Críticas


VICKY CRISTINA BARCELONA

De: WOODY ALLEN
Com: JAVIER BARDEM, SCARLETT JOHANSSON, PENELOPE CRUZ, REBECCA HALL
30.11.2008
Por Ricardo Cota
ALLEN TOLSTOI BARCELONA

Peço licença aos amigos de (sacri)ofício Gallego e Janot para meter a mão

na cumbuca do Woody Allen. Discordo e concordo com ambos. No que diz

respeito ao Gallego, concordo com Janot. Não vejo realmente influências

de Truffautt em Vicky Cristina Barcelona. A narrativa em off é mesmo

excessiva. Allen podia ter usado menos o recurso.



Por outro lado, discordo de Janot, e aí concordo com Gallego, que o filme não está lá tão longe de Woody Allen. Como autor, Allen é um "Zelig" que somatiza

influências dos seus mais diversos ídolos. Ingmar Bergman talvez seja o

mais presente. Há desde as referências óbvias, como Interiores (revejam!

revejam!), Setembro e A Outra, até as mais inusitadas, como a procissão à

la Sétimo Selo de Bananas e o final com pitadas de Persona de A Última

Noite de Boris Grushenko
. Meus preferidos são Crimes e Pecados

(obra-prima! Obra-prima!! Obra-prima!!!), com toda uma sequência tirada de

Morangos Silvestres, e Maridos e Esposas. Allen também já andou emulando

John Cassavetes no próprio Maridos e Esposas e em Um Misterioso

Assassinato em Manhattan
. E usa e abusa do histrionismo de Bob Hope desde

Um Assaltante Bem Trapalhão até O Mistério do Escorpião de Jade.



Nada disso aparece em Vicky Cristina Barcelona, o que não quer dizer que

Allen deixou de ser Allen. Desde Match Point o diretor retomou outra de

suas grandes influências que meus dois comparsas esqueceram de citar: a

literatura russa do século XIX. O protagonista de Match Point é um

Rashkolnikov pós-moderno, cínico e sem culpa. Os irmãos Karamazov de O

Sonho de Cassandra
vivem à sombra dos fantasmas éticos e morais. E

finalmente Vicky Cristina Barcelona é um retorno à sofisiticação narrativa

de um dos maiores ídolos de Allen: Tolstoi.



Sem o brilho de Hannah e Suas Irmãs, Vicky Cristina Barcelona é um exercício de estilo narrativo cuja fonte é "Anna Karenina", obra fetiche de Allen.



Ainda que imperfeito, com dois grandes personagens, Vicky e Cristina, e outros nem tanto, Juan Antonio e Maria Elena, o filme aguarda surpresas como a revelação da

infidelidade da amiga de Vicky e reflexões íntimas, como a epifania de

Cristina, que só os melhores narradores reservam.



Allen, portanto, continua Allen, como quer Gallego; porém não truffauttiano, como destaca Janot. Mãos fora da cumbuca.

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