Críticas


CLEÓPATRA

De: JULIO BRESSANE
Com: ALESSANDRA NEGRINI, MIGUEL FALABELLA, BRUNO GARCIA
23.05.2008
Por Carlos Alberto Mattos
A CORTINA NA PRAIA

Vieira, São Jerônimo, Nietzsche, Cleópatra. Enquanto não resolve filmar a vida de Deus, Julio Bressane vai nos contentando com esses personagens menores. Seu projeto é ressuscitá-los como avatares numa certa matriz lusitana, expressa sobretudo no uso da língua portuguesa. Por isso os personagens sempre falam pelos cotovelos, joelhos, clavícula. Em Cleópatra, a rainha egípcia e o imperador romano chegam a trocar de vozes, sendo que Alessandra Negrini ganha um close inusitado do gogó, além de outras partes bem mais íntimas.



Como espectador, senti-me dilacerado enquanto assistia ao filme. De um lado, apreciava a gramática atrevida de Bressane – seus tableaux vivants que lembram Straub, as súbitas mudanças de registro que podem levar de um gesto majestoso a uma careta infantil. Ao mesmo tempo, rejeitava quase tudo o que era feito com aquela gramática. É difícil de explicar, mas o fato é que eu gostava do traço e odiava o desenho.



Bressane trabalha na área delicada da chanchada erudita, a um passo da chanchada tout court. Essa distância fica ainda menor em Cleópatra, uma vez que a soberana do Nilo, transplantada para as pedras de Copacabana, virou uma sedutora heterodoxa com sotaque de político nordestino e dedos capazes de penetrar nos orifícios mais régios. Senhora da magia (o Oriente) e da sabedoria (a Biblioteca de Alexandria), ela enfrenta com essas armas Julio César e Marco Antonio, cerceados que são pelo racionalismo da cultura grega.



Freqüentemente, me perguntei se a contribuição brasileira dessa releitura seriam os peitinhos, bundinhas e vaginas que amiúde quebram a teatralidade frontal referida à pintura egípcia. Ou seriam as canções que por duas vezes irrompem na elaborada tessitura sonora do filme? Seja como for, não é fácil compreender aonde Bressane dessa vez quis chegar.



O realizador talvez me chame de burro – é como ele vê quem não alcança os píncaros de sua criação. Não há dúvida que Cleópatra está coalhado de metáforas, encharcado de alusões, saturado de referências. Por isso mesmo exige mais a paciência e perspicácia de um decifrador de esfinges que a disposição para a emoção e para o raciocínio de um espectador de filmes.



Exige, ainda, que concedamos uma licença para a canastrice se constituir em proposta estética. Ao incorporar o kitsch (as interpretações “inventadas”, a cenografia de show room “asiático”, os ruídos do inconsciente), Bressane parece não querer deixar nenhum flanco aberto para críticas. Tudo é cafona, tudo é caricatura, tudo é vaidosa ambigüidade. A sucessão de bizarrices filmadas com solenidade cria um não-estilo, um não-dizer que cansa bem antes de as luzes de Walter Carvalho completarem seu laborioso esforço de expressão.



Cleópatra, o ilustre vencedor do Festival de Brasília, não comenta propriamente o mito, mas escarnece dele. É vistoso e gratuito como uma cortina na areia da praia.





CLEÓPATRA

Brasil, 2007

Direção:
JULIO BRESSANE

Roteiro: JULIO BRESSANE, ROSA DIAS

Fotografia: WALTER CARVALHO

Edição: RODRIGO LIMA

Som direto: LEANDRO LIMA

Edição sonora: VIRGÍNIA FLORES

Direção de arte: MOA BATSOW

Música: GUILHERME VAZ

Produção: TARCÍSIO VIDIGAL, LÚCIA FARES

Elenco: ALESSANDRA NEGRINI, MIGUEL FALABELLA, BRUNO GARCIA, NILDO PARENTE, LÚCIO MAURO

Duração: 116 minutos

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