Críticas


MISTÉRIO DO SAMBA, O

De: LULA BUARQUE DE HOLLANDA e CAROLINA JABOR
Com: VELHA GUARDA DA PORTELA, MARISA MONTE
30.08.2008
Por Carlos Alberto Mattos
TUDO AZUL COM A VELHA GUARDA

As primeiras imagens de O Mistério do Samba – estações de trem, muros pintados, paredes de bar – sugerem que vamos assistir a uma crônica do subúrbio, do tipo “cadeiras na calçada e na fachada escrito em cima que é um lar”. Mas em pouco tempo essa impressão se desfaz porque o que se instala no filme é o império de uma “nobreza popular”, para usar aqui a expressão feliz de Beth Formaggini, responsável pela pesquisa de imagens. A picardia, a altivez e o talento da Velha Guarda da Portela não vão deixar lugar para nenhuma visão paternalista da periferia.



Dali a pouco a gente percebe que Marisa Monte está trabalhando no filme. E eu falei trabalhando, mesmo. Ela entrevista Paulinho da Viola, conversa com “tias”, remexe em velhos cassetes à procura de sambas inéditos. Aí então a gente pensa: já sei, o documentário vai seguir a pesquisa de Marisa, iniciada ainda nos anos 1990, e que daria no disco e no show Tudo Azul, em 2000. Mas, de repente, também não é isso. A pesquisa é um dado entre outros, e o que prevalece são as conversas e as estrofes dos velhos sambistas, mortos e vivos.



Mais perto do final, a gente tem certeza de que virá uma grande apoteose do show no Canecão. Dá até pra imaginar o corte, em meio a um daqueles lindos sambas, da quadra da Portela para o palco da cervejaria, sinal de legitimação midcult do samba de quintal. Mas isso tampouco acontece. Ficamos ali mesmo em Oswaldo Cruz, em meio a copos de cerveja e rostos cativantes – como o do finado Argemiro, encasquetado com a vontade de encaixar a palavra “âmbito” num samba sem nem saber o que aquilo significava.



O doc de Lula Buarque de Hollanda e Carolina Jabor é assim: parece que vai pra um lado, mas negaceia e vai pra outro. Em boa linguagem acadêmica, eu diria que O Mistério do Samba dribla seus próprios dispositivos. Não faz nada que possa ofuscar a simplicidade e a beleza da Velha Guarda. A estrela não é o filme, mas os ex-operários, ex-feirantes, ex-guardadores de carro, cozinheiras e costureiras que compõem a Velha Guarda. Monarco, Casquinha, Jair do Cavaquinho (agora morto também), Casemiro, Áurea, Tia Doca, Tia Surica, Tia Eunice. Eles falam de inspiração, poesia e amor para um punhado de câmeras que só quer saber deles e de mais nada.



Talvez seja aí, na frustração de certas expectativas construídas pelo doc contemporâneo, que O Mistério do Samba afirma sua personalidade. Um filme direto, modesto e cativante na maneira como se importa pouco consigo mesmo para melhor servir a seus personagens.



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O MISTÉRIO DO SAMBA

Brasil, 2008

Direção:
LULA BUARQUE DE HOLLANDA, CAROLINA JABOR

Roteiro: CAROLINA JABOR, LEONARDO NETTO, LULA BUARQUE DE HOLLANDA, MARISA MONTE E NATARA NEY, com colaborações de Emílio Domingos, Hugo Sukman, Mônica Almeida e Suzana Mekler

Fotografia: TOCA SEABRA

Edição: NATARA NEY

Edição de som e mixagem: DENILSON CAMPOS

Coordenação de pesquisa: EMÍLIO DOMINGOS

Coordenação de pesquisa de imagem: BETH FORMAGGINI

Duração: 88 minutos

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