Críticas


PERSONAL CHE

De: DOUGLAS DUARTE, ADRIANA MARIÑO
13.06.2008
Por Carlos Alberto Mattos
O CHE DE CADA UM

Do palco de uma ópera musical em Beirute ao interior de um velho táxi em Havana. De um subúrbio de Los Angeles a uma passeata no centro de Hong Kong. De uma manifestação neonazista na Alemanha ao pequeno altar numa casa humilde do altiplano boliviano. A estrutura de Personal Che reproduz o teor crossculture do culto a Ernesto Guevara quase 30 anos depois de sua morte nas selvas da Bolívia.



Filmes sobre o mito Che fazem parte do mito Che, pois tudo o que sobre ele se produz acaba caindo na névoa do endeusamento ou da demonização. O documentário do brasileiro Douglas Duarte e da colombiana Adriana Mariño tem a vantagem de assumir o debate – e mostrar que, afinal, nada de muito concreto ou desapaixonado se pode afirmar sobre o Che.



Ao longo do filme, Che é comparado a Cristo, ao Papa, a Hitler e a califas árabes. O que restou de sua história real foi uma superfície romântica onde cada grupo projeta seus ideais e suas mitificações. As imagens do guerrilheiro são objeto de legítima devoção religiosa, discussões renhidas no meio da rua e análises por intelectuais como Jorge Castañeda, Paul Berman, David Kunzle e Christopher Hitchens. Por tratar-se, mais que de um homem, de um ícone, o filme investe num desenho gráfico inventivo, tirando partido da onipresente proliferação da esfinge do Che.



O que faz de Personal Che um filme especial não é, porém, sua excelente qualidade técnica, nem o acúmulo de curiosidades e interpretações, mas a atitude sutilmente provocativa dos realizadores. Eles freqüentemente aparecem no quadro em situação de conversa franca com os entrevistados. Douglas é até visto dando uma boa risada quando o famoso publicitário e fotógrafo Oliviero Toscani afirma que o ato mais revolucionário de Guevara foi ter posado para a célebre foto de Alberto Korda. Marcando bem sua presença, Douglas e Adriana estão aptos a não apenas ouvir, mas questionar seus personagens e provocar situações extremamente rentáveis para o debate que o filme levanta. Numa cena, por exemplo, uma crédula família cubana se emociona ao contemplar pela primeira vez a imagem do Che morto. Em outro momento, um colecionador salvadorenho enfrenta a fúria de exilados cubanos numa calçada de Nova York.



Legítimo doc-debate, sem deixar de ser ora comovente, ora hilariante, Personal Che corta com faca afiada uma fatia do nosso tempo.



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PERSONAL CHE

Brasil/Colômbia/EUA, 2007

Direção e roteiro:
DOUGLAS DUARTE, ADRIANA MARIÑO

Site oficial: clique aqui

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