Críticas


DEVOÇÃO

De: SÉRGIO SANZ
18.08.2008
Por Carlos Alberto Mattos
SANTOS EM MESA-REDONDA

As seqüências iniciais e final de Devoção traduzem claramente a idéia de sincretismo religioso. Nas primeiras, a alternância de cânticos católicos e umbandistas, assim como uma série de cortes secos entre ritos de uma e de outra religião, informam sobre a mobilidade que levou Santo Antônio a ser identificado com Ogum. Na última cena, um grupo de senhoras do candomblé entoa belamente um hino ao santo mais popular do catolicismo, cujo quarto centenário está sendo celebrado este ano. Assim a fusão se mostra completa, indissociável.



Muitas mitologias se formaram no rastro dessa associação que remonta aos tempos da colônia. O filme de Sérgio Sanz, ancorado em pesquisa da antropóloga Maria Helena Torres, tenta ir mais fundo ali onde tantos docs brasileiros se contentaram em fotografar a superfície (e não excluo o magnífico Santo Forte, em que Coutinho se limitava a ouvir). Devoção tem muitas imagens filmadas no Convento de Santo Antônio (Rio) e redondezas, assim como em terreiros de umbanda cariocas. Mas elas estão ali não tanto pelo que informam, e sim como ilustração de um arrazoado sobre as origens e a pertinência da noção de sincretismo.



Pesquisadores, autoridades do candomblé, freis e devotos do catolicismo discutem desde a imposição da religião católica aos escravos, que levou à adoção de entidades gêmeas (como Antônio e Ogum), até concepções mais modernas que negam a correspondência entre as entidades e propõem a separação nítida – anti-sincretista, portanto – dos campos de representação católico e umbandista. As religiões, afinal, se identificam na pureza ou na interpenetração de seus universos?



As cenas de rituais levam o espectador a perceber uma diferença talvez fundamental: enquanto no catolicismo impera a separação entre corpo e alma, na fé africana o santo mora no corpo mesmo da pessoa, divinizando-a. Por outro lado, um santo católico é sempre virtuoso, enquanto um Orixá pode ser cruel.



Há 13 anos, Sérgio Sanz fez o curta Antonio de Todos os Santos, que já antecipava o tema deste longa. Ao voltar ao assunto, o devotado documentarista da cultura popular brasileira encheu-se de um apetite intelectual que o fez desbordar um pouco as medidas. Devoção ficou com jeito de mesa-redonda sobre História e Antropologia, engessado numa postura excessivamente didática e inflado por uma montagem pouco econômica.



Fico pensando se, hoje em dia, há algo de errado em tratar gente apenas como fonte de informação. É o que acontece com a personagem mais curiosa do filme, uma mãe-de-santo branca com sotaque europeu. Uma espécie de Pierre Verger de saia branca e rodada. Você vai ouvi-la no filme, mas não vai saber nada sobre ela. Sanz ainda quer fazer um doc só com Giselle. Em Devoção, nada poderia desviar a atenção de sua palestra.



Visite o DocBlog do crítico.



DEVOÇÃO

Brasil, 2008

Direção, roteiro e edição:
SÉRGIO SANZ

Co-roteirista: MARIA HELENA TORRES

Fotografia: LUÍS ABRAMO

Som direto: LEANDRO LIMA, WALTER GOULART

Duração: 85 minutos

Site oficial: clique aqui

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