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BERGMAN, BRASIL E ´HERMANOS´

11.07.2008
Por Ely Azeredo
BERGMAN, BRASIL E ´HERMANOS´

A partir do dia 13 de julho, véspera da comemoração dos 90 anos do nascimento de Ingmar Bergman, o Instituto Sueco de Cinema expõe em Los Angeles a instalação The Man Who Asked Hard ("O homem que indagava a fundo"), que vai correr o mundo. O evento tem como centro uma espécie de "árvore", na qual cada "galho" ostenta um monitor, e expõe os filmes e uma série de fotos referentes a 32 temas da obra bergmaniana. A Academia de Hollywood associou-se ao evento.



O gênio deixou nosso convívio formal em 30 de julho de 2007, mas há quase um ano o mundo vibra com sua incomparável visão e com sua estética em mostras, documentários, exposições, seminários e até em produções teatrais (inclusive adaptações de Sonata de Outono. Cenas de um Casamento e outros roteiros). Bergman está mais vivo do que nunca.



Ingmar Bergman nasceu em 14 de julho de 1918, em Uppsala (Suécia), cidade presente em Fanny e Alexandre e outros filmes seus. Já era diretor de teatro ao estrear na tela - aos 26 anos - como roteirista do inesquecível Tortura de um Desejo (Hets), de Alf Sjöberg, 1944, que seria apreciado internacionalmente, no pós-guerra, como renascimento do cinema sueco. Vinicius de Moraes foi o primeiro crítico brasileiro a exaltar este filme. Quando em função diplomática em Los Angeles, no final da década de 1940, escreveu para a revista Filme (que fundara com Alex Viany): "os cineastas europeus estão dando um banho de cinema em Hollywood". Em seguida, alinhava suas críticas de Roma, Cidade Aberta, de Rossellini, Espoir, de André Malraux, e Tortura de um Desejo.



Durante muitos anos subestimado (às vezes até ridicularizado) pela crítica sueca, Bergman foi tratado como um cineasta "menor", inicialmente, nos festivais de Cannes e Veneza. A crítica francesa, com Truffaut, Godard e outros arautos dos Cahiers du Cinéma, passa até hoje por "descobridora" de Bergman porque aplaudiu Sorrisos de uma Noite de Verão em 1956, em Cannes, onde essa comédia recebeu um prêmio menor. No ano seguinte, a Palma de Ouro foi para uma realização americana fácil de esquecer, Sublime Tentação (Friendly Persuasion), um William Wyler caprichado, mas sem grandes vôos, enquanto O Sétimo Selo bergmaniano aparecia empatado com o polonês Kanal, de Andrzej Wajda, na proclamação do Prêmio Especial do Júri. Estava sinalizada a consagração de Bergman para os Estados Unidos e a Europa (com exceção da Suécia, onde a crítica demorou quase vinte anos para começar a compreender).



No Festival Internacional de Cinema promovido em São Paulo por ocasião do Quarto Centenário da cidade, 1954, Noites de Circo, de Bergman, rodado no ano anterior, foi aplaudido de pé. Entre os presentes estavam os cineastas paulistas Walter Hugo Khouri, Rodolfo Nanni, Rubem Biáfora (crítico e depois cineasta), o mineiro Paulo Arbex (pioneiro na imprensa de MG) e - do Rio - Hugo Barcelos (Diário de Notícias) e eu, que fazia cobertura para a Tribuna da Imprensa.



A consagração mundial de Bergman começou nos escritos de críticos de Montevidéu (fundadores do Cine Universitário del Uruguay, liderados pelo excelente Homero Alsina Thevenet), de Buenos Aires, São Paulo e Rio. Khouri, então, era colaborador do Estadão.Várias obras que chamaram atenção para o sueco em São Paulo, como Juventude (Sommarlek) e Sede de Paixões (Törst), começaram sorrateiramente pelo Cone Sul e São Paulo. No Rio, Bergman conquistou também, sem demora, o crítico e poeta José Lino Grünewald. Eu, que vasculhava os poeiras, redutos de produções "picantes" – numa época em que se confundia erotismo com pornografia – tomei a frente na exaltação de Mônica e o Desejo (Sommaren med Monika), de 1952, e na divulgação de filmes roteirizados por Bergman, como Eva, a Mulher e a Tentação (Eva), de Gustaf Molander, 1948, exibido no Brasil com atraso. Eva só é admirável por algumas cenas com nítidas impressões digitais de Ingmar. Na cabeça de alguns distribuidores, "sueco" era gênero... Um gênero capaz de render bom dinheiro quando "desovado" em cinemas como os cariocas Orly (ex-São Carlos) e o extinto São José (um reduto gay), da Praça Tiradentes.



Senti um calafrio quando, numa cena da parte final de Mônica, a jovem Harriet Andersson encara a câmera em longo e voluptuoso close (isto é, "olho-no-olho", cada um dos espectadores), sem palavras. O olhar de Monika demolia a "quarta parede" e estabelecia uma intimidade entre o filme e a vida lá fora. Décadas depois, minha admiração pela atriz foi endossada pelo próprio Bergman, que (no livro Imagens, 1995) citou esta cena para exemplificar porque considerava Harriet "um dos gênios do cinema". Depois de um verão nas ilhas, quando a paixão pelo protagonista já fora sufocada pelo cotidiano de Estocolmo, Monika dança com um parceiro ocasional em um café. "Ao som da swing music, a câmera se vira para Harriet. Seu olhar se volta do parceiro para as lentes da câmera. Aqui é subitamente estabelecido, pela primeira vez na história do cinema, um contato desavergonhado, direto com o espectador" - disse Bergman.



Realizado com muita margem para improvisações e contribuições dos atores, Mônica e o Desejo deu oportunidade a esse grande momento criativo de Harriet Andersson. Este filme, apesar de afinidades com uma tradição naturalista sueca, tem seqüências que anunciam o grande Bergman de Noites de Circo (Gycklarnas Afton), e que – apenas quatro anos depois – assombraria com um dos filmes-chaves do cinema moderno, Morangos Silvestres (Smultronstället).



Não há dúvida: a descoberta de Bergman aconteceu em colunas de crítica do Cone Sul, Rio e São Paulo. Esses críticos só não abriram os olhos do mundo porque não contavam com publicações de circulação internacional, como a britânica Sight and Sound e os Cahiers du Cinéma.

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