Críticas


FESTIVAL DO RIO 2008: AS ÁGUAS DE KATRINA

De: TIA LESSIN e CARL DEAL
08.10.2008
Por Carlos Alberto Mattos
A CÂMERA NO OLHO DO FURACÃO

Desde que Abraham Zapruder filmou o assassinato de John Kennedy, poucas vezes as imagens de um cineasta amador sobre um grande desastre público ganharam tal repercussão. As cenas gravadas por Kimberly Rivers antes, durante e logo após a passagem do furacão Katryna por Nova Orleans formam a espinha dorsal de Trouble the Water, vencedor do Grande Prêmio do Júri na competição de docs do Sundance 2008.



Nos últimos anos, a figura do cineasta amador virou um fetiche das mídias televisiva e virtual em sua demanda por mais realidade. As imagens do cineasta amador não precisam ser bem filmadas (é até bom que não sejam, pois assim confirmam uma estética do espontâneo), mas devem trazer aquela intensidade e singularidade que caracterizam a presença do homem comum diante do fato. No caso de Trouble the Water, há o acréscimo da experiência-limite vivida por quem filma. Kimberly gravou a sobrevivência dela e da família à catástrofe.



Em Trouble the Water o que está em questão é o controle da imagem dentro e fora do furacão. Há três instâncias de imagens no filme. Há a imagem sob controle do noticiário de TV, editado segundo as conveniências de concisão e dramaticidade do veículo. Mesmo aí, percebemos a ameaça do descontrole quando um repórter é arrastado pelo vento diante da câmera. Há as imagens de Kimberly, seu marido e amigos voltando aos cenários da destruição, já então filmados “sob controle” pelos cineastas Tia Lessin e Carl Deal, que os conheceram num abrigo. Tia e Carl são habituais parceiros de Michael Moore, tendo produzido Tiros em Columbine e Fahrenheit 11/9.



Há, por fim, as filmagens rústicas de Kimberly, que expressam em si mesmas o drama da perda de controle. A princípio brincalhona, na iminência da passagem do furacão, Kimberly filma sua casa, os vizinhos e o bairro açoitado pelo vento. Ela não tinha recursos para deixar a cidade e resolveu “fazer um documentário antes da chegada da CNN”. Com o rompimento da barragem, a três quadras de sua casa, ela continuou a registrar a procura de lugares mais altos para escapar à sanha das águas. As imagens trôpegas e mal definidas transmitem um desespero crescente, à medida que Kimberly e seus companheiros vão passando de testemunhas a sobreviventes.



De alguma forma, Tia Lessin e Carl Deal tiraram de Kimberly o “controle” de suas imagens, editando-as segundo um modelo de narrativa em flashbacks. Tiraram-lhe a oportunidade de fazer o “seu” documentário, incorporando-o como material de arquivo de Trouble the Water. Em contrapartida, projetaram o seu drama pessoal como metonímia de um contexto bem maior. Enquanto Kimberly e o marido Scott Roberts refazem a trajetória de sua fuga e tentam recomeçar a vida, o filme faz a crônica de uma administração pública indigente no atendimento às necessidades de uma das parcelas mais pobres da população dos EUA. A guerra do Iraque manteve-se todo o tempo no primeiro lugar da agenda governamental. Em Nova Orleans, durante e após a passagem do Katryna, a prioridade era proteger os bens materiais e estabelecer uma ordem militar em vez de socorrer as vítimas. As câmeras de Lessin e Deal captam cenas de devastação humana comparáveis às de Ensaio sobre a Cegueira, com a agravante de serem reais e se passarem não num país imaginário, mas no mais rico do mundo. (Ocorreu-me essa associação também porque o ator Danny Glover, o homem da venda preta no filme de Meirelles, é um dos produtores executivos de Trouble the Water).



Como bom “filme americano”, este não está imune às mensagens de heroísmo, resiliência e superação. Cenas de uma manifestação demonstram que a tragédia foi assimilada na geração de novas forças políticas. Scott aparece nas últimas cenas como que redimido de um passado barra-pesada, com emprego novo e expressão apaziguada. E Kimberly dá os primeiros passos numa promissora carreira de rapper, com o pseudônimo de Black Kold Madina. Antes do filme terminar, ela dá provas de um talento e uma força arrepiantes. Desde então, já podia escolher seu futuro, na música ou no documentário.



A contar como mérito do filme, uma visão franca de gente que leva a vida nas franjas da sociedade. Fica claro que muitos moradores de bairros pobres da Louisiania são imprevidentes, marginais por opção e têm relações mais do que íntimas com o álcool, as drogas e os presídios. O ponto, contudo, é que nada disso importa quando se trata de preservar a vida humana. Trouble the Water nos confronta a todos com nossos julgamentos morais.

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