Críticas


ONDE ANDARÁ DULCE VEIGA?

De: GUILHERME DE ALMEIDA PRADO
Com: MAITÊ PROENÇA, ERIBERTO LEÃO, CAROLINA DIECKMANN
30.06.2008
Por Daniel Schenker
CINEMA DE ARTIFÍCIOS

Personagem-título do livro de Caio Fernando Abreu, Dulce Veiga é uma cantora que abandona a carreira no auge e desaparece norteada pelo desejo de encontrar “uma outra coisa” que não consegue denominar. Guilherme de Almeida Prado - que, antes mesmo da publicação do livro, escreveu um primeiro roteiro com Caio - concretiza finalmente o projeto de adaptação para a tela. E, ao invés de valorizar a jornada rumo ao essencial trilhada por Dulce, investe num filme cuja identidade reside num acúmulo de artifícios: imagens estilizadas, interpretações afetadas, referências diversas.



Parece haver um contraste entre a trajetória da personagem e a “personalidade” do cinema praticado por Guilherme de Almeida Prado. Ou é possível que para o diretor a idéia de essência não esteja relacionada a um despojamento do supérfluo, mas, ao contrário, ao excesso. Determinadas frases (“A sensação de que estava no país verdadeiro. O falso era de onde eu vinha” / “Eu queria o real sem nada por trás, a não ser ele mesmo”) ditas pelo jornalista – não, por acaso, chamado Caio –, que palmilha o Brasil em busca do paradeiro de Dulce Veiga, explicitam um desejo de confronto com o real, com o verdadeiro, termos que talvez sejam problematizados em seus valores absolutos pelo cineasta.



Nesse sentido, as opções de Guilherme de Almeida Prado são defensáveis, mesmo que questionáveis. O problema é que a realização esbarra numa esterilidade. Fica evidente que o material bruto renderia mais. Muito se perde pelo caminho. A passagem final, em Estrela do Norte, resulta especialmente prejudicada. Não resta nada do processo de autoconhecimento, travado por meio de uma experiência quase mística, de Caio, seduzido por uma lembrança definitiva de Dulce. E o happy end entre Caio e Márcia é um engano total.



No que diz respeito ao registro de atuação, Onde Andará Dulce Veiga? é marcado pela valorização de um anti-natural que não convence. Se Maitê Proença (escalada para fazer uma personagem escrita sob medida para Odete Lara) impõe alguma presença através da composição da figura de uma grande diva desglamourizada, a maior parte do elenco não chega a se apropriar de construções físicas e tonalidades vocais, em especial Christiane Torloni. Guilherme de Almeida Prado parece buscar interpretações criadas a partir de pinceladas grossas, pouco sutis, evocando, em certa medida, o trabalho de Carlos Reichenbach, parceiro e mestre no efervescente período da Boca do Lixo paulistana, com seus atores. Uma vertente contrária à utilizada por preparadores de elenco como Fátima Toledo, que investem na construção de um naturalismo, refinado ao ponto de se tornar invisível aos olhos do espectador. De qualquer modo, não deixa de ser divertido acompanhar a fidelidade de Guilherme de Almeida Prado a um grupo de atores, composto, além de Proença e Torloni, por Matilde Mastrangi, Imara Reis e Julia Lemmertz.



O cinema de artifícios também se anuncia na decisão de ambientar a maioria das cenas em espaços fechados, diferentemente do livro, que tem na cidade de São Paulo uma personagem bastante importante. O cineasta privilegia o cenográfico, com poucas saídas para o externo. Talvez apenas o estúdio da banda Vaginas Dentatas se pareça com a descrição de Caio Fernando Abreu – no caso, a de uma casa, localizada numa ladeira, na Freguesia do Ó. Os espaços internos são úteis ainda para Guilherme de Almeida Prado distribuir citações. Nas paredes dos quartos e da redação de jornal, estampa referências em cartazes. Outras são citadas pelos próprios atores. Passam pela tela títulos de filmes ( O Pagador de Promessas , O Bandido da Luz Vermelha , O Capitão Bandeira Contra o Dr. Moura Brasil ), peças ( O Beijo no Asfalto , evocado em versão homoerótica, Fala Baixo Senão Eu Grito ), além de nomes de atores (Paulo Villaça, José Lewgoy, Lola Brah) e diretores (Antunes Filho).



Apesar de citar constantemente o passado, Guilherme de Almeida Prado sabe que não há como retê-lo ou trazê-lo de volta, perspectiva sintetizada na cena em que Caio não consegue reproduzir a entrevista que fez com Márcia. Como a imagem em movimento de Dulce Veiga nas fotos de época, o que vale é aquilo que permanece vivo na lembrança.



# ONDE ANDARÁ DULCE VEIGA?

Brasil, 2007

Direção e Roteiro: GUILHERME DE ALMEIDA PRADO

Produção: ASSUNÇÃO HERNANDEZ

Música: HERMELINO NEDER, NEWTON CARNEIRO

Fotografia: ADRIAN TEIJIDO

Figurino: FABIO NAMATAME

Elenco: MAITÊ PROENÇA, ERIBERTO LEÃO, CAROLINA DIECKMANN

Duração: 135 minutos



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