Críticas


FESTIVAL DO RIO 2008: ANITA O´DAY

De: ROBBIE CAVOLINA, IAN MCCRUDDEN
09.10.2008
Por Carlos Alberto Mattos
ANITA, A INDESTRUTÍVEL

Anita O’Day (1919-2006) não foi uma cantora como as outras. Era uma “song stylist”, capaz de recriar inteiramente uma canção com inesperadas variações de ritmo mas sem torná-la irreconhecível. Não era uma lady nem uma big star, mas “um dos caras da banda” – e para isso lançou a moda de se apresentar com terninhos e gravata. Única branca entre as grandes-grandes do jazz, levou a vida no mesmo ritmo acelerado e imprevisível com que disparava o Tea for Two mais veloz do mundo.



O documentário de Robbie Cavolina (seu empresário nos últimos anos) e Ian McCrudden quer contar uma vida autenticamente levada em jazz. E quem melhor conta isso é a própria Anita, que já havia dado todos os detalhes – incluindo abortos e estupros – no seu livro de memórias High Times, Hard Times (1981). Através de entrevistas de várias épocas de sua vida, ela remonta uma história de paixões loucas, vício em álcool e heroína, quatro meses na cadeia e uma atitude de permanente desafio à caretice e às regras do glamour bem-comportado.



É uma vida marcada também por curiosas fatalidade médicas – do acidente numa operação de amígdalas na infância que mudou a característica de sua voz à quebra de um braço na velhice que desatou uma sucessão de infortúnios. É espantoso ver como aquela mulher sobreviveu até os 87 anos, vivendo seus últimos tempos num retiro de aposentados, cantando e gravando até quase o derradeiro suspiro. Parecia mesmo indestrutível, como declarava o título de seu último disco.



Anita falava como cantava: livre, lépida, surpreendente. E forte. Ouvi-la é entretenimento garantido – e o filme se vale disso com muita propriedade, cercando-a de curtos depoimentos que ajudam a focar sua personalidade e seu valor. Os relatos muito francos da dependência das drogas, sem orgulho mas também sem arrependimentos, alteram completamente a nossa maneira de vê-la cantar nos muitos clipes antológicos incluídos no filme.



Ela não foi trágica como Billie Holiday, nem sacralizada como Ella Fitzgerald, nem tão versátil quanto Sarah Vaughan. Mas se ombreou com todas elas no desbravamento de novas fronteiras do canto jazzístico. E, apesar de todas as extravagâncias perto ou longe dos microfones, foi das quatro a que viveu mais tempo. Esta cinebiografia, em sua eficiente simplicidade, faz justiça a uma mulher incomum.





DOM (5/10) 15:50 Est Vivo Gávea 4 [GV447]

DOM (5/10) 22:20 Est Vivo Gávea 4 [GV450]

QUI (9/10) 17:15 Caixa Cultural 2

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