

Poema: JOÃO BOSCO BEZERRA BONFIM

Fotografia: WALDIR DE PINA

Montagem: RICARDO MIRANDA

Som: CHICO BORORO

Produção executiva: MÁRCIO CURY

Música: MARCUS VINÍCIUS

Elenco: LUIZ CARLOS VASCONCELOS

Duração: 71 minutos

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